NAS ENTRELINHAS                                 


EXTRA... DO NOT USE

de Memélia Moreira

Segunda-feira, Abril 05, 2004

CONTEMPLANDO OS AXOLOTES
(Análise de um conto de Julio Cortázar)

Terci Aires Moreira de Affonseca Reis

Numa leitura sistêmica da obra, procedemos a duas abordagens: uma social e a outra, existencial. O conto narra um processo de metamorfose que o narrador sofre ao contemplar os axolotes encerrados no aquário do mini-zôo, no Bosque de Bolonha, em Paris. Após rápida “vista d’olhos”.sobre leões, panteras e peixes, depara-se inesperadamente com os axolotes, pequenos seres larvais, oriundos do México. Atraído pela imobilidade e pelo olhar de ouro (fogo) desses animaizinhos, fica longo tempo a observá-los através do vidro do aquário, por fim se vê transformado em axolote.
O fato de o narrado ser o personagem metamorfoseado no objeto de sua observação implica na tensão sujeito/objeto, anulando a barra entre homem/animal, aquilo em que consiste o existir humano.
A visão que o narrador tem do axolote a partir do lado de fora do aquário não lhe confere autoridade para falar da humanidade dos axolotes, pois para isso ele terá de ter uma experiência vivida. Se a apreensão do fato existencial exige a visão de fora do objeto em estudo (daí o narrador consultar generalidades, como enciclopédias, e recusar-se a consultar obras especializadas), requer também uma experiência vivida, que vem a ser a visão de dentro. Assim sendo, o narrador só vai constatar a humanidade do axolote após a metamorfose:, o que ocorre logo no primeiro parágrafo da narrativa. Nessa condição ele vai sofrer o drama de sua clausura, de onde é impossível qualquer comunicação. Só então ele vai ter condições de falar do drama (ou tragédia?) dos axolotes.
O duplo aí vai funcionar como possibilidade de o eu se ver a si próprio, ou seja, vai garantir a objetivação do sujeito, e subjetivação do objeto: um eu vive a experiência de ser um axolote, e o outro observa, de fora, essa experiência, objetiva-a, observa-se para nos relatar.
Aparentemente, a figura do duplo nesta narrativa não remete para o complexo de castração, pois não aborda um núcleo familiar. Entretanto não descartamos a possibilidade de ler aí o duplo como as duas ameaças, a de morte e de castração.
Como sabemos, as sociedades conhecem duas formas de dualismo, o dualismo direto e o diagonal. Este último é o que interessa ao presente trabalho, uma vez que está relacionado com o modo de pensamento que agrupa pessoas e objetos aos pares, encarando cada membro do par como a contrapartida assimétrica do outro. E demonstra que a figura do duplo aponta tanto para o temor da morte quanto para o temor da castração.
No plano social podemos ler o axolote como metáfora das culturas não européias, tais como as americanas, africanas e orientais, na media em que esse animalzinho é, segundo a narrativa, originário do México, mas é também encontrado na África e se asselha a estatuetas chinesas. Nesse nível, a narrativa é uma denúncia contra o etnocentrismo europeu, responsável pelo massacre ocorrido no período colonial, quando o europeu, ignorando as diferenças culturais, vai impor (ou tentar) seu domínio, em todos os níveis, a esses povos, que classificava de primitivos, brutos, ímpios, bárbaros, etc., mas a quem explorava barbaramente, conforme a denúncia de Cortazar, pois “os axolotes são comestíveis e seu azeite se usava (diria não se usa mais) como óleo de fígado de bacalhau...”A observação “não se usa mais” coloca o colonialismo no passado, evidencia o seu fim, mas as cicatrizes permanecem, se é que já houve cicatrização.
Nesse nível, o social, a figura do duplo remete para o problema da morte, pois há “um senhorio aniquilado” e “os axolotes são comestíveis”. Num refinamento maior da análise, poderíamos ler no “senhorio desaparecido” e na “tristeza do leão” o desejo de preencher uma falha, a falha da separação da mãe pela Lei do Pai, no caso a autoridade e a superioridade do colonizador. Esse enfoque remeteria para o complexo de castração, o que é dispensável para esta análise.
Já o temor da morte na narrativa está bem evidente na situação conflitiva que inscreve:
“cada par encara o outro numa ameaça de morte. Eles continuavam me olhando imóveis(...)Os axolotes eram como testemunha de algo. As vezes horríveis juizes (...).Temia-os. Acho que, se não sentisse a proximidade dede outros visitantes, não me teria atrevido a ficar só com eles’Você os come com os olhos’, me dizia rindo o guarda (...).Não percebiam que eram eles que me devoravam lentamente, em um canibalismo de ouro”.
Esse canibalismo, além de indicar a relação sujeito/fantasma, que no caso remete para a mútua apropriação das qualidades: o narrador observa os axolotes /os axolotes devoram, com seus olhos de fogo, o narrador num canibalismo de ouro, remete também para o problema da destruição simbólica, que realiza a identificação de um com o outro.
O texto inscreve seres ordenados, marcados pela cultura: animais presos no zoológico; e animais não-presos, não pertencentes ao zôo. De acordo com a divisão heideggeriana dos seres, em existência bruta e existência humana, podemos dizer que o macaco (o do texto, evidentemente) simboliza a existência bruta, goza da liberdade do ser na natureza, e os demais, que estão presos no zoológico, codificam a existência humana. Simbolicamente, o zoológico é o cosmos, o espaço onde os seres têm um sentido, resultante do contato com o homem. Esses animais estão, em maior ou menor grau , presos à condição humana. A humanidade do peixe, da pantera, do leão e do axolote apresentam gradações: o peixe codifica a estupidez humana, a pantera, o poder e a agressividade; o leão é a metáfora do poder, do orgulho e da realeza. Antes da metamorfose, o narrador se identificava com todas essas máscaras. Mas existir humanamente é um processo, é um sendo. O homem, como o axolote, é um ser larvar, um projeto. A qualquer momento pode dar o “salto” para o conhecimento de si. É o que faz o narrador quando abandona as luzes de Paris e opta pela angústia do ser que o axolote simboliza. Angústia que vai se evidenciar no abandono, na solidão de estar no mundo sem ter a quem apelar; angústia pela sua condição de ser temporal, pela consciência da finitude. Daí o desejo do axolote de “anular o tempo e o espaço”. Finalmente a angústia da consciência de “ser para a morte”, essa condição irrevogável de morte total, para além da qual só existe o nada.
A título de conclusão , vamos estabelecer um paralelo entre Prometeu e o Axolote. Prometeu é o mito clássico da sociedade teísta, é aquele que através do fogo, símbolo do saber, dota o homem com a fagulha divina. O homem prometeico é, pois, um ser consciente de seu poder, confiante no futuro pois nasceu para a imortalidade.
Em oposição, temos o Axolote alegorizando o homen sem deus (es), vale dizer, sem princípio nem fim (finalidade). Seu conhecimento advém de sua própria experiência , de seu existir humanamente, que é a busca da consciência de si, de “ser para o nada”. Seu conhecimento não é fonte de poder, pelo contrário, é a constatação de sua impotência. Não leva o homem a eternizar-se, mas a constatar sua finitude, o que responde pela angústia e consciência as morte.
Se Prometeu é o mito instaurador de uma humanidade transcendental, consciente e orgulhosa de sua superioridade, acreditamos válido ler o Axolote como o mito dessa outra humanidade, dessa humanidade absoluta, dessa civilização consciente de sua condição de “ser para a morte”.