NAS ENTRELINHAS                                 


CARTA ABERTA

de Memélia Moreira

Terça-feira, Abril 13, 2004

Nenhures, 13 de abril de 2004

O MURO DO VEXAME

Há qualquer chip desregulado nos políticos brasileiros que é automaticamente acionado no momento em que eles são investidos de algum poder público. O chip os torna capazes de qualquer insensatez. Agora, manifestou-se na figura do vice-governador do Rio de Janeiro, Luis Paulo Conde (PMDB). Depois de mais uma madrugada sangrenta, com trocas de tiros, entre as milícias do narcotráfico e tropas regulares da policias, ele teve a brilhante idéia de anunciar a construção de um muro com três metros de altura, isolando, de imediato, as favelas da Rocinha, Vidigal, Parque da Cidade e Chácara do Céu, para controlar o narcotráfico e assim reduzir a violência.
Mesmo abortada 24 horas horas depois de seu anúncio, após uma avalanche de críticas, algumas delas até de sarcástico humor (o prefeito do Rio foi logo dizendo que o muro transformaria a favela da Rocinha em Parque do Pó) a idéia está aí, existe. Ela passa pela cabeça de um homem público que, se não aprendeu nada com os vergonhosos muros construídos ao longo da História Ocidental, deveria pelo menos ter pensado no mais recente e ignominioso muro, ainda em construção, que o premiê israelense, Ariel Sharon está construindo na Faixa de Gaza. O “Muro do Conde” é a nossa versão de apartheid. E para quê? Controlar o narcotráfico? Parece piada.
Não há qualquer possibilidade de controle do narcotráfico. Nem a curto, nem a médio e nem a longo prazo. Simplesmente porque é o único setor da economia dos países pobres que está em plena expansão e apresenta superávits cada vez maiores, movimentando alguns bilhões de dólares nas mais mais miseráveis comunidades do planeta. Essa movimentação financeira vem sendo cortejada (de forma cada vez menos sigilosa) pelos operadores de Wall Street e pelos mais poderosos banqueiros dos países ricos. É dinheiro que nenhum capitalista despreza. Movimenta o mercado das armas, financia as guerras de baixa intensidade pagando mercenários e armamentos, elege governantes, derruba governos que desagradam o Império, além de empregar mão de obra volátil, sem qualquer compromisso de pagamento de direitos trabalhistas. Portanto, uma economia poderosa que vai dar sobrevida ao capitalismo que vem fazendo malabarismos para não mergulhar num novo crack ao estilo dos anos 30 do século passado.
Além disso, o combate ao narcotráfico é o mais recente pretexto para a ocupação militar de países produtores. O exemplo mais recente, é o da Colômbia, onde os Estados Unidos, que já tinha adotado a mesma política no Peru, mantém hoje 120 especialistas militares, que estão dando “suporte” técnico ao governo do presidente Álvaro Uribe. A ajuda poderia ser levada a sério se Álvaro Uribe não fosse ele também vinculado ao narcotráfico, tendo inclusive perdido emprego no Ministério da Aeronáutica porque liberava brevets de piloto para os militantes do Cartel de Medellin.
O narcotráfico não se produziu nos países pobres por mera geração espontânea. Ele é o mais perverso fruto do neo-colonialismo e cresceu à sombra de governos corruptos que, obviamente, empobreceram mais ainda as populações por eles governadas.
No Brasil, o narcotráfico obedeceu a mesma lógica. País onde se cultiva a corrupção em larga escala e sem qualquer punição (o caso Waldomiro continua aí), onde o Estado é omisso nas suas obrigações e sequer promoveu uma Reforma Agrária que –isso sim – reduziria a violência nas metrópoles porque geraria empregos, seria até inexplicável que cidadãos que vivem abaixo da linha de miséria não fossem atraídos para práticas deliqüenciais.
Portanto, não é qualquer murinho de três metros de altura que vai mudar a situação. Qualquer solução para o narcotráfico está atrasada em pelo menos 500 anos. Legalizar o uso de algumas dessas drogas talvez seja a saída menos sangrenta para essa história que está transformando o Brasil num país em guerra permanente.

Memélia Moreira
Editora