Nenhures, 23 de março de 2004
Quando um povo perde a guerra seu território é partilhado entre os vencedores que, em muitos casos, chegam inclusive a erguer vergonhosos muros para que os vencidos nunca mais ultrapassem os limites artificiais impostos. Foi assim nas duas grandes guerras do século XX e nas guerras de baixa intensidade que se seguiram a estas. Estão aí os exemplos da Sérvia, Montenegro, Macedônia e até da rica Alemanha. É o jogo do colonialismo que, no Brasil de hoje, se volta contra as minorias étnicas subjugadas, antes pelos conquistadores, agora por políticos inescrupulosos e, no mais das vezes, corruptos, com seus aliados, ou prepostos, os latifundiários.
É no mínimo lamentável a decisão tomada pelo deputado Lindbergh Farias (PT/RJ) em propor a redução da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol que abriga nações tradicionais, para atender menos de uma dúzia de fazendeiros, plantadores de arroz, que há poucos anos invadiram a terra indígena e agora lutam contra a homologação argumentando em benefício próprio que trabalham para o desenvolvimento, a produção, o mercado e outros ítens surrados e desmoralizados.
Está certo que Lindbergh seja um ignorante da questão indígena mas poderia, no mínimo, ter consultado especialistas. Antropólogos, por exemplo. Para não cometer mais um crime contra os povos indígenas e, também, não atropelar o processo de demarcação já concluído e profundamente analisado. Se não fosse por estas razões, poderia ser também em nome do respeito aos direitos de humanos. Direitos de um povo que ao longo dos séculos vem teimosamente resistindo aos massacres e políticas de extermínio como esta que esbulha seu território. Um dos poucos bens que ainda lhes resta.
Do relatório do senador Delcídio Amaral (PT/MS) não se esperava grande coisa. Até seria surpresa se ele tivesse se manifestado em defesa do território contínuo. Afinal de contas o inexpressivo Delcídio chegou ao Congresso com o apoio dos grandes proprietários de terras que esbulham e matam os Guarani-Kaiowa, Terena e outros, em Mato Grosso do Sul. Mas Lindbergh é diferente. Ele dispunha de um certo crédito entre as organizações e movimentos populares e até mesmo entre lideranças indígenas que já transitam nas metrópoles.
Lindbergh Farias preferiu trocar um patrimônio conquistado em defesa de causas nobres por oito votos de deputados que só se destacam quando investem contra as populações indígenas. E ainda satisfaz a ambição e o capruicho de um governador (diga-se de passagem, também latifundiário) que entre outras denúncias, está envolvido no “escândalo dos gafanhotos’’, corrupção que abocanhou mais de 200 milhões de reais dos cofres do Estado no pagamento de salários a funcionários fantasma.
E, do alto de suas frágeis convicções, o deputado que um dia comandou a juventude rebelde nas manifestações do ‘‘fora Collor’’ espera que seu relatório seja ‘‘aceito’’ pelo Governo.
O mesmo presidente Fernando Collor que Lindbergh Farias ajudou a derrubar, embora sem maioria no Congresso não aceitou a chantagem feita por esse minúsculo grupo roraimense e teve a coragem de demarcar não um, mas nove milhões de hecatares para o povo Yanomami, garantindo a sobrevivência dessa etnia.
O atual presidente, que tantas esperanças e promessas criou em sua trajetória, adia a solução criando grupos de trabalho que mais servem para novas barganhas políticas do que para resolver problemas reais. No Brasil, dizia o correligionário do presidente da República, advogado Hélio Bicudo, “quando não se quer solucionar um problema, cria-se um grupo de trabalho”. Ou, atropela-se a Constituição, como estão fazendo agora os poderosos.
Saudações.
Memélia Moreira
Quando um povo perde a guerra seu território é partilhado entre os vencedores que, em muitos casos, chegam inclusive a erguer vergonhosos muros para que os vencidos nunca mais ultrapassem os limites artificiais impostos. Foi assim nas duas grandes guerras do século XX e nas guerras de baixa intensidade que se seguiram a estas. Estão aí os exemplos da Sérvia, Montenegro, Macedônia e até da rica Alemanha. É o jogo do colonialismo que, no Brasil de hoje, se volta contra as minorias étnicas subjugadas, antes pelos conquistadores, agora por políticos inescrupulosos e, no mais das vezes, corruptos, com seus aliados, ou prepostos, os latifundiários.
É no mínimo lamentável a decisão tomada pelo deputado Lindbergh Farias (PT/RJ) em propor a redução da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol que abriga nações tradicionais, para atender menos de uma dúzia de fazendeiros, plantadores de arroz, que há poucos anos invadiram a terra indígena e agora lutam contra a homologação argumentando em benefício próprio que trabalham para o desenvolvimento, a produção, o mercado e outros ítens surrados e desmoralizados.
Está certo que Lindbergh seja um ignorante da questão indígena mas poderia, no mínimo, ter consultado especialistas. Antropólogos, por exemplo. Para não cometer mais um crime contra os povos indígenas e, também, não atropelar o processo de demarcação já concluído e profundamente analisado. Se não fosse por estas razões, poderia ser também em nome do respeito aos direitos de humanos. Direitos de um povo que ao longo dos séculos vem teimosamente resistindo aos massacres e políticas de extermínio como esta que esbulha seu território. Um dos poucos bens que ainda lhes resta.
Do relatório do senador Delcídio Amaral (PT/MS) não se esperava grande coisa. Até seria surpresa se ele tivesse se manifestado em defesa do território contínuo. Afinal de contas o inexpressivo Delcídio chegou ao Congresso com o apoio dos grandes proprietários de terras que esbulham e matam os Guarani-Kaiowa, Terena e outros, em Mato Grosso do Sul. Mas Lindbergh é diferente. Ele dispunha de um certo crédito entre as organizações e movimentos populares e até mesmo entre lideranças indígenas que já transitam nas metrópoles.
Lindbergh Farias preferiu trocar um patrimônio conquistado em defesa de causas nobres por oito votos de deputados que só se destacam quando investem contra as populações indígenas. E ainda satisfaz a ambição e o capruicho de um governador (diga-se de passagem, também latifundiário) que entre outras denúncias, está envolvido no “escândalo dos gafanhotos’’, corrupção que abocanhou mais de 200 milhões de reais dos cofres do Estado no pagamento de salários a funcionários fantasma.
E, do alto de suas frágeis convicções, o deputado que um dia comandou a juventude rebelde nas manifestações do ‘‘fora Collor’’ espera que seu relatório seja ‘‘aceito’’ pelo Governo.
O mesmo presidente Fernando Collor que Lindbergh Farias ajudou a derrubar, embora sem maioria no Congresso não aceitou a chantagem feita por esse minúsculo grupo roraimense e teve a coragem de demarcar não um, mas nove milhões de hecatares para o povo Yanomami, garantindo a sobrevivência dessa etnia.
O atual presidente, que tantas esperanças e promessas criou em sua trajetória, adia a solução criando grupos de trabalho que mais servem para novas barganhas políticas do que para resolver problemas reais. No Brasil, dizia o correligionário do presidente da República, advogado Hélio Bicudo, “quando não se quer solucionar um problema, cria-se um grupo de trabalho”. Ou, atropela-se a Constituição, como estão fazendo agora os poderosos.
Saudações.
Memélia Moreira
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