ENTRE O PROVISÓRIO E A INCERTEZA
Memélia Moreira
Saques a residências particulares, assaltos, agressões físicas a pessoas do povo, assassinatos. Esse é o dia a dia, com suas respectivas noites, de Porto Príncipe, capital do Haiti, país que desde o dia 29 de fevereiro vive entre a incerteza amarga sobre seu futuro e um governo provisório que pode ser sucedido por outro governo provisório e por mais outros e outros governos provisórios. Ainda não há data, nem condições políticas, para que seja escolhido, o sucessor de Jean-Bertrand Aristide, presidente deposto em 29 de fevereiro numa conspiração patriocinada pelos Estados Unidos, França, com participação do Canadá.
Essa situação de violência foi descrita pelo senador Joseph Feuille, em correspondência dirigida à Confederação Parlamentar das Américas (COPA), que promoveu um seminário em Brasília, na terça-feira, 23 de março. Na carta, o parlamentar haitiano pede desculpas pela ausência dizendo ainda que dos 27 senadores haitianos, só 15 estão trabalhando normalmente porque serem vítimas dos saques e pilhagens sistemáticas que vêm acontecendo desde o golpe de estado do dia 29 de fevereiro.
Aristide foi substituído pelo juiz Boniface Alexander, da corte suprema daquele país, que escolheu para primeiro-ministro Gérard LaTortue, figura conhecida desde que integrou grupos paramilitares durante o governo de Raoul Cendars, ditador imposto pelos Estados Unidos no início dos anos 90, quando Jean Bertrand Aristide foi deposto pela primeira vez.
O presidente provisório prometeu fazer cumprir a consituição haitiana que prevê, em caso de vacância do cargo, eleições presidenciais num prazo de 45 a 90 dias. O prazo máximo se encerra em junho e nem mesmo a coalisão França-Estados Unidos-Canadá que mandaram tropas “de paz” garantem a realização do pleito.
As potências que tramaram o golpe de fevereiro estão, no momento, mais preocupadas com a situação interna de seus países porque em ano eleitoral. Jacques Chirac, que viu minguar suas esperanças de permanência no poder, com a derrota do seu partido nas eleições de 21 de março e George W. Bush que está numa difícil campanha de reeleição que, até agora, se mostra mais favorável ao partido democrata do candidato John Kerry.
Nesse cenário, onde o descaso internacional é flagrante, o Haiti, que foi a mais próspera colônia da França até 1804 e hoje é o país mais miserável da América Latina, vive sob a ameaça de viver uma guerra civil sem fim porque Guy Philippe – que também foi financiado e treinado pelos Estados Unidos para depor Aristide – já disse que está disposto a retomar as armas.
O Haiti, guardando as devidas dimensões, corre o risco de se transformar no Afeganistão da América Latina.
Memélia Moreira
Saques a residências particulares, assaltos, agressões físicas a pessoas do povo, assassinatos. Esse é o dia a dia, com suas respectivas noites, de Porto Príncipe, capital do Haiti, país que desde o dia 29 de fevereiro vive entre a incerteza amarga sobre seu futuro e um governo provisório que pode ser sucedido por outro governo provisório e por mais outros e outros governos provisórios. Ainda não há data, nem condições políticas, para que seja escolhido, o sucessor de Jean-Bertrand Aristide, presidente deposto em 29 de fevereiro numa conspiração patriocinada pelos Estados Unidos, França, com participação do Canadá.
Essa situação de violência foi descrita pelo senador Joseph Feuille, em correspondência dirigida à Confederação Parlamentar das Américas (COPA), que promoveu um seminário em Brasília, na terça-feira, 23 de março. Na carta, o parlamentar haitiano pede desculpas pela ausência dizendo ainda que dos 27 senadores haitianos, só 15 estão trabalhando normalmente porque serem vítimas dos saques e pilhagens sistemáticas que vêm acontecendo desde o golpe de estado do dia 29 de fevereiro.
Aristide foi substituído pelo juiz Boniface Alexander, da corte suprema daquele país, que escolheu para primeiro-ministro Gérard LaTortue, figura conhecida desde que integrou grupos paramilitares durante o governo de Raoul Cendars, ditador imposto pelos Estados Unidos no início dos anos 90, quando Jean Bertrand Aristide foi deposto pela primeira vez.
O presidente provisório prometeu fazer cumprir a consituição haitiana que prevê, em caso de vacância do cargo, eleições presidenciais num prazo de 45 a 90 dias. O prazo máximo se encerra em junho e nem mesmo a coalisão França-Estados Unidos-Canadá que mandaram tropas “de paz” garantem a realização do pleito.
As potências que tramaram o golpe de fevereiro estão, no momento, mais preocupadas com a situação interna de seus países porque em ano eleitoral. Jacques Chirac, que viu minguar suas esperanças de permanência no poder, com a derrota do seu partido nas eleições de 21 de março e George W. Bush que está numa difícil campanha de reeleição que, até agora, se mostra mais favorável ao partido democrata do candidato John Kerry.
Nesse cenário, onde o descaso internacional é flagrante, o Haiti, que foi a mais próspera colônia da França até 1804 e hoje é o país mais miserável da América Latina, vive sob a ameaça de viver uma guerra civil sem fim porque Guy Philippe – que também foi financiado e treinado pelos Estados Unidos para depor Aristide – já disse que está disposto a retomar as armas.
O Haiti, guardando as devidas dimensões, corre o risco de se transformar no Afeganistão da América Latina.
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