Nenhures, 1º de dezembro de 2003-11-30
Os ditadores e candidatos ao posto têm muitas características em comum. Duas, entretanto, determinam o caráter cruel desas personalidades. A primeira, o desejo de uma longa permanência no poder. Há até quem transmita o cargo pelo critério da hereditariedade. O exemplo mais recente é o da Coréia do Norte. O outro, a intolerância diante das contestações. Para essa, usam o recurso da censura. Na semana que passou, o presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, exibiu, em ocasiões distintas, essas duas características.
Primeiro, numa breve conversa com jornalistas, quando se manifestou sobre a possibilidade de concorrer à reeleição, pretensão constitucionalmente válida, admitiu estar pronto para permanecer no Governo. Mas, em seguida, deixou o inconsciente falar mais alto e emendou: ‘’É muito cedo para falarmos quanto tempo nós queremos permanecer no Governo. Nós vamos trabalhar para ficar o maior tempo possível. Há coisas que levam dez, 15 anos para fazer”.
Ora, levando-se em conta que o mandato é de quatro anos, com direito a mais quatro se vencer uma reeleição, a afirmativa de que vai trabalhar para ficar o maior tempo possível já é, por si só um sinal amarelo. Mas completar a frase dizendo que há coisas que precisam dez, quinze anos anos para serem realizadas é uma ameaça. Que interpretação pode ser dada a essa declaração? O presidente Lula quer prorrogar o jogo além do tempo regulamentar porque não conseguiu ainda marcar seu goal? Vai mudar as regras em pleno jogo? Uso a imagem do futebol propositadamente porque o presidente entende melhor essa linguagem.
E daqui a dois anos, se os índices da renda média do trabalhador cair além dos atuais 15.2% que foi índice de outubro, taxa comparada a outubro de 2002, o presidente vai considerar que 15 anos é pouco e dizer que quer ficar mais? O poder, disse Emiliano Zapata, herói da revolução mexicana, corrompe. Até o caraáter.
A outra demonstração de uma personalidade com inclinações ditatoriais aconteceu na solenidade de abertura da Conferência Nacional do Meio Ambiente. Irritado com as faixas de protesto abertas por militantes ecológicos, o presidente partiu para o ataque. “Aprendi a fazer política na confrontação. Nasci na política, na adversidade e vou exercer meu Governo desse jeito.Se tivesse medo de grito acho que nem tinha nascido”, bradou o presidente, deixando o discurso escrito de lado.
Não faz muito tempo e tivemos espetáculos semelhantes de destempero presidencial. Em 1983, com o general João Baptista de Figueiredo, o último dos ditadores militares, em Florianópolis, capital de Santa Catarina. Explosivo, o general-presidente chegou a descer do palanque e convidar estudantes que faziam protesto para uma luta corporal. Em 1990, Collor, em situação semelhante, respondeu com vulgaridade aos protestos de um grupo de militantes petistas dizendo que também era corajoso porque “tenho aquilo roxo”.
Daqui a quatro meses, quando 2004 entrar no seu primeiro trimestre, nem Lula, nem seus ministros poderão creditar a taxa de desemprego (só em outubro mais 494 mil brasileiros entraram na estatística do desemprego que em um ano apresentou taxa de crescimento de 21,7%) à ‘’herança maldita” do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Não haverá mais a desculpa de que o orçamento para a área social foi “do governo passado”. Fatalmente, levando-se em conta de que não há sinais de reversão no cenário econômico, as manifestações de protesto vão crescer. O que fará o presidente? Um de seus parceiros de destempero ameaçava “prender e arrebentar quem for contra a democracia”.
Se com uma faixa (que, nem de protesto era, apenas de cobrança por maior firmeza na política ambiental) o presidente da República já reagiu irritado, imagine-se quando crescerem as manifestações e elas forem mais vigorosas.
A unanimidade só resiste em regimes ditatoriais ou de alto poder de corrupção que, aliás, andam sempre de mãos dadas. Protestos revigoram as democracias. Mas, para quem começa a esboçar o desejo de ficar o maior tempo possível no poder, democracia talvez seja um empecilho a seus projetos de governamentais. Sem contar que Lula no mesmo dia em que deixou escapar seu desejo de longevidade no poder deu mais uma prova de sua instransig~encia ao dizer que não há perdão para a senadora Heloísa Helena, companheira de partido e que votou coerente com as posições do PT, contra a reforma da Previdência. Todos esses sinais são perigosos.
Que Deus nos proteja!
PS-A partir do dia dois de dezembro, Lula vai mais uma vez ao exterior. Recordista de viagens internacionais, ele embarca para o mundo árabe.
Por favor, senhor presidente, sem gafes dessa vez. Por mais que o senhor despreze a academia e o conhecimento científicio, lembre-se que turco não é árabe, libanês é tão diferente de sírio quanto somos dos argentinos. Há naquele universo dezenas de povos distintos. Mesmo desprezando aqueles que frequentaram a academia e produziram conhecimento, aproveite o tempo de vôo para ler alguma coisa sobre o mundo que o senhor vai conhecer. Deixe os vexames para quando o senhor não mais representar o povo brasileiro em outras terras. Não merecemos passar vergonha.
