Nenhures, oito de dezembro de 2003
Esquilos e ratos são da família dos roedores. Não estou dizendo nada de novo. Mas, as semelhanças param por ai. E se você acredita que a única diferença entre eles é apenas o peso e o tamanho, aconselho a parar a leitura da carta aqui mesmo. Esquilo são limpinhos, sobem em árvores para procurar os frutos mais tenros, têm pelo em tons diferentes, gostam de comer nozes e outras delicadezas dão saltinhos graciosos e, à noite, se recolhem. Ratos andam em sarjetas, chafurdam na lama, aceitam qualquer resto de comida, atacam à noite e, em alguns lugares, são capazes de espedaçar crianças, fato já acontecido em Brasília.
Antes que você abandone a leitura, quero lhe dizer que os esquilos e ratos só entram na história para falar de duas personalidades públicas, do mesmo partido e que estão sob os holofotes da mídia porque, por razões distintas podem deixar a sigla onde se abrigam. Mas, também por razões distintas, o partido tem tratado um como inimigo, enquanto o outro merece o benefício da dúvida. Ganhou a aposta quem pensou nos petistas Heloísa Helena, brava senadora alagoana e Flamarion Portela, neopetista e governador de Roraima.
A senadora nasceu e cresceu dentro do Partido dos Trabalhadores num lugar onde a filiação a um partido que está a anos-luz do poder é quase suicídio político. Jamais desanimou na sua luta para consolidar o PT e transformá-lo numa força capaz de vencer eleições majoritárias num Estado dominado pelo coronelismo e, consequentemente, pela corrupção. Heloisa Helena seria incapaz de optar por uma sigla que não pregasse a ética, as transformações sociais, a reforma agrária e, principalmente, reduzisse a brutal desigualdade social verificado no Brasil. No próximo domingo a brava senadora será expulsa do PT. “Não há perdão para Heloísa”, disse o presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, frase repetida com outras palavras pelo presidente do PT, José Genoíno.
Flamarion Portela, por sua vez, é uma personalidade obscura, foi vice-governador do também obscuro (e agora réu num processo de corrupção) Neudo Campos, já trocou de partido mais de uma vez, elegeu-se por um tal PSL, partido sem qualquer expressão, onde se refufiam aqueles que querem vender seu passe político para quem oferecer mais vantagens, por isso transferiu-se para o PT logo negociando sua filiação à não homologação da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol em território contínuo. Portela está citado no processo que apura o maior escândalo financeiro já acontecido em Roraima. Ele não está sendo expulso do PT na próxima semana. “Flamarion é um modelo de admistrador”, disse José Genoíno, um dia depois de Flamarion Portela ter sido acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público, no caso da compra de 16 carros para a Polícia Militar, no qual gastou 1.8 milhões de reais. A compra, diz o MP, foi superfaturada. Quem souber calcular não precisa de muita investigação para ver que o preço pago foi além da tabela.
Conheço o presidente do Partido dos Trabalhadores. Nos últimos 20 anos, desde que ele foi eleito deputado federal pela primeira vez, em 1982, convivi com ele diariamente no Congresso Nacional. Foi peça importante em momentos de alta tensão na Câmara, quando os governos que passaram pelo Brasil fizeram votar leis danosas para o povo e para a soberania do País. Era um jovem cheio de vontade de mudar a cruel realidade brasileira, sempre disposto a denunciar a corrupção e foi fundamental tanto na CPI de PC Farias, que derrubou o presidente Fernando Collor, quanto na CPI dos Anões do Orçamento, há dez anos, quando a Câmara expurgou deputados que se apropriavam das verbas que deveriam beneficiar o povo brasileiro.
Com todo esse currículo o presidente do Partido dos Trabalhadores seria a última pessoa a ensaiar qualquer tipo de apoio a quem, até o momento, só consegue levantar mais e mais suspeitas sobre sua participação num escândalo de corrupção, que lesou o povo brasileiro em aproximadamente 500 milhões de reais.
Boa Vista, a capital de Roraima não é cidade grande. As pessoas, mesmo os forasteiros, se conhecem, percebem quando os políticos apresentam sinais crescentes de riqueza. Há mais de três anos a cidade vêm cochichando sobre a praga dos gafanhotos. Ora, se o povo que não frequenta o palácio, que recebe informações de segunda mão sabia do escândalo e comentava, como é que o vice-governador, no caso, Flamarion Portela, desconhecia? Mas, ele tentou, no primeiro momento, convencer a imprensa de que não tinha tomado conhecimento dos fatos. Só quando foi impossível sustentar essa versão, Portela admitiu que ouvia falar, “as pessoas comentavam”. E ele, como vice-governador, ouvia falar, as pessoas comentavam e ele não tomava nenhuma providência. O governador, no mínimo cometeu crime de omissão. E é previsto no Código Penal. Portela foi alertado pelo Ministério Público e preferiu não tomar providências. Fez pior, mentiu dizendo que não havia nenhuma irregularidade. Esse também é outro crime, em se tratando de autoridade. E, mais um agravante à sua historinha de Polichinela: a folha dos gafanhotos aumentou depois que Portela assumiu o governo, em abril do ano passado, no lugar de Neudo Campos. Portela era candidato e, disse o acusado Bernardino Siqueira, ex-deputado estadual, “as contratações de funcionários (os gafanhotos que comiam a folha de pagamento) aumentaram depois que Flamarion Portela assumiu o Governo’’.
Pode ser que Genoíno considere todos estes indícios totalmente irrelevantes. Mas, o presidente do Partido dos Trabalhadores não pode ignorar as evidências e estas apontam para o envolvimento do neopetista Flamarion Portela. E, por uma questão de eqüidade, deveria também conceder à senadora o benefício da dúvida. Quem sabe ela votou contra as atuais posições do PT porque seu partido sempre foi contra reforma da Previdência, contra o desconto dos aposentados e pensionistas e ela ainda não se acostumou? Talvez ela não tenha percebido a mudança. Talvez mereça ser perdoada por ser coerente.
Quanto ao ex-governador Neudo Campos, indiciado em 40 inquéritos, o mínimo que se pode dizer é que ele fez uma verdadeira excursão pelo Código Penal. Talvez não volte para a cadeia, mas já está pagando porque a sociedade o condenou.
Ah, antes que eu me esqueça. Nessa história de roedores, Heloísa Helena é um esquilo.
Até a próxima semana
Memélia Moreira, editora
Esquilos e ratos são da família dos roedores. Não estou dizendo nada de novo. Mas, as semelhanças param por ai. E se você acredita que a única diferença entre eles é apenas o peso e o tamanho, aconselho a parar a leitura da carta aqui mesmo. Esquilo são limpinhos, sobem em árvores para procurar os frutos mais tenros, têm pelo em tons diferentes, gostam de comer nozes e outras delicadezas dão saltinhos graciosos e, à noite, se recolhem. Ratos andam em sarjetas, chafurdam na lama, aceitam qualquer resto de comida, atacam à noite e, em alguns lugares, são capazes de espedaçar crianças, fato já acontecido em Brasília.
Antes que você abandone a leitura, quero lhe dizer que os esquilos e ratos só entram na história para falar de duas personalidades públicas, do mesmo partido e que estão sob os holofotes da mídia porque, por razões distintas podem deixar a sigla onde se abrigam. Mas, também por razões distintas, o partido tem tratado um como inimigo, enquanto o outro merece o benefício da dúvida. Ganhou a aposta quem pensou nos petistas Heloísa Helena, brava senadora alagoana e Flamarion Portela, neopetista e governador de Roraima.
A senadora nasceu e cresceu dentro do Partido dos Trabalhadores num lugar onde a filiação a um partido que está a anos-luz do poder é quase suicídio político. Jamais desanimou na sua luta para consolidar o PT e transformá-lo numa força capaz de vencer eleições majoritárias num Estado dominado pelo coronelismo e, consequentemente, pela corrupção. Heloisa Helena seria incapaz de optar por uma sigla que não pregasse a ética, as transformações sociais, a reforma agrária e, principalmente, reduzisse a brutal desigualdade social verificado no Brasil. No próximo domingo a brava senadora será expulsa do PT. “Não há perdão para Heloísa”, disse o presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, frase repetida com outras palavras pelo presidente do PT, José Genoíno.
Flamarion Portela, por sua vez, é uma personalidade obscura, foi vice-governador do também obscuro (e agora réu num processo de corrupção) Neudo Campos, já trocou de partido mais de uma vez, elegeu-se por um tal PSL, partido sem qualquer expressão, onde se refufiam aqueles que querem vender seu passe político para quem oferecer mais vantagens, por isso transferiu-se para o PT logo negociando sua filiação à não homologação da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol em território contínuo. Portela está citado no processo que apura o maior escândalo financeiro já acontecido em Roraima. Ele não está sendo expulso do PT na próxima semana. “Flamarion é um modelo de admistrador”, disse José Genoíno, um dia depois de Flamarion Portela ter sido acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público, no caso da compra de 16 carros para a Polícia Militar, no qual gastou 1.8 milhões de reais. A compra, diz o MP, foi superfaturada. Quem souber calcular não precisa de muita investigação para ver que o preço pago foi além da tabela.
Conheço o presidente do Partido dos Trabalhadores. Nos últimos 20 anos, desde que ele foi eleito deputado federal pela primeira vez, em 1982, convivi com ele diariamente no Congresso Nacional. Foi peça importante em momentos de alta tensão na Câmara, quando os governos que passaram pelo Brasil fizeram votar leis danosas para o povo e para a soberania do País. Era um jovem cheio de vontade de mudar a cruel realidade brasileira, sempre disposto a denunciar a corrupção e foi fundamental tanto na CPI de PC Farias, que derrubou o presidente Fernando Collor, quanto na CPI dos Anões do Orçamento, há dez anos, quando a Câmara expurgou deputados que se apropriavam das verbas que deveriam beneficiar o povo brasileiro.
Com todo esse currículo o presidente do Partido dos Trabalhadores seria a última pessoa a ensaiar qualquer tipo de apoio a quem, até o momento, só consegue levantar mais e mais suspeitas sobre sua participação num escândalo de corrupção, que lesou o povo brasileiro em aproximadamente 500 milhões de reais.
Boa Vista, a capital de Roraima não é cidade grande. As pessoas, mesmo os forasteiros, se conhecem, percebem quando os políticos apresentam sinais crescentes de riqueza. Há mais de três anos a cidade vêm cochichando sobre a praga dos gafanhotos. Ora, se o povo que não frequenta o palácio, que recebe informações de segunda mão sabia do escândalo e comentava, como é que o vice-governador, no caso, Flamarion Portela, desconhecia? Mas, ele tentou, no primeiro momento, convencer a imprensa de que não tinha tomado conhecimento dos fatos. Só quando foi impossível sustentar essa versão, Portela admitiu que ouvia falar, “as pessoas comentavam”. E ele, como vice-governador, ouvia falar, as pessoas comentavam e ele não tomava nenhuma providência. O governador, no mínimo cometeu crime de omissão. E é previsto no Código Penal. Portela foi alertado pelo Ministério Público e preferiu não tomar providências. Fez pior, mentiu dizendo que não havia nenhuma irregularidade. Esse também é outro crime, em se tratando de autoridade. E, mais um agravante à sua historinha de Polichinela: a folha dos gafanhotos aumentou depois que Portela assumiu o governo, em abril do ano passado, no lugar de Neudo Campos. Portela era candidato e, disse o acusado Bernardino Siqueira, ex-deputado estadual, “as contratações de funcionários (os gafanhotos que comiam a folha de pagamento) aumentaram depois que Flamarion Portela assumiu o Governo’’.
Pode ser que Genoíno considere todos estes indícios totalmente irrelevantes. Mas, o presidente do Partido dos Trabalhadores não pode ignorar as evidências e estas apontam para o envolvimento do neopetista Flamarion Portela. E, por uma questão de eqüidade, deveria também conceder à senadora o benefício da dúvida. Quem sabe ela votou contra as atuais posições do PT porque seu partido sempre foi contra reforma da Previdência, contra o desconto dos aposentados e pensionistas e ela ainda não se acostumou? Talvez ela não tenha percebido a mudança. Talvez mereça ser perdoada por ser coerente.
Quanto ao ex-governador Neudo Campos, indiciado em 40 inquéritos, o mínimo que se pode dizer é que ele fez uma verdadeira excursão pelo Código Penal. Talvez não volte para a cadeia, mas já está pagando porque a sociedade o condenou.
Ah, antes que eu me esqueça. Nessa história de roedores, Heloísa Helena é um esquilo.
Até a próxima semana
Memélia Moreira, editora
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