Nenhures, 6 de abril de 2004
A síndrome de 64 pairou sobre o Brasil durante a última semana de março e primeira semana de abril. Justificável. Afinal de contas, o golpe de estado de 1964, que completou seus 40 anos, promoveu a ruptura da inocência brasileira, que já sofrera abalos desde a ditadura de Vargas, escancarou a perversa prática da tortura (que ainda é praticada, não mais contra a classe média em armas mas contra pobres e miseráveis em busca da sobrevivência), introduziu palavras que não constavam do dicionário cotidiano da sociedade brasileira, entre elas, “seqüestro” e “terror” e abriu o caminho, de forma irreversível, para os “comandos” do mundo do crime.
Artigos, seminários, debates, tudo foi utilizado para o Brasil explicar porque chegamos a viver aquele ciclo, aquele tempo que deixou, aí sim, uma herança maldita, recurso extremo do capitalismo contra qualquer sociedade que pretende romper algumas de suas amarras.
A síndrome foi alimentada porque mais uma fita surgiu no cenário político. E, dessa vez, como se fosse de encomenda, um procurador da República tentava extrair de um empresário (os puristas que me perdoem, mas a palavra é essa mesma, empresário, embora Carlos Cachoeira se situe no limite da marginalidade, o que não o coloca tão distante dos demais), a famosa fita da propina. Argumentava, entre outras razões, que essa fita derrubaria o Governo.
Foi o suficiente para que os fantasmas de 64 fossem evocados. Em alguns momentos, até de forma hilariante. Mas, enquanto “os pingos nos iis do Ministério Público” prometidos pelo ministro José Dirceu, chefe do gabinete Civil da presidência da República não chegam, vamos fazer alguns exercícios para tentar entender a fita, a hora e os personagens e, principalmente, para exorcizar os fantasmas de 64.
Os 28 minutos da fita não se constituem em nenhuma novidade. Até os calouros dos cursos de Direito no Brasil sabem que na busca de provas de um crime vale até se fantasiar de abacaxi e fazer piruetas em praça pública. Os procuradores, notadamente José Roberto Figueiredo Santoro tiveram um comportamento pueril e carregado de bazófia. Eles podem até ser vaidosos, mas não chegam a ser burros e sabem perfeitamente que não têm condições de derrubar o Governo. Exageraram para impressionar um personagem que lembra o grande e valoroso cacique Mário Juruna, sempre com seu gravador a registrar “as mentiras dos brancos”. No caso, gravando nebulosas conversas de propinas e e arroubos de grandeza.
O principal interessado nessa fita, o ministro José Dirceu, também sabe que os procuradores da República trabalham nas horas mais impróprias. Nenhum servidor público no Brasil vara madrugadas em busca de crimes, principalmente contra o patromônio público. No Ministério Público Federal, eles trabalham. Nos domingos e feriados também. Na época do caso Collor, e o ministro José Dirceu deve se lembrar muito bem, os serões na Procuradoria Geral da República varavam as madrugadas e muitas vezes amanheciam o dia. Procuradores comiam sanduíches enquanto vasculhavam os documentos que comprovavam a corrupção do presidente e seus homens de confiança. E ninguém, ninguém mesmo, acusou os procuradores de tramarem um golpe contra o presidente da República. Todos sabíamos que eles não estavam conspirando. Estavam trabalhando. E seriamente. Portanto, só se surpreende com o horário quem não conhece os hábitos daquela instituição. Mas todos sabem que o procurador Luis Francisco de Souza, que foi implacável na busca das negociatas perpretadas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, ficava nas madrugadas trabalhando em sua sala na Procuradoria. Ele também não estava conspirando. Estava defendendo uma nação. Para isso são pagos.
Conspiração não houve. Nem há. Ou passou pela cabeça de alguém dizer que o ministro José Dirceu quando lançou a palavra de ordem “Fora FHC” estava conspirando e tramando um golpe. Seria um exagero tão escandaloso que ninguém em sã consciência diria isso. O mesmo vale para esse episódio.