Memélia Moreira, editora
Os ditadores e candidatos ao posto têm muitas características em comum. Duas, entretanto, determinam o caráter cruel desas personalidades. A primeira, o desejo de uma longa permanência no poder. Há até quem transmita o cargo pelo critério da hereditariedade. O exemplo mais recente é o da Coréia do Norte. O outro, a intolerância diante das contestações. Para essa, usam o recurso da censura. Na semana que passou, o presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, exibiu, em ocasiões distintas, essas duas características.
Primeiro, numa breve conversa com jornalistas, quando se manifestou sobre a possibilidade de concorrer à reeleição, pretensão constitucionalmente válida, admitiu estar pronto para permanecer no Governo. Mas, em seguida, deixou o inconsciente falar mais alto e emendou: ‘’É muito cedo para falarmos quanto tempo nós queremos permanecer no Governo. Nós vamos trabalhar para ficar o maior tempo possível. Há coisas que levam dez, 15 anos para fazer”.
Ora, levando-se em conta que o mandato é de quatro anos, com direito a mais quatro se vencer uma reeleição, a afirmativa de que vai trabalhar para ficar o maior tempo possível já é, por si só um sinal amarelo. Mas completar a frase dizendo que há coisas que precisam dez, quinze anos anos para serem realizadas é uma ameaça. Que interpretação pode ser dada a essa declaração? O presidente Lula quer prorrogar o jogo além do tempo regulamentar porque não conseguiu ainda marcar seu goal? Vai mudar as regras em pleno jogo? Uso a imagem do futebol propositadamente porque o presidente entende melhor essa linguagem.
E daqui a dois anos, se os índices da renda média do trabalhador cair além dos atuais 15.2% que foi índice de outubro, taxa comparada a outubro de 2002, o presidente vai considerar que 15 anos é pouco e dizer que quer ficar mais? O poder, disse Emiliano Zapata, herói da revolução mexicana, corrompe. Até o caraáter.
A outra demonstração de uma personalidade com inclinações ditatoriais aconteceu na solenidade de abertura da Conferência Nacional do Meio Ambiente. Irritado com as faixas de protesto abertas por militantes ecológicos, o presidente partiu para o ataque. “Aprendi a fazer política na confrontação. Nasci na política, na adversidade e vou exercer meu Governo desse jeito.Se tivesse medo de grito acho que nem tinha nascido”, bradou o presidente, deixando o discurso escrito de lado.
Não faz muito tempo e tivemos espetáculos semelhantes de destempero presidencial. Em 1983, com o general João Baptista de Figueiredo, o último dos ditadores militares, em Florianópolis, capital de Santa Catarina. Explosivo, o general-presidente chegou a descer do palanque e convidar estudantes que faziam protesto para uma luta corporal. Em 1990, Collor, em situação semelhante, respondeu com vulgaridade aos protestos de um grupo de militantes petistas dizendo que também era corajoso porque “tenho aquilo roxo”.
Daqui a quatro meses, quando 2004 entrar no seu primeiro trimestre, nem Lula, nem seus ministros poderão creditar a taxa de desemprego (só em outubro mais 494 mil brasileiros entraram na estatística do desemprego que em um ano apresentou taxa de crescimento de 21,7%) à ‘’herança maldita” do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Não haverá mais a desculpa de que o orçamento para a área social foi “do governo passado”. Fatalmente, levando-se em conta de que não há sinais de reversão no cenário econômico, as manifestações de protesto vão crescer. O que fará o presidente? Um de seus parceiros de destempero ameaçava “prender e arrebentar quem for contra a democracia”.
Se com uma faixa (que, nem de protesto era, apenas de cobrança por maior firmeza na política ambiental) o presidente da República já reagiu irritado, imagine-se quando crescerem as manifestações e elas forem mais vigorosas.
A unanimidade só resiste em regimes ditatoriais ou de alto poder de corrupção que, aliás, andam sempre de mãos dadas. Protestos revigoram as democracias. Mas, para quem começa a esboçar o desejo de ficar o maior tempo possível no poder, democracia talvez seja um empecilho a seus projetos de governamentais. Sem contar que Lula no mesmo dia em que deixou escapar seu desejo de longevidade no poder deu mais uma prova de sua instransig~encia ao dizer que não há perdão para a senadora Heloísa Helena, companheira de partido e que votou coerente com as posições do PT, contra a reforma da Previdência. Todos esses sinais são perigosos.
Que Deus nos proteja!
PS-A partir do dia dois de dezembro, Lula vai mais uma vez ao exterior. Recordista de viagens internacionais, ele embarca para o mundo árabe.
Por favor, senhor presidente, sem gafes dessa vez. Por mais que o senhor despreze a academia e o conhecimento científicio, lembre-se que turco não é árabe, libanês é tão diferente de sírio quanto somos dos argentinos. Há naquele universo dezenas de povos distintos. Mesmo desprezando aqueles que frequentaram a academia e produziram conhecimento, aproveite o tempo de vôo para ler alguma coisa sobre o mundo que o senhor vai conhecer. Deixe os vexames para quando o senhor não mais representar o povo brasileiro em outras terras. Não merecemos passar vergonha.
Memélia Moreira, editora
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