Nenhures* 10 de novembro de 2003
POBRES E SUJOS
Mais infeliz do que aquele presidente que garantia ter “um pé na cozinha” para explicar sua miscigenação, ou chamava de “vagabundos” as pessoas que já tinham dedicado sua vida ao serviço público e tentavam manter dignidade na merecida aposentadoria, só mesmo a frase do presidente Luis Inácio Lula da Silva dizendo, ao encerrar sua visita ao continente africano que Windoeck, a capital da Namíbia é tão limpa que não parece África. Na se conhece, na história recente do Brasil, manifestação tão explícita de preconceito feita por um presidente da República. Já tivemos presidente que preferia cheiro de cavalo ao cheiro do povo. E até presidente que gostava de sair cheirando mas, com tanta carga de preconceito, essa é a primeira vez.
Agora imaginem se o presidente do Chile, depois de circular por Recife, Salvador e São Luís desembarcasse em Curitiba e dissesse que a capital paranaense é tão limpinha com um povo tão branquinho, que nem parece Brasil. Nós seríamos capazes de sair caçando chilenos nas redondezas para vingar nosso orgulho, ferido por um presidente mal educado e grosseiro.
Mas não foi essa a única frase carregada de preconceito dita por Lula no seu discurso em Windoeck. Na seqüência, tentando remendar o constrangimento, ele mais uma vez demonstrou o quanto despreza quem tem traços de não-europeu. No caso, um preconceito mais sofisticado porque racista, também. Ao dizer que “a visão que se tem da América do Sul é de que é um continente de índio pobre” frase que se seguiu ao comentário sobre a limpeza da Namíbia, Lula, tentou exorcizar seus fantasmas e complexos por ter tido uma vida miserável, e nascido num continente empobrecido e, sim, também indígena, com muito orgulho, senhor presidente.
Essa seqüência do discurso foi um recado para que países ricos não olhem o Brasil e, por extensão, a América Latina, tampando o nariz. “Olhem, senhores, não somos apenas um continente de índio pobre, sujo, cheirando a urucum e jenipapo, esfarrapados vendendo artesanato na rua. Temos ricos e brancos, também. Temos até pessoas que sabem tomar Romanée-Contie e esquiam em Denver”. Só um recadinho, Lula, a moda dos ricos agora, não é mais esquiar no Colorado. Os limpos estão preferindo Sun Valley, em Idaho. Os sujos continuam surfando sobre os trens da Central do Brasil.
Mas vamos à questão da sujeira aliada à pobreza. A África, ao lado de algumas regiões da América Latina e Ásia, é uma das áreas mais desertificadas do planeta. Desertificação provocada não por fenômenos naturais, mas pela exploração selvagem de seus recursos naturais, comandada pelos países do ricos ( e limpos) que mantinham naquele continente extensos latifúndios, cultivando a terra sem o menor cuidado.
Cameroun, Mauritânia, Angola, só para citar alguns, são países em que a desertificação está expulsando o povo do campo que não tem mais água nem para beber. Só na cidade de Nouakchott, capital da Mauritânia vive mais de 40% da população de todo o país. Camponeses que fogem da seca. Realidade conhecida pelos camponeses do Nordeste brasileiro que migram para as metrópoles.
Em 1999, reuniu-se em Recife a convenção da ONU de combate à desertificação. Os representantes africanos foram unânimes em apontar o latifúndio como uma das principais causas dessa tragédia. Tal como o Brasil, muitos países da África não promoveram sua reforma agrária.
Além do latifúndio, fruto de um colonialismo bestial que exauriu a África, a corrupção também contribui para o espetáculo de miséria e sujeira visto vor Lula. E a corrupção, herança maldita dos colonizadores, persiste até os dias de hoje. Angola, país rico em diamantes e petróleo teve uma guerra mais prolongada porque algumas autoridades do Governo negociavam diamantes com os inimigos. E Jonas Savimbi trocava tudo por armas.
Os recursos financeiros para programas de combate às secas ou às desertificações nunca chegam ao povo. Escorrem pelos açudes dos latifundiários. Governos populistas não elaboram projetos para levar água e saneamento às populações miseráveis do Brasil ou da África, apenas fabricam projetos cosmetológicos sem qualquer preocupação em atacar o problema na raíz.
No agreste meridional onde nasceu Lula, sujeira e pobreza se confundem. Não há água. Nem suja, nem limpa. Talvez por isso e porque “os preconceitos afloram no improviso”, como disse o deputado José Carlos Aleluia líder do PFL na Câmara dos Deputados do Brasil, referindo-se à gafe do presidente da República, é que Lula carregue, no seu inconsciente, a idéia de que pobre e sujo sejam sinônimos qualificativos de povos que foram barbarizados pela corrupção dos impérios.
Num outro pnto da África um pacifista disse “Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”. Nesse caso, nem o quê falam.
* Quando do processo de criação desta página pedi à família e aos amigos que sugerissem um nome. O neologismo Nenhures, ou não-lugar, palavra que bem define o mundo virtual, foi sugestão de Helena Schiel, estudante de mestrado em Antropologia, na USP e, minha filha. Nenhures é qualquer lugar onde este noticiário estiver sendo escrito.
POBRES E SUJOS
Mais infeliz do que aquele presidente que garantia ter “um pé na cozinha” para explicar sua miscigenação, ou chamava de “vagabundos” as pessoas que já tinham dedicado sua vida ao serviço público e tentavam manter dignidade na merecida aposentadoria, só mesmo a frase do presidente Luis Inácio Lula da Silva dizendo, ao encerrar sua visita ao continente africano que Windoeck, a capital da Namíbia é tão limpa que não parece África. Na se conhece, na história recente do Brasil, manifestação tão explícita de preconceito feita por um presidente da República. Já tivemos presidente que preferia cheiro de cavalo ao cheiro do povo. E até presidente que gostava de sair cheirando mas, com tanta carga de preconceito, essa é a primeira vez.
Agora imaginem se o presidente do Chile, depois de circular por Recife, Salvador e São Luís desembarcasse em Curitiba e dissesse que a capital paranaense é tão limpinha com um povo tão branquinho, que nem parece Brasil. Nós seríamos capazes de sair caçando chilenos nas redondezas para vingar nosso orgulho, ferido por um presidente mal educado e grosseiro.
Mas não foi essa a única frase carregada de preconceito dita por Lula no seu discurso em Windoeck. Na seqüência, tentando remendar o constrangimento, ele mais uma vez demonstrou o quanto despreza quem tem traços de não-europeu. No caso, um preconceito mais sofisticado porque racista, também. Ao dizer que “a visão que se tem da América do Sul é de que é um continente de índio pobre” frase que se seguiu ao comentário sobre a limpeza da Namíbia, Lula, tentou exorcizar seus fantasmas e complexos por ter tido uma vida miserável, e nascido num continente empobrecido e, sim, também indígena, com muito orgulho, senhor presidente.
Essa seqüência do discurso foi um recado para que países ricos não olhem o Brasil e, por extensão, a América Latina, tampando o nariz. “Olhem, senhores, não somos apenas um continente de índio pobre, sujo, cheirando a urucum e jenipapo, esfarrapados vendendo artesanato na rua. Temos ricos e brancos, também. Temos até pessoas que sabem tomar Romanée-Contie e esquiam em Denver”. Só um recadinho, Lula, a moda dos ricos agora, não é mais esquiar no Colorado. Os limpos estão preferindo Sun Valley, em Idaho. Os sujos continuam surfando sobre os trens da Central do Brasil.
Mas vamos à questão da sujeira aliada à pobreza. A África, ao lado de algumas regiões da América Latina e Ásia, é uma das áreas mais desertificadas do planeta. Desertificação provocada não por fenômenos naturais, mas pela exploração selvagem de seus recursos naturais, comandada pelos países do ricos ( e limpos) que mantinham naquele continente extensos latifúndios, cultivando a terra sem o menor cuidado.
Cameroun, Mauritânia, Angola, só para citar alguns, são países em que a desertificação está expulsando o povo do campo que não tem mais água nem para beber. Só na cidade de Nouakchott, capital da Mauritânia vive mais de 40% da população de todo o país. Camponeses que fogem da seca. Realidade conhecida pelos camponeses do Nordeste brasileiro que migram para as metrópoles.
Em 1999, reuniu-se em Recife a convenção da ONU de combate à desertificação. Os representantes africanos foram unânimes em apontar o latifúndio como uma das principais causas dessa tragédia. Tal como o Brasil, muitos países da África não promoveram sua reforma agrária.
Além do latifúndio, fruto de um colonialismo bestial que exauriu a África, a corrupção também contribui para o espetáculo de miséria e sujeira visto vor Lula. E a corrupção, herança maldita dos colonizadores, persiste até os dias de hoje. Angola, país rico em diamantes e petróleo teve uma guerra mais prolongada porque algumas autoridades do Governo negociavam diamantes com os inimigos. E Jonas Savimbi trocava tudo por armas.
Os recursos financeiros para programas de combate às secas ou às desertificações nunca chegam ao povo. Escorrem pelos açudes dos latifundiários. Governos populistas não elaboram projetos para levar água e saneamento às populações miseráveis do Brasil ou da África, apenas fabricam projetos cosmetológicos sem qualquer preocupação em atacar o problema na raíz.
No agreste meridional onde nasceu Lula, sujeira e pobreza se confundem. Não há água. Nem suja, nem limpa. Talvez por isso e porque “os preconceitos afloram no improviso”, como disse o deputado José Carlos Aleluia líder do PFL na Câmara dos Deputados do Brasil, referindo-se à gafe do presidente da República, é que Lula carregue, no seu inconsciente, a idéia de que pobre e sujo sejam sinônimos qualificativos de povos que foram barbarizados pela corrupção dos impérios.
Num outro pnto da África um pacifista disse “Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”. Nesse caso, nem o quê falam.
* Quando do processo de criação desta página pedi à família e aos amigos que sugerissem um nome. O neologismo Nenhures, ou não-lugar, palavra que bem define o mundo virtual, foi sugestão de Helena Schiel, estudante de mestrado em Antropologia, na USP e, minha filha. Nenhures é qualquer lugar onde este noticiário estiver sendo escrito.
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