NAS ENTRELINHAS                                 


CARTA ABERTA

de Memélia Moreira

Domingo, Novembro 16, 2003

Nenhures, 17 de novembro de 2003

Era setembro de 1971, tempo em que se andava olhando para baixo, por vergonha e medo. Na redação da TV Globo em Brasília, Valdemar Pacheco, um desses jornalistas que também são mestres, esticava os braços para cima, espreguiçando-se, quando o editor, Waldimir Diniz, que além disso era poeta, subiu as escadas acanhadas da redação no Venâncio III ou IV do Setor de Diversões Sul da capital do Brasil. “Lamarca morrreu, Lamarca morreu’’, gritava o editor esbaforido com um pedaço de papel de telex na mão, anunciando a morte do capitão do Exército e guerrilheiro Carlos Lamarca, no interior da Bahia. O jornalista Valdemar convocou os repórteres dizendo, “escrevam rapidinho quê vocês sabem sobre Lamarca antes que chegue a ordem da censura proibindo a divulgação da notícia’’.
Quando o censor chegou, a notícia já tinha ido ao ar.
Desde o final dos anos 60 até os anos 80, fazer notícia no Brasil era um safari no qual o jornalista virava caça (alguns, entre eles Vladimir Herzog, perderam a vida pela notícia) quando se dispunha a denunciar ou, simplesmente anunciar itens da agenda negativa da ditadura militar que governou o País de 1964 a 1985.
Daquele setembro de 1971 para novembro de 2003, o povo brasileiro e as oposições armadas, ou não, foram impondo derrotas seguidas ao regime militar que saiu pelas portas dos fundos do Palácio do Planalto (o último deles, general João Batista Figueiredo saiu pelos fundos do palácio para não entregar a faixa ao sucessor José Sarney) pedindo para que todos se esquecessem e o Brasil foi às urnas escolher um presidente.
O banimento da censura tornou possível ao povo brasileiro desalojar Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto universal depois da ditadura, do Palácio do Planalto. Um ano depois, exatamente porque não mais estava censurada, a imprensa denunciou os mecanismos de corrupção usados pelos parlamentares que integravam a Comissão de Orçamento e ajudou a expurgar homens que construiram fortunas em cima das misérias do povo.
A “CPI dos anões”, como ficou conhecida a Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou os parlamentares que manipulavam o Orçamento da União engordando seus cofrinhos parecia ter consagrado a liberdade de informação. Mas, para que não esqueçamos os anos de chumbo, o presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, eleito pelo Partido dos Trabalhadores de São Paulo, não teve nenhum escrúpulo em retomar esse exercício digno de republiquetas sem caráter ou talibans ensandecidos.
Ao criticar a edição do “Jornal da Câmara” que divulgou a notícia da condenação do deputado Inocêncio Oliveira, do Partido da Frente Liberal de Pernambuco, pela prática de trabalho escravo, João Paulo Cunha, um jovem, ambicioso e vaidoso deputado ao mesmo tempo em que nos faz recordar os anos censurados, estimula essa ignominiosa realidade que vem sendo combatida por missionários dedicados da Igreja Católica, entre eles o padre Ricardo Rezende; funcionários do Ministério do Trabalho que, apesar das condições desbaratam a quadrilha escravagista e até jovens juízes que condenam os políticos poderosos e empresários sem escrúpulos.
João Paulo também está desautorizando companheiros de seu próprio partido, entre eles, o deputado Paulo Rocha, do Pará, que tem um projeto de lei tramitando no Congresso no qual prevê a desapropriação de terras de fazendeiros que submetem trabalhadores à condição análoga de escravo, crime previsto no Código Penal Brasileiro.
Além de ressuscitar a censura, o presidente da Câmara dos Deputados colabora também para expor o Brasil à crítica dos organismos internacionais de Direitos Humanos, entre eles, a Anistia Internacional e a Anti-Slavery Society, esta última criada em Londres ainda no século XIX para combater a escravidão e que concedeu ao padre Ricardo Rezende um prêmio por suas denúncias contra o trabalho escravo no sul do Pará.
Por acreditar que só a liberdade de informação combate a corrupção e a impunidade, “Nas Entrelinhas” está levando o caso do Jornal da Câmara e a defesa feita pelo presidente daquela casa a um colega que pratica a mais torpe das explorações humanas para o IX Encontro da Federação Latinoamericana de Periodistas que vai acontecer no México entre os dias 19 e 21 de novembro com o tema “Imprensa livre em países livres’’.
ABAIXO A CENSURA!

Memélia Moreira, editora