NAS ENTRELINHAS                                 


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de Memélia Moreira

Terça-feira, Março 30, 2004

CASABLANCA-ARGEL

Quantas vezes você já assistiu ‘’Casablanca’’, com a eterna diva Ingrid Bergman? Conheço gente que já assistiou quarenta e duas vezes e continua disposta a assistir o dobro só para ver a divina Ingrid dirigindo-se a Louis Armstrong e pedir “play it, sam, As time goes bye”.
Casablanca é Marrocos, o Maghreb, região do norte da África onde se localizam também, Argel e Tunísia. A região sempre frequentou o imaginário de nômades, aventureiros e até simples turistas. O mistério dos casbahs, os véus, quase aderêços deixando apenas belos e negros olhos misteriosos à vista, as mesquitas e o Saara, o imenso Saara, com seus caminhos tortuosos, suas flores de pedra, beduínos, oásis, um mundo que o Ocidente pragmático jamais conseguiu entender.
Mas outro dia descobri que “Casablanca’’ é a versão de sucesso de um outro filme também rodado no Maghreb. Também leva nome de cidade. Trata-se de “Argel”, capital da Argélia, país que faz fronteira com o Marrocos. A produção é americana de 1938, dirigido por John Cromwell e interpretado pelo ator francês Charles Boyer e pela americana Heddy Lamarr. E a trama carrega a mesma dramaticidade vivida por Humphrey Bogart e Ingrid Bergmann, a dupla do amor com gosto de incompletude.
Em Argel, Charles Boyer faz o gângster francês simpático, e não sai do casbah, onde exerce sua majestade, para não ser preso. Há um policial que o segue 24 horas por dia e termina desenvolvendo uma profunda admiração pela ética do gângster. Sua paíxão desconhecida, uma história de amor que tal como em Casablanca já existe quando o filme começa, chega ao bar frequentado por Boyer e os dois, voltam a se envolver, agora com promessa de “para sempre’’. Mas ela é noiva de um milionário e está prestes a voltar a Paris no navio ancorado no porto da cidade. Desiste do retorno para viver sua grande paíxão e quando vai encontrá-lo, recebe a notícia, dada pelo policial amigo do bandido que o homem de sua vida morrera. Ela embarca e ele ainda tenta alcançá-la no navio. Sua ousadia em atravessar a fronteira do casbah tem um preço. Ele é preso e não consegue acompanhar a mulher amada que, da popa do navio não vê que ele está lá embaixo, algemado e dando adeus. Boyer leva um tiro, cai e o navio segue pelo Mediterrâneo, encerrando, para sempre, mais uma história de amor.
As coincidência com Casablanca são muitas. Bogart e Ingrid Bergman também vivem uma paixão que se frustrou num passado que só aparece em lembranças. Ele também tem uma história nebulosa, que não fica clara no filme, e ela também deve partir de Casablanca onde está apenas acompanhando o marido, um herói da resistência anti-nazista. Os dois filmes são em preto e branco. Por que então Casablanca é um ícone cinemtográfico do século XX e Argel nunca teve seus 15 minutos de fama.
Tentei entender e proponho que me ajudem a desvendar esse segredo. Charles Boyer era tão charmoso quanto Humphrey Bogart. Ocupava o Olimpo do mundo do cinema. Heddy Lamarr era uma mulher elegante, atriz de porte médio, mas tão famosa em seu país quanto Ingrid Bergman. Por que então carreiras tão distintas para dois filmes tão semelhantes. Diga-se de passagem “o outro” de cada um desses filmes jamais se tornaram famosos. São atores de segunda linha, bem como os diretores. Michael Curtiz, só é conhecido mesmo por ter sido diretor de Casablanca.
Aas diferenças são pequenas, mas fortes. Começando pelo “outro”. O de Casablanca era um herói carismático que estivera num campo de concentração e exercia forte liderança na resistência contra os nazistas. O “outro” de Argel é apenas um homem rico, sem qualquer sex-appeal, balofo e respeito não é o ponto forte na relação entre os dois. Hheddy Lamarr, por mais bonita que fosse, com sua beleza de cabelos negros tem no filme uma pequena nota de vulgaridade, traço ausente em Ingrid Bergmann que, em Casablanca, até quando tenta retomar o caso de amor em troca de passaportes para Lisboa, dá um espetáculo de classe e elegância. E Charles Boyer, embora desempