NAS ENTRELINHAS                                 


RESISTÊNCIA INDÍGENA

de Memélia Moreira

Tuesday, December 23, 2003

FAZENDEIROS PROVOCAM XAVANTES

Trinta anos depois, a história se repete. O povo Xavante vem sofrendo provocações de fazendeiros e pequenos agricultores. Desta vez, no município de Alto da Boa Vista, na terra de Suyá-Missu, em Mato Grosso, que já foi homologada mas o Judiciário impede que os índios retomem seu território. As provocações vêm em forma de ameaça contra as lideranças indígenas e seus aliados, principalmente o bispo de São Félix doAraguaia, Dom Pedro Casaldáliga.
O incompreensível desta história é o comportamento do Judiciário. Se a terra já está homologada significa que foram superadas todas as etapas do processo de definição territorial. Mas, em se tratando do Judiciário de Mato Grosso, tudo é possível. Também é incompreensível a omissão do Estado. Terra homologada é inscrita no serviço de Patrimônioda União. Ou seja, o Governo não está defendendo uma propriedade da União que é de usufruto dos índios.
Os personagens dessa história são os mesmos de há de 30 anos. Na década 70, do século XX, em plena ditadura militar, fazendeiros de Mato Grosso, apoiados por funcionários corruptos da Fundação Nacional do Índio, inclusive o próprio procurador jurídico da Funai, Getúlio Barros Barreto e a advogada, também da Funai, Laia Mattar Rodrigues, esbulharam os xavantes, loteando a terra indígena que hoje é ocupada pelos municípios de Água Boa e Canarana. Os índios iam a Brasília denunciar mas terminaram perdendo a terra. Em troca, receberam máquinas de costura.
Na mesma época, em São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga era ameaçado de morte por fazendeiros, entre eles os proprietários da fazenda Tapiraguaia, que tentavam tomar as terras dos índios Tapirapé. Aqui, os tapirapé venceram a batalha. Dom Pedro, para a alegria de camponeses e índios escapou das ameças. No seu lugar, os fazendeiros mataram o padre João Bosco Penido Burnier. O matador, um soldado da PM de Mato Grosso, errou o alvo. Achava que a pessoa mais bem vestida era o bispo. Dom Pedro sempre usou trajes simples e escapou das balas de Ezi Feitosa.
As provocações dos fazendeiros – que sempre usam os pequenos agricultores na linha de frente – já se estendem há mais de um mes e, agora, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) levou ao ministro da Justiça um pedido formal de segurança para o bispo e para os índios. Até agora não se tem notícia das providências adotadas pelo Governo.
Ameaçar o povo Xavante é um jogo perigoso. Embora sejam as maiores vítimas da política de cooptação adotada pela Funai desde a época dos coronéis, e que enfraqueceu grandes lideranças, os xavantes são um dos povos que mais defendem seu território. A resistência xavante já foi comparada à resistência do povo basco, na Espanha. E eles sabem que terra homologada é terra indígena.