NAS ENTRELINHAS                                 


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de Memélia Moreira

Terça-feira, Janeiro 06, 2004

UM ANO GLORIOSO

A imprensa brasileira festejou a virada do cinema brasileiro que em 2003 reconquistou o público e registrou um aumento de 200% de espectadores. Vinte e dois milhões de brasileiros assistiram filmes brasileiros no ano passado. Em 2002 foram 7,2 milhões. Os números impressionam mas é preciso avaliar como se deu a conquista do público.
Para começar, a audiência do cinema brasileiro do final do século XX e início do XXI ainda está longe de alcançar a meta atingida nos anos 70, quando o Cinema Novo ainda era a grande sensação e 35% dos filmes exibidos no Brasil eram brasileiros. Com público fiel. O Governo militar perseguiu e terminou afugentando diretores tais como Glauber Rocha e Cacá Diegues que foram viver na Europa. O Brasil então passou por um período de produções lamentáveis quando surgiu uma enxurrada de filmes pornográficos de péssima qualidade. O único momento de grandeza acontecia uma vez por ano durante o Festival de Cinema de Brasília que chegou a ser proibido durante dois anos pelos ditadores. O festival era um espaço da resistência ao regime. E lá surgiram grandes nomes, entre eles, Rogério Sganzerla com seu “Bandido da Luz Vermelha”.
O novo boom é preciso ser visto com entusiasmo crítico. São produções geradas e alimentadas pela TV Globo que pretende ser uma nova Hollywood abaixo da linha do equador. Atores e atrizes são conhecidos das novelas e os filmes em muitos momentos pecam pelo uso da linguagem fácil da televisão. Quase todos, com algumas louváveis exceções, a exemplo de “O Auto da Compadecida” têm sabor pasteurizado. Mas são lançados por uma formidável máquina de propaganda que termina atraindo o público para a tela grande. Esse é o lado positivo da máquina de marketing da TV Globo.
A tela grande conquista. O público volta e concede audiência a outros filmes que estão fora do circuito “globaliano”. Isso explica o estrondoso sucesso de “Carandiru” (que também contou com estrelas da Globo), com cinco milhões de espectadores. Carandiru é candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, ao lado de “Cidade de Deus” (que será reapresentado na concorrência) e “Ônibus 174”.
Mesmo sem o apoio oficial como acontece na França, onde cinema é levado a sério, a produção brasileira dos últimos cinco anos tem dado o quê falar. Foi assim com “Central do Brasil”, que conquistou prêmio no Festival de Veneza, mas perdeu o Oscar para “A vida é bela”, com “Bicho de sete cabeças” e se prepara para conquistar prêmios com Carandiru.
Apesar disso, o cinema do Brasil ainda está longe de repetir o fenômeno do cinema indiano, que ocupa mis de 90% do mercado nacional.