Nenhures, 16 de março de 2004
A compra de um novo avião presidencial me fez lembrar um certo personagem do humorista Jô Soares que perguntava “sois rei?” Não me lembro dos contextos mas a pergunta ficou. E agora, com a notícia veiculada pela jornalista Marta Salomon, no jornal “Folha de São Paulo” de que o Airbus comprado vai usar 75% dos investimentos da União e que a primeira parcela, de 46,9 milhões de reais representa 50 vezes (isso mesmo, cinquenta vezes) o total do que foi investido na área de segurança pública, vale perguntar ao presidente Lula, “sois rei?”.
Humilha principalmente porque as carências se acumulam. Só para citar um caso. O dos anistiados, por exemplo. Há anos e anos eles lutam para receber o dinheiro que a União lhes deve. Em novembro do ano passado, Lula prometeu-lhes que pagaria mas, o avião presidencial tem preferência. A dívida total com essas pessoas, (muitos deles já morreram sem ver a cor do dinheiro) chega é de 140 milhões de reais e eles ainda terão que esperar até junho porque Lula tem outras prioridades. Um Airbus para passear. O verbo é esse mesmo, passear, porque até agora não há nenhum resultado prático das viagens internacionais do presidente. Só promessas e tapinhas nas costas.
A notícia revolta. Humilha também. Num país onde o índice de desemprego está chegando a índices alarmantes e perigosos, onde só na cidade de São Paulo, o centro industrial-financeiro do País, há mais de um milhão de pessoas que não consegue emprego, o presidente da República compra um avião novo, equipado para sua comodidade e a de seus ilustres convidados e não investe nenhum tostão em saneamento básico e habitação, setores que, tradicionalmente, emprega muita mão de obra. Que mecanismos psicológicos vive esse homem que foi eleito presidente da República para comprar um transporte absolutamente desnecessário, uma vez que o Brasil tem boas empresas aéreas? Estará aquele que um dia foi um humilde migrante, que chegou a passar fome, querendo recompensar perdas do passado? E o que a sociedade brasileira pensa disso? Será que aquelas pessoas pobres e cheias de esperança que no dia 1º de janeiro de 2003 choravam de emoção na posse de Lula sabem que a qualquer momento podem ser vítimas da violência porque o presidente comprou um mimo para visitar pontos turísticos levando os amigos. E para não chegar cansado, cama, banheira, enfim, aderêços que qualquer novo rico adora exibir.
É triste. É triste porque quando se vê o premier de Portugal – pais que economicamente está bem melhor do que o Brasil – desembarcar de um avião comercial sem o menor problema, sem perder a autoridade que lhe foi confiada pelo povo, se assiste também o presidente de um país miserável comprar um avião equipado com luxos. Daí se pode-se ter a convicção de que dificilmente o Brasil chegará um dia a eliminar as injustiças sociais. Nosso dinheiro é gasto com caprichos dos poderosos.
Memélia Moreira
A compra de um novo avião presidencial me fez lembrar um certo personagem do humorista Jô Soares que perguntava “sois rei?” Não me lembro dos contextos mas a pergunta ficou. E agora, com a notícia veiculada pela jornalista Marta Salomon, no jornal “Folha de São Paulo” de que o Airbus comprado vai usar 75% dos investimentos da União e que a primeira parcela, de 46,9 milhões de reais representa 50 vezes (isso mesmo, cinquenta vezes) o total do que foi investido na área de segurança pública, vale perguntar ao presidente Lula, “sois rei?”.
Humilha principalmente porque as carências se acumulam. Só para citar um caso. O dos anistiados, por exemplo. Há anos e anos eles lutam para receber o dinheiro que a União lhes deve. Em novembro do ano passado, Lula prometeu-lhes que pagaria mas, o avião presidencial tem preferência. A dívida total com essas pessoas, (muitos deles já morreram sem ver a cor do dinheiro) chega é de 140 milhões de reais e eles ainda terão que esperar até junho porque Lula tem outras prioridades. Um Airbus para passear. O verbo é esse mesmo, passear, porque até agora não há nenhum resultado prático das viagens internacionais do presidente. Só promessas e tapinhas nas costas.
A notícia revolta. Humilha também. Num país onde o índice de desemprego está chegando a índices alarmantes e perigosos, onde só na cidade de São Paulo, o centro industrial-financeiro do País, há mais de um milhão de pessoas que não consegue emprego, o presidente da República compra um avião novo, equipado para sua comodidade e a de seus ilustres convidados e não investe nenhum tostão em saneamento básico e habitação, setores que, tradicionalmente, emprega muita mão de obra. Que mecanismos psicológicos vive esse homem que foi eleito presidente da República para comprar um transporte absolutamente desnecessário, uma vez que o Brasil tem boas empresas aéreas? Estará aquele que um dia foi um humilde migrante, que chegou a passar fome, querendo recompensar perdas do passado? E o que a sociedade brasileira pensa disso? Será que aquelas pessoas pobres e cheias de esperança que no dia 1º de janeiro de 2003 choravam de emoção na posse de Lula sabem que a qualquer momento podem ser vítimas da violência porque o presidente comprou um mimo para visitar pontos turísticos levando os amigos. E para não chegar cansado, cama, banheira, enfim, aderêços que qualquer novo rico adora exibir.
É triste. É triste porque quando se vê o premier de Portugal – pais que economicamente está bem melhor do que o Brasil – desembarcar de um avião comercial sem o menor problema, sem perder a autoridade que lhe foi confiada pelo povo, se assiste também o presidente de um país miserável comprar um avião equipado com luxos. Daí se pode-se ter a convicção de que dificilmente o Brasil chegará um dia a eliminar as injustiças sociais. Nosso dinheiro é gasto com caprichos dos poderosos.
Memélia Moreira
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