NAS ENTRELINHAS                                 


CARTA ABERTA

de Memélia Moreira

Terça-feira, Dezembro 16, 2003

Nenhures, 15 de dezembro de 2003

Foi difícil escolher o tema de nossa conversa. Fiquei dividida entre a expulsão dos parlamentares e a sombra de um cadáver que incomoda. Celso Daniel foi imolado para que os porões de Santo André não manchassem a honra do candidato de um partido que vendeu a imagem de incorruptível. Esses dois temas ainda vão amargar o Natal dos poderosos. E, arrancar de vez máscaras que começam a se desmanchar.
O caso da expulsão dos parlamentares é a versão, século XXI, dos processos de Moscou, expurgo promovido por Joseph Stalin contra aqueles que apontavam os descaminhos do Partido Comunista da hoje extinta União Soviética. Os descaminhos mostrararam, anos depois, que os dissidentes estavam corretos. Na versão brasileira repete-se o nome José. Um, Genoíno, outro, Dirceu, além do burocrata Sílvio Pereira (quem é esse moço? Quantas vezes se submeteu ao crivo do voto?), secundados pela senadora Ideli Salvatti, que não resiste muito tempo longe dos holofotes e do Professor Luizinho que, talvez por não atingir muito mais do que um metro e meio de altura, tenha saído da reunião do expurgo dizendo que “foi um momento grande do PT”. Sua estatura explica. Mas nem todos são “josés” no PT. Há também heloísas, lucianas, joãos, pessoas que construiram um partido com perspectiva socialista.
Minha dúvida não resistiu a uma madrugada. Entre os dois assuntos, o de Celso Daniel, que foi assassinado quando exercia seu segundo mandato na prefeitura de Santo André, preocupa mais. Porque não é expulsão de um partido. É a eliminação de uma pessoa que levou consigo segredos preciosos que talvez tivesse mudado o rumo do resultado eleitoral.
No começo da semana que passou, José Genoíno saía em campo na defesa do agora réu Sérgio Gomes da Silva, que se proclama, até com lágrimas nos olhos, ter sido o melhor amigo do prefeito,”meu irmão”, repete. Genoíno punha em dúvida investigação feita por procuradores, esses funcionários do Estado pagos para defender a nação, que apontam Sérgio, o Sombra, como um dos mandantes do crime. O presidente do Partido dos Trabalhadores encerrou a semana declarando que o assunto “é de competência da Justiça”. Na verdade, sempre foi. E, inexplicável é a reação de Genoíno, e outros petistas que não querem ver essa história desvendada.
A história não é simples. Começa com as promíscuas relações entre uma pessoa que desfrutava da intimidade do poder municipal e marginais de uma favela. Marginais que foram contratados para matar o prefeito porque este decidira acabar com o tráfico de influência (para dizer o mínimo) exercido por seu assessor nas licitações e outras transações da prefeitura. Celso Daniel seria o comandante da campanha de Lula à presidência da República e o partido que não queria ver denúncias de irregularidades exatamente contra a pessoa que escolhida para ser chefe da campanha recomendou que “limpasse’’ a área.
Aqui cabem algumas perguntas: o PT sabia da existência desses procedimentos irregulares? Se sabia, por que conviveu com eles até às vésperas da campanha, não tentando eliminá-los logo depois de ter descoberto, como sempre pregou para seus adversários? O PT sabia das extorsões feitas a empresários? E, depois da morte de Celso Daniel, quando foram presas sete pessoas, o PT sabia que algumas delas trabalhavam na empresa de Ronan Maria Pinto, sócio de Sérgio, o Sombra? São perguntas que freqüentam a cabeça de qualquer pessoa que esteja acompanhando o noticiário. Nessa história, é tênue o fio que separa o poder da delinqüência.
Quanto ao réu, como se explica seu sucesso empresarial? Como é possível alguém que recebe salário de segurança, e depois de assessor da Câmara dos Deputados (que não chega a ser um grande coisa) e funcionário da prefeitura conseguir montar uma empresa de transporte coletivo espalhado por três estados? Deve ser um gênio e deveria ser convidado para integrar o governo. Ou no Ministério do Planejamento ou no Ministério da Fazenda. É um desperdício tê-lo deixado de fora. E, mais uma pergunta, se os marginais escolheram uma pessoa qualquer para seqüestrar (essa, por enquanto, é a versão oficial), por que pouparam uma testemunha do crime? Ou essa testemunha era de confiança? Quem matou Dionízio Severo, o chefe do bando que matou o prefeito? Esta morte está sendo investigada? E por que matou exatamente no dia seguinte de Dionízio ter afirmado saber de detalhes da morte do prefeito?
A sociedade brasileira merece conhecer as respostas. E merece, também, respeito à independência do Ministério Público, que agora o PT quer reduzir porque os procuradores estão exercendo suas funções de defesa dos interesses coletivos da sociedade.

Saudações
Memélia Moreira, editora