NAS ENTRELINHAS                                 


EXTRA... DO NOT USE

de Memélia Moreira

Terça-feira, Dezembro 23, 2003

UM ANO MUSICAL

Curioso país os Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que brancos, negros e hispânicos cultivam um racismo latente a ponto de explodir em qualquer esquina, o Congresso aprova uma lei que determinou ser 2003 o ‘’ano do blues’’. O ano está acabando mas, quem gosta de música e cultua blues viveu bons momentos ao longo de 2003.
Sem perder tempo, o festejado e competente diretor de cinema Martin Scorcese embrenhou-se numa tarefa no mínimo histórica. Resgatou e dirigiu um projeto cinematográfico, convidando outros diretores a realizar filmes tendo o blues como tema. E, nesse projeto se engajaram Clint Eastwood (é, ele não é só o mocinho dos filmes de bang-bang. Também dirige e cumpre direitinho a tarefa de diretor), que dirigiu “Piano Blues”; Charles Burnett, com “Warming by the Devil´s fire; Mike Fliggins, dirigindo “Red, White, Blues”; Marc Levin, diretor de “Godfather and Sons”; Richard Pearce com “The road to Mephis” e Wim Wenders no inesquecível “The soul of a men”. Scorcese abriu a série exbida pela televisão americana dirigindo “Feel like going home”. São sete filmes que dentro de pouco tempo vão estar nas locadoras e merecem enriquecer o patrimônio doméstico.
Os filmes têm histórias variadas e vão desde as raízes do blues, na África, passando pelos algodoais do Mississipi, onde era cantado pelos trabalhadores, até a influência do blues na musicologia do mundo ocidental e nos diferentes rítmos que surgiram a partir dessa música de melodia tão simples.
Além dos filmes, Scorcese também dirigiu um projeto de gravação de músicas, muitas delas inéditas, apesar de centenárias. São 25 CD´s com cerca de 500 músicas no total e que trazem desde Bessie Smith, W.C. Handy, Robert Johnsohn, Stevie Ray Vaughn, Cassandra Wilson até B.B. King e Janis Joplin, uma das poucas brancas que cantou blues como deve ser cantado.
Para completar o pacote, Martin Scorcese lançou o livro “The Blues”, com 288 páginas, papel couché e belíssimas fotografias. Para quem não conhece o rítmo, o livro é didático. E, para os amantes do blues, é uma bíblia.
Alguém ainda duvida que Scorcese gosta de blues? E, quem não gosta?

Terça-feira, Dezembro 16, 2003

ARTE E MAGIA EM MOVIMENTO

Ópera, circo, ballet, teatro e, em alguns momentos, quadros vivos de Bosch. Todos esses elementos compõem o espetáculo do Cirque de Soleil, uma companhia criada no Canadá e que percorre o mundo mostrando que é possível reinventar a arte dos antigos saltimbancos.
Há palhaços, equilibristas, bailarinas, trapezistas e contorcionistas, mas não pense que em algum momento você vai assistir o tradicional show circense. Os equilibristas não se contentam em andar sobre um fio de arame. Eles dão saltos mortais e retornam para sentar numa cadeira equilibrada no mesmo fio. E nunca há apenas dois ou três trapezistas. São sempre mais de cinco que se revezam em saltos sêxtuplos, fazem corrente de três ou quatro pessoas que alcançam outro trapézio e, literalmente, voam sobre o luxuoso picadeiro. Contorcionistas chineses mostram que o corpo humano é o mais maleável dos elementos e, no Cirque du Soleil, esse contorcionismo chega ao inimaginávelquando o artista, com todo seu corpo dobrado, a cabeça no lugar dos quadris, os pés no lugar das mãos e mãos no lugar da cabeça, ainda convidam seu colega para repetir o gesto equilibrando-se nas costas. E não se quebram.
Os cenários são ricos, cheios de mistério, com jogo de luzes suficiente para que a platéia, extasiada, não perceba quando estão sendo trocados. E, de repente, é a corte de Luis XIV que se transforma num mercado medieval andrajoso ou a paisagem lunar que vira cena de uma caótica metrópole. Os figurinos dão água na boca. A cada cenário, os trajes são mudados. Homens e mulheres vestem-se de malhas etéreas ou túnicas vaporosas que também são instrumento viram, num segundo, longas cordas por onde eles sobem escadas imaginárias e reaparecem num buraco aberto no meio do picadeiro.
O criador desse espetáculo de magia, Guy Laliberté, sem qualquer exibicionismo diz que o Cirque du Soleil “nasceu e cresceu de um sonho simples de um bando de jovens que queriam apenas viajar, divertir o público e se divertir”. O sonho simples, entretanto, é a maior e mais rica companhia circense do mundo, contando com três espetáculos fixos e mais cinco espetáculos que percorrem o mundo.
Os espetáculos fixos podem ser vistos nas cidfades de Orlando, estado da Florida, no sul dos Estados Unidos e Las Vegas, no estado de Nevada, a oeste. Em Orlando, o Cirque de Soleil apresenta o espetáculo La Nouba que, nas palavras de Laliberté pretende retratar a memória individual e universal do ser humano. Em Las Vegas há dois espetáculos vivos, um no Casino Bellagio, com o show “O’’, inspirado, segundo o criador, ‘’inspirado no conceito infinito e elegância da letra “o” ou número zero e é também a representação fonética da palavra água (em francês, eau, que se pronuncia “ô”). O outro espetáculo de Las Vegas é o “Mystère”, onde se celebra a dança e a música”.
Os espetáculosambulantes, que percorrem o mundo, são “Saltimbancos”, que homenageia a vida e foi concebido, diz Laliberté, “para ser um antídoto à violência do século XX”. Saltimbancos vai estar até 28 de dezembro em valença, na Espanha e segue depois para Sevilha, Nice, Lyons, Basiléia. “Alegria” é o nome do outro espetáculo. “Alegria celebra a emoção do espírito”, diz Laliberté. Nesse espetáculo eles apresentam a dança do fogo e eletrizam a platéia. No momento, apresentam-se em san francisco, estado da Califórnia.
“Quidam” louva as pessoas anônimas que andam pelas ruas e, agora está no Japão de onde segue para outros países do Oriente. “Dralion”, nome composto pelas palavras dragão e leão, funde as antigas tradições do circo chinês com o vanguardismo da companhia canadense. Dralion funde Ocidente (leão) e Oriente (dragão) e está agora em excursão pelo México, de onde segue para Londres e Viena. Por fim, o “Varekai’’, que conta a história de uma cidade longínqua e perdida no cume de um vulcão. É a transposição do realismo fantástico da Literatura latino-americana para um espetáculo teatral. Varekai está em casa. Excursiona pelo Canadá.
Todo esse espetáculo só tem um problema: pagar a entrada. A mais barata custa 80 dólares, quase inacessível para países pobres.

Terça-feira, Dezembro 09, 2003

ALÉM DE CUSTER

Há um filme americano, não gerado em Hollywood, que deveria ser incluído nos cursos de Antropologia. O título, respeitando fielmente o nome original é “Sinais de Fumaça” (Smoke Signals). Foi escrito, dirigido e estrelado por índios americanos que, numa história simples, reproduzem as várias metáforas que a sociedade daquele país criou para os povos índígenas e seus remanescentes. Ironiza, com um humor sutil os medos e preconceitos dos Estados Unidos em relação aos índios que sobreviveram a um dos mais violentos processo de extermínio que se tem notícia no Ocidente. Mas, não caem em exercícios de auto-piedade.
A história é banal. Um índio faz uma viagem na tentativa de reencontrar seu pai a quem nunca perdou porque que fugiu de casa. O pai se escondia da família. Foi morar num trailer depois que um incêndio, pelo qual se julgava responsável, destruiu sua casa. Esse índio, que adotou os hábitos da sociedade ocidental, sem qualquer culpa, leva na viagem seu melhor amigo, também índio O amigo faz um tremendo esforço para manter todos os traços culturais de seu povo.
A viagem é feita por terra. Primeiro uma carona com duas índias que só de carro em marcha-ré . Depois, de ônibus e, antes de entrar nele, o sarcasmo aflora. O ônibus passa no limite da reserva indígena. Numa demonstração de que apesar de integrados os índios não se sentem parte da sociedade americana, o personagem principal pergunta ao amigo se este trouxera seu passaporte porque a partir daí estavam em terra estrangeira. Nenhuma menção ao espólio territorial sofrido pelos índios americanos.
Sentimentos contraditórios povoam a história do personagem principal que termina voltando para a reserva, depois de tumultuar os valores do seu amigo.
Sinais de Fumaça é o primeiro filme sobre índios americanos onde não há cavalos, perseguição, soldados do general Custer, sofrimentos coletivos e outros ingredientes tradicionais do gênero. Não há heróis também. É, simplesmente, a história de uma pessoa comum e seus problemas de amor e rejeição, emoções também comuns a qualquer ser humano, indpendente da etnia.
Dirigido por Chris Eyre e estrelado por Adam Beach, o filme não frequentou o circuito comercial. Foi exibido apenas em festivais e agora comprado pela HBO para ser apresentado nas TV´s á cabo. É uma pena. Ele é instrutivo.

ALÉM DE CUSTER

Há um filme americano, não gerado em Hollywood, que deveria ser incluído nos cursos de Antropologia. O título, respeitando fielmente o nome original é “Sinais de Fumaça” (Smoke Signals). Foi escrito, dirigido e estrelado por índios americanos que, numa história simples, reproduzem as várias metáforas que a sociedade daquele país criou para os povos índígenas e seus remanescentes. Ironiza, com um humor sutil os medos e preconceitos dos Estados Unidos em relação aos índios que sobreviveram a um dos mais violentos processo de extermínio que se tem notícia no Ocidente. Mas, não caem em exercícios de auto-piedade.
A história é banal. Um índio faz uma viagem na tentativa de reencontrar seu pai a quem nunca perdou porque que fugiu de casa. O pai se escondia da família. Foi morar num trailer depois que um incêndio, pelo qual se julgava responsável, destruiu sua casa. Esse índio, que adotou os hábitos da sociedade ocidental, sem qualquer culpa, leva na viagem seu melhor amigo, também índio O amigo faz um tremendo esforçom para manter todos os traços culturais de seu povo.
A viagem é feita por terra. Primeiro uma carona com duas índias que só de carro em marcha-ré . Depois, de ônibus e, antes de entrar nele, o sarcasmo aflora. O ônibus passa no limite da reserva indígena. Numa demonstração de que apesar de integrados os índios não se sentem parte da sociedade americana, o personagem principal pergunta ao amigo se este trouxera seu passaporte porque a partir daí estavam em terra estrangeira. Nnenhuma menção ao espólio territorial sofrido pelos índios americanos.
Sentimentos contraditórios povoam a história do personagem principal que termina voltando para a reserva, depois de tumultuar os valores do seu amigo.
Sinais de Fumaça é o primeiro filme sobre índios americanos onde não há cavalos, perseguição, soldados do general Custer, sofrimentos coletivos e outros ingredientes tradicionais do gênero. Não há heróis também. É, simplesmente, a história de uma pessoa comum e seus problemas de amor e rejeição, emoções também comuns a qualquer ser humano, indpendente da etnia.
Dirigido por Chris Eyre e estrelado por Adam Beach, o filme não frequenta o circuito comercial. É lamentável. é filme de festival mas agora foi comprado pela HBO para ser apresentado nas TV´s á cabo. É uma pena. Ele é instrutivo.