NAS ENTRELINHAS                                 


EXTRA... DO NOT USE

de Memélia Moreira

Terça-feira, Novembro 25, 2003

Mudar sem transformar

Mais resistente do que a aristocracia francesa e tão refinada quanto seus vizinhos, a aristocracia italiana e sua decadência tem seu mais perfeito retrato em “O Leopardo”, livro de Giuseppe di Lampedusa, ele mesmo um aristocrata que conta a história de seu pares e de sua própria vida nesse livro imperdível. Levado às telas pelo não menos genial Luchino Visconti, que escolheu o ator americano Burt Lancaster para viver o aristocrático Lampedusa e o ator francês Alain Delon para o papel de seu sobrinho, livro e filme nos trazem a Itália inteira, um país onde os cinco sentidos são insuficientes para entender tanta magnificência. Da arquitetura à moda, da cozinha à música, da elegância e beleza de seus homens e mulheres, a Itália de Lampedusa é também um lugar de misérias, camponeses pobres que pagam dízimo aos latifundiários.
O livro é mais conhecido pela famosa frase que encerra todo o cinismo da aristocracia e seus descendentes menos nobres, tais como as elites de alguns países. “Vamos mudar para que nada se transforme”, disse o conde Di Lampedusa quando viu que a revolução italiana comandada por Garibaldi reduzia direitos dos poderosos. O nobre senhor, grande proprietário de terras incentiva então seu sobrinho a aderir o exército revolucionário.
A lição de “O Leopardo’’ foi bem aprendida pelas elites brasileiras quando, há pouco mais de um ano perceberam que não podiam fabricar mais nenhum candidato à presidência da República e mergulharam no único nome com possibilidade de vitória. Mudaram. Para nada transformar.
Mas além desta frase que ficou famosa, o autor, ao pintar o retrato de sua classe social diz mais.
Seguem-se dois trechos desse livro de tanta sabedoria. O filme merece ser visto. Mais de uma vez.

“A aristocracia é uma classe difícil de ser suprimida porque, no fundo, ela mesmo se renova continuamente; quando preciso, ela sabe muito bem desaparecer, isto é, jogar uma semente no exato momento de morrer”.

“Por que Deus nos recusa morrer com nosso verdadeiro rosto. É sempre o mesmo: morre-se sob uma máscara, mesmo os jovens”.

Domingo, Novembro 16, 2003

ESCRAVOS E ESTRATEGISTAS

Em 1791, escravos negros que viviam na ilha então conhecida por São Domingos (hoje Haiti) depois de desafiar a revolucionária Assembléia Constituinte de Paris para que estendesse o ideário de ‘’igualdade, liberdade e fraternidade’’ além-mar, decidiram se revoltar enfrentando o poderio francês. Lutaram por 12 anos sob o comando de um dos maiores estrategistas da história Toussaint L´Ouverture foi o herói da independência haitiana. Precursor da guerra de guerrilhas que duzentos anos depois se popularizaram em Cuba, sua vizinha, Toussaint e Dessalines, outro comandante da resistência derrotaram uma expedição francesa de 60 mil homens, comandada por um cunhado de Napoleão; outra inglesa, de proporções semelhantes e até uma espanhola. Em novembro de 1803 as tropas bonapartistas sofreram uma humilhante derrota e os ex-escravos, decretaram a independência da ilha. Nascia o Haiti, colônia que fez fortunas de espanhóis, franceses e ingleses. Nos próximos dias a ilha comemora 200 anos de independência. Apesar de tantas glórias e vitórias, seu povo, depois de amargar nas mãos do sanguinário e truculento Jean-Baptiste Duvalier, o Papa-Doc, pena agora nas mãos de Jean Bertrand Aristide, ditador que um dia foi esperança do povo.
C.L.R. James escreveu a saga da independência no livro “Os jacobinos negros”, editado pela Boi Tempo. É uma leitura que enche de orgulho aqueles que acreditam na independência dos povos, Seguem alguns trechos dessa resistência.

“Os espanhóis, o povo mais adiantado da Europa naqueles dias, anexaram a ilha, à qual chamaram de Hispaniola, e tomaram seus primitivos habitantes sob proteção. Introduziram o cristianismo, o trabalho forçado nas minas, o assassinato, o estupro, os cães de guarda, doenças desconhecidas e a fome forjada (pela destruição dos cultivos para matar os rebeldes de fome). Esses e outros atributos das civilizações desenvolvidas reduziram a população nativa de estimadamente meio milhão, ou talvez um milhão, para sessenta mil, em 15 anos...”

“Os jacobinos negros de São Domingos fariam a história que mudaria o destino de milhões de homens e o curso econômico de três continentes...”

“A questão colonial não era um dos interesses de menor importância da Assembléia Constituinte. Longe de ser uma assembléia de teóricos e visionários como os conservadores gostariam de retratá-los, os representantes políticos da burguesia eram sensatos homens de negócios; sensatos demais porque não tinham preconceito de cor. Tinham profunda vergonha das injustiças que estavam perpetuando, mas estando a ponto de perder tanto, deixaram-se apavorar pelos deputados coloniais. Devido a essa covardia, pagaram caro, no país e no exterior...”




Domingo, Novembro 09, 2003

GABO É PARA SEMPRE

Para quem pensa que Macondo é apenas aquela cidade que o tempo devastou depois de tantos delírios, incestos, experiências científicas e imperialistas, sonhos e lutas, “Cem anos de solidão” deve voltar para à mesa de cabeceira para uma leitura pós-ditaduras militares sul-americanas. Ali, Gabriel Garcia Marquez, o fecundo Gabo, não apenas imprimiu o caráter do realismo fantástico mas, ainda, conseguiu profetizar situações hoje vividas, por um grande país que faz fronteira com a Colômbia.
O trecho que se segue – quem identificar o país pode abrir o debate – se encontra entre as páginas 150 a 154 da 5ª edição do livro, da Editora Sabiá.

“A embriaguez do poder começou a se decompor em faixas de tédio...
...Pediam, em primeiro lugar, renunciar à revisão dos títulos de propriedade de terra...renunciar à luta contra a influência clerical...por último, para renunciar à luta pela igualdade de direitos...
“Quer dizer então – sorriu o coronel Aureliano Buendía quando terminou a leitura- que só estamos lutando pelo poder... São reformas táticas, respondeu um dos delegados. No momento o essencial é ampliar a base popular da guerra. Depois se vê...
Um dos assessores do coronel Aureliano Buendía se apressou a intervir – é um contrasenso- disse- se estas reformas são boas, quer dizer que é bom o regime conservador. Se com elas conseguimos ampliar a base popular da guerra, como dizem os senhores, quer dizer quer dizer que o regime tem uma ampla base popular. Quer dizer, em suma, que durante quase vinte anos estivemos lutando contra os sentimentos da nação...
Ia continuar, mas o coronel Aureliano Buendía o interrompeu com um sinal... Não perca tempo doutor, disse. O importante é que a partir deste momento só lutamos pelo poder. Sem deixar de sorrir, tomou os papéis que lhe entregaram os delegados e se dispôs a assinar...
Já que é assim, concluiu, não temos nenhum inconveniente em aceitar. Os seus homens se olharam consternados...
Desculpe coronel –disse suavemente o coronel Gerineldo Marquez – mas isto é uma traição. O coronel Aureliano Buendia deteve no ar a pena com tinta, e descarregou sobre ele todo o peso de sua autoridade. Entregue as suas armas – ordenou. O coronel Gerineldo Marquez se levantou e pôs as armas na mesa...
Apresente-se no quartel – ordenou-lhe o coronel Aureliano Buendia- o senhor fica à disposição dos tribunais revolucionários...”.

Só para lembrar a frase do tempo em que o cinema tinha escrúpulos, “qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência”.