Quem acredita que os procuradores estavam conspirando? E em que circunstâncias dariam o golpe de estado? Com que armas? Quem comandaria a tropa? Ou será que alguém se assusta com as bravatas do ex-major e agora deputado federal Jair Bolsonaro? Talvez nem mesmo o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, acredite nessa possibilidade. Buscou apenas a saída mais cômoda para um caso que parece ainda não ter chegado ao seu final.
O Governo vendeu essa imagem (como vendeu a imagem de ‘‘agricultores” do Pronaf numa encenação feita numa fazenda que nunca teve crédito do Programa de Agricultura Familiar) porque lhe é conveniente e também porque integrantes desse governo ainda guardam cacoetes de sua antiga militância na esquerda, que gosta de criar seus mártires. Mártires costumam emocionar as pessoas simples.
Não há conspiração em curso, até porque a grande maioria dos personagens que sustentaram o golpe militar de 1964 agora sustentam o governo que quer vender a imagem de vítima de uma conspiração. Nem precisa ir muito longe buscando o nome de banqueiros e empresários que se aliaram aos militares naquele abril de 1964. Basta ficar pelo Congresso Nacional. Ou alguém já se esqueceu quem foi (e quem é) o senador Antonio Carlos Magalhães durante a ditadura militar?
Toda essa história me lembra um filme do genial Cantinflas tentando atravessar a fronteira do México para os Estados Unidos. Quando a polícia lhe faz a pergunta de praxe para quem quer entrar em território americano se ele pretendia derrubar o governo, Cantinflas responde, ‘‘com que armas? Vocês ficaram com todas”. Pena que nossos humoristas prefiram o baixo calão ao sarcasmo.
Não há do que ter medo. 64? Nunca mais.
Saudações
Memélia Moreira
Editora
PS- Recomendamos a leitura de dois artigos dessa semana. Um, de autoria do antropólogo Ricardo Cavalcante, com uma séria, competente e lúcida avaliação sobre a Bolívia e o bravo povo boliviano. O artigo está na secção “Nossa América”. O outro, da da professora Terci Affonseca Reis, com uma primorosa análise da angústia humana a partir de um conto de Cortázar. Os dois artigos merecem uma leitura atenta e cuidadosa.
A síndrome de 64 pairou sobre o Brasil durante a última semana de março e primeira semana de abril. Justificável. Afinal de contas, o golpe de estado de 1964, que completou seus 40 anos, promoveu a ruptura da inocência brasileira, que já sofrera abalos desde a ditadura de Vargas, escancarou a perversa prática da tortura (que ainda é praticada, não mais contra a classe média em armas mas contra pobres e miseráveis em busca da sobrevivência), introduziu palavras que não constavam do dicionário cotidiano da sociedade brasileira, entre elas, “seqüestro” e “terror” e abriu o caminho, de forma irreversível, para os “comandos” do mundo do crime.
Artigos, seminários, debates, tudo foi utilizado para o Brasil explicar porque chegamos a viver aquele ciclo, aquele tempo que deixou, aí sim, uma herança maldita, recurso extremo do capitalismo contra qualquer sociedade que pretende romper algumas de suas amarras.
A síndrome foi alimentada porque mais uma fita surgiu no cenário político. E, dessa vez, como se fosse de encomenda, um procurador da República tentava extrair de um empresário (os puristas que me perdoem, mas a palavra é essa mesma, empresário, embora Carlos Cachoeira se situe no limite da marginalidade, o que não o coloca tão distante dos demais), a famosa fita da propina. Argumentava, entre outras razões, que essa fita derrubaria o Governo.
Foi o suficiente para que os fantasmas de 64 fossem evocados. Em alguns momentos, até de forma hilariante. Mas, enquanto “os pingos nos iis do Ministério Público” prometidos pelo ministro José Dirceu, chefe do gabinete Civil da presidência da República não chegam, vamos fazer alguns exercícios para tentar entender a fita, a hora e os personagens e, principalmente, para exorcizar os fantasmas de 64.
Os 28 minutos da fita não se constituem em nenhuma novidade. Até os calouros dos cursos de Direito no Brasil sabem que na busca de provas de um crime vale até se fantasiar de abacaxi e fazer piruetas em praça pública. Os procuradores, notadamente José Roberto Figueiredo Santoro tiveram um comportamento pueril e carregado de bazófia. Eles podem até ser vaidosos, mas não chegam a ser burros e sabem perfeitamente que não têm condições de derrubar o Governo. Exageraram para impressionar um personagem que lembra o grande e valoroso cacique Mário Juruna, sempre com seu gravador a registrar “as mentiras dos brancos”. No caso, gravando nebulosas conversas de propinas e e arroubos de grandeza.
O principal interessado nessa fita, o ministro José Dirceu, também sabe que os procuradores da República trabalham nas horas mais impróprias. Nenhum servidor público no Brasil vara madrugadas em busca de crimes, principalmente contra o patromônio público. No Ministério Público Federal, eles trabalham. Nos domingos e feriados também. Na época do caso Collor, e o ministro José Dirceu deve se lembrar muito bem, os serões na Procuradoria Geral da República varavam as madrugadas e muitas vezes amanheciam o dia. Procuradores comiam sanduíches enquanto vasculhavam os documentos que comprovavam a corrupção do presidente e seus homens de confiança. E ninguém, ninguém mesmo, acusou os procuradores de tramarem um golpe contra o presidente da República. Todos sabíamos que eles não estavam conspirando. Estavam trabalhando. E seriamente. Portanto, só se surpreende com o horário quem não conhece os hábitos daquela instituição. Mas todos sabem que o procurador Luis Francisco de Souza, que foi implacável na busca das negociatas perpretadas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, ficava nas madrugadas trabalhando em sua sala na Procuradoria. Ele também não estava conspirando. Estava defendendo uma nação. Para isso são pagos.
Conspiração não houve. Nem há. Ou passou pela cabeça de alguém dizer que o ministro José Dirceu quando lançou a palavra de ordem “Fora FHC” estava conspirando e tramando um golpe. Seria um exagero tão escandaloso que ninguém em sã consciência diria isso. O mesmo vale para esse episódio.
Quem acredita que os procuradores estavam conspirando? E em que circunstâncias dariam o golpe de estado? Com que armas? Quem comandaria a tropa? Ou será que alguém se assusta com as bravatas do ex-major e agora deputado federal Jair Bolsonaro? Talvez nem mesmo o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, acredite nessa possibilidade. Buscou apenas a saída mais cômoda para um caso que parece ainda não ter chegado ao seu final.
O Governo vendeu essa imagem (como vendeu a imagem de ‘‘agricultores” do Pronaf numa encenação feita numa fazenda que nunca teve crédito do Programa de Agricultura Familiar) porque lhe é conveniente e também porque integrantes desse governo ainda guardam cacoetes de sua antiga militância na esquerda, que gosta de criar seus mártires. Mártires costumam emocionar as pessoas simples.
Não há conspiração em curso, até porque a grande maioria dos personagens que sustentaram o golpe militar de 1964 agora sustentam o governo que quer vender a imagem de vítima de uma conspiração. Nem precisa ir muito longe buscando o nome de banqueiros e empresários que se aliaram aos militares naquele abril de 1964. Basta ficar pelo Congresso Nacional. Ou alguém já se esqueceu quem foi (e quem é) o senador Antonio Carlos Magalhães durante a ditadura militar?
Toda essa história me lembra um filme do genial Cantinflas tentando atravessar a fronteira do México para os Estados Unidos. Quando a polícia lhe faz a pergunta de praxe para quem quer entrar em território americano se ele pretendia derrubar o governo, Cantinflas responde, ‘‘com que armas? Vocês ficaram com todas”. Pena que nossos humoristas prefiram o baixo calão ao sarcasmo.
Não há do que ter medo. 64? Nunca mais.
Saudações
Memélia Moreira
Editora
PS- Recomendamos a leitura de dois artigos dessa semana. Um, de autoria do antropólogo Ricardo Cavalcante, com uma séria, competente e lúcida avaliação sobre a Bolívia e o bravo povo boliviano. O artigo está na secção “Nossa América”. O outro, da da professora Terci Affonseca Reis, com uma primorosa análise da angústia humana a partir de um conto de Cortázar. Os dois artigos merecem uma leitura atenta e cuidadosa.
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