NAS ENTRELINHAS                                 


CARTA ABERTA

de Memélia Moreira

Terça-feira, Março 09, 2004

Nenhures, 9 de março de 2004

Estamos de volta. E, antes de qualquer comentário político, vamos apresentar o novo “Nas Entrelinhas” que agora sai da categoria de blog para assumir o status de site. Há quem veja diferenças entre as duas modalidades. Pessoalmente, tenho dúvidas porque o resultado final é o mesmo: informar.
Na nova roupagem, “Nas Entrelinhas” ganhou duas secções, a “Delikatessen”, com receitas culinárias e “Últimas”, onde serão divulgadas as notícias mais importantes do dia. Mas, se ganhou duas novas secções, perdeu-se o resumo das notícias que vinham sempre na coluna “Nas Entrelinhas”, que agora fica apenas como título da página. O resumo se fez desnecessário porque todas as notícias estão estampadas na primeira página. Atenção especial á leitura do “O Mundo do Trabalho”. É uma visão menos colorida da paradisíaca Praia do Forte, no litoral baiano.
A outra novidade é que a partir de agora, a página está aberta à publicidade. Portanto, não se surpreendam quando tropeçarem num anúncio. Eles serão necessários para se o site com um mínimo de qualidade.
Bom, depois dessa breve apresentação, vamos aos comentários do mundo político brasileiro que parece estar com rastilho aceso rumo ao paiol, onde vaidades e arrogâncias se mesclam a imprudência e incompetências num espetáculo mambembe digno de republiquetas sem futuro.
Por estar fora do ar, “Nas entrelinhas” não fez comentário sobre o primeiro escândalo do governo de Luis Inácio Lula da Silva provocado pela filmagem de uma propina. A denúncia transtornou a cabeça do governo e, principalmente do Partido dos Trabalhadores, que vem dando mostras de incompetência e desarticulação política. O mais grave é que a operação-abafa das CPI´s (tanto a do caso Waldomiro quanto a dos Bingos) provoca, a cada dia, mais estrago do que dividendos. E nem mesmo os mais incautos ainda acreditam que uma Comissão Parlamentar de Inquérito paralisa a vida do País.
Há pouco mais de dez anos o Brasil viveu uma de suas mais traumáticas CPI´s, a que investigou o escândalo de corrupção envolvendo o presidente Fernando Collor. O País não parou. Os trabalhadores continuaram trabalhando batendo ponto e pagando seus impostos, os estudantes indo à aula (ou tendo lições de civismo em praça pública), o Congreso em plena (e febril) atividade, até votando leis ordinárias, o Judiciário no seu rítmo de sempre e até mais acelerado porque tinha que julgar ações casuísticas apresentadas pelos defensores de Collor que terminou sendo defenestrado constitucionalmente. Portanto, o argumento de que uma Comissão Parlamentar de Inquérito paralisa o País é, no mínimo, falacioso, fraco, digno de repúdio.
Não bastasse isso, o principal atingido pela história da propina, ministro José Dirceu de Oliveira e Silva, chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, na primeira entrevista concedida depois do escândalo consegue ser mais arrogante do que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nos seus momentos mais inspirados. Dizer com todas as letras “Eu vou ficar no Governo” é a frase mais infeliz que um ministro pode dizer. A não ser que ele integre um governo pusilânime. Só faltou completar a frase dizendo, ‘‘vou ficar porque quem manda aqui sou eu”. Talvez ninguém se surpreendesse.
José Dirceu também volta a dizer “querem me tirar do Governo”. O uso do sujeito oculto é covarde. Querem quem, doutor José Dirceu? A oposição? Ora, a oposição não quer só você fora do Governo. Quer todo o Governo. Isso é próprio de qualquer oposição, até nas sociedades mais primitivas. Ou esse “querem” se refere aos seus companheiros de partido?
E aí está o grande problema do atual Governo. Seu partido sempre foi um conglomerado autofágico que cortou brilhantes cabeças ao longo de sua ainda curta história. E, com certeza, os que querem a cabeça do ministro são exatamente seus adversários de dentro do PT, aqueles que mesmo sendo da corrente “Articulação’’, que tem no chefe do Gabinete Civil um dos mais importantes líderes, não se conformam de ter dois ou três centímetros de poder a menos de José Dirceu, que duas semanas antes dessa crise chegou a posar de primeiro-ministro, num total desrespeito aos preceitos de uma república presidencialista.
E nesse espetáculo autofágico que sempre caracterizou o Partido dos Trabalhadores, a primeira vítima – e a de sempre, em todos os governos, populares e democráticos ou não – é a sociedade brasileira, os cidadãos e indivíduos que a cada dia mais se alarmam com a guerra do narcotráfico no Rio de Janeiro; com assassinato de sindicalistas que denunciam o gangsterismo dos donos de transportes coletivos de São Paulo; os sem terra que são obrigados a ações radicais; os servidores públicos que estão ainda mais empobrecidos este ano, enfim, os milhões de brasileiros ainda acreditam numa vida melhor.