NAS ENTRELINHAS                                 


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de Memélia Moreira

Terça-feira, Dezembro 16, 2003

ARTE E MAGIA EM MOVIMENTO

Ópera, circo, ballet, teatro e, em alguns momentos, quadros vivos de Bosch. Todos esses elementos compõem o espetáculo do Cirque de Soleil, uma companhia criada no Canadá e que percorre o mundo mostrando que é possível reinventar a arte dos antigos saltimbancos.
Há palhaços, equilibristas, bailarinas, trapezistas e contorcionistas, mas não pense que em algum momento você vai assistir o tradicional show circense. Os equilibristas não se contentam em andar sobre um fio de arame. Eles dão saltos mortais e retornam para sentar numa cadeira equilibrada no mesmo fio. E nunca há apenas dois ou três trapezistas. São sempre mais de cinco que se revezam em saltos sêxtuplos, fazem corrente de três ou quatro pessoas que alcançam outro trapézio e, literalmente, voam sobre o luxuoso picadeiro. Contorcionistas chineses mostram que o corpo humano é o mais maleável dos elementos e, no Cirque du Soleil, esse contorcionismo chega ao inimaginávelquando o artista, com todo seu corpo dobrado, a cabeça no lugar dos quadris, os pés no lugar das mãos e mãos no lugar da cabeça, ainda convidam seu colega para repetir o gesto equilibrando-se nas costas. E não se quebram.
Os cenários são ricos, cheios de mistério, com jogo de luzes suficiente para que a platéia, extasiada, não perceba quando estão sendo trocados. E, de repente, é a corte de Luis XIV que se transforma num mercado medieval andrajoso ou a paisagem lunar que vira cena de uma caótica metrópole. Os figurinos dão água na boca. A cada cenário, os trajes são mudados. Homens e mulheres vestem-se de malhas etéreas ou túnicas vaporosas que também são instrumento viram, num segundo, longas cordas por onde eles sobem escadas imaginárias e reaparecem num buraco aberto no meio do picadeiro.
O criador desse espetáculo de magia, Guy Laliberté, sem qualquer exibicionismo diz que o Cirque du Soleil “nasceu e cresceu de um sonho simples de um bando de jovens que queriam apenas viajar, divertir o público e se divertir”. O sonho simples, entretanto, é a maior e mais rica companhia circense do mundo, contando com três espetáculos fixos e mais cinco espetáculos que percorrem o mundo.
Os espetáculos fixos podem ser vistos nas cidfades de Orlando, estado da Florida, no sul dos Estados Unidos e Las Vegas, no estado de Nevada, a oeste. Em Orlando, o Cirque de Soleil apresenta o espetáculo La Nouba que, nas palavras de Laliberté pretende retratar a memória individual e universal do ser humano. Em Las Vegas há dois espetáculos vivos, um no Casino Bellagio, com o show “O’’, inspirado, segundo o criador, ‘’inspirado no conceito infinito e elegância da letra “o” ou número zero e é também a representação fonética da palavra água (em francês, eau, que se pronuncia “ô”). O outro espetáculo de Las Vegas é o “Mystère”, onde se celebra a dança e a música”.
Os espetáculosambulantes, que percorrem o mundo, são “Saltimbancos”, que homenageia a vida e foi concebido, diz Laliberté, “para ser um antídoto à violência do século XX”. Saltimbancos vai estar até 28 de dezembro em valença, na Espanha e segue depois para Sevilha, Nice, Lyons, Basiléia. “Alegria” é o nome do outro espetáculo. “Alegria celebra a emoção do espírito”, diz Laliberté. Nesse espetáculo eles apresentam a dança do fogo e eletrizam a platéia. No momento, apresentam-se em san francisco, estado da Califórnia.
“Quidam” louva as pessoas anônimas que andam pelas ruas e, agora está no Japão de onde segue para outros países do Oriente. “Dralion”, nome composto pelas palavras dragão e leão, funde as antigas tradições do circo chinês com o vanguardismo da companhia canadense. Dralion funde Ocidente (leão) e Oriente (dragão) e está agora em excursão pelo México, de onde segue para Londres e Viena. Por fim, o “Varekai’’, que conta a história de uma cidade longínqua e perdida no cume de um vulcão. É a transposição do realismo fantástico da Literatura latino-americana para um espetáculo teatral. Varekai está em casa. Excursiona pelo Canadá.
Todo esse espetáculo só tem um problema: pagar a entrada. A mais barata custa 80 dólares, quase inacessível para países pobres.