NAS ENTRELINHAS                                 


NOSSA AMÉRICA

de Memélia Moreira

Domingo, Novembro 09, 2003

URIBE REFORÇA PARAMILITARES

Mesmo derrotado nas eleições municipais do país, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, está se comportando como se nada tivesse mudado. Ele decidiu estabelecer diálogo permanente com as forças paramilitares que atuam na Colômbia e são responsáveis pelo assassinato de milhares de camponeses e opositores ao regime, além de funcionarem como exército particular dos grandes latifundiários.
Uribe mudou quatro leis, inclusive a de Segurança Nacional, facilitando e legalizando os paramilitares que, na verdade, são mercenários e integrantes das forças armadas regulares que recebem bons salários e atuam como esquadrão da morte com apoio institucional.
A denúncia, que não mereceu destaque entre aqueles que estão prontos a apontar os guerrilheiros das FARC como únicos responsáveis pela violência na Colômbia, foi feita pelo Coletivo de Advogados, instituição daquele país que trabalha em defesa dos direitos humanos; Comité de Solidariedade aos Presos Políticos, Associação Nacional de Ajuda Solidária, Confederação Nacional dos Trabalhadores Democráticos, União Patriótica, Partido Comunista Colombiano e Associação Colombiana de Estudantes.
Uribe está acendendo o rastilho. Argentina e Bolívia são exemplos mais recentes de que os povos da América Latina estão começando a reagir (e com violência) a estadistas desse porte. Em convívio diário com a guerra civil, que já tem mais de 40 anos, o povo colombiano é o mais preparado para pequenas e grandes rebeliões.
E o recado das urnas, ainda pacífico, foi claro. O percentual de votos “Não” no plebiscito que propunha dar amplos poderes a Uribe para que este baixasse medidas de emergência sem dar satisfação é bem maior do que os votos “Sim”. Além disso, o povo colombiano, atendendo à campanha de abstenção feita pelos oposicionistas, não foi votar. Para completar o quadro de derrota imposto ao presidente, seus candidatos perderam as eleições para as prefeituras das principais cidades do país, inclusive em Bogotá.
A derrota dos candidatos já é oficial, mas até agora não foi anunciado oficialmente o resultado final do plebiscito. A apuração foi interrompida duas vezes pelo próprio Governo, quando viu percebeu o alto índice de abstenções. Qualquer alteração desse resultado pode fazer o paiol explodir.
Para quem já se esqueceu, na biografia de Alvaro Uribe há ítem que o vincula ao narcotráfico. Há alguns anos, ele perdeu seu emprego no Ministério da Aeronáutica porque distribuía brevets para os pilotos do cartel de Medellin. Apesar desses antecedentes, Uribe tem total apoio do governo norte-americano e, o embaixador dos Estados Unidos em Bogotá participou ativamente da campanha do plebiscito, indo às televisões para pedir que o povo aprovasse a proposta de Uribe.
O povo não foi na conversa e disse não nas urnas. A grande interrogação é quanto tempo vai durar o pacifismo e, pior ainda, qual será a reação dos Estados Unidos que já tem 80 técnicos civis e 30 técnicos militares trabalhando na Colômbia para, oficialmente, combater o narcotráfico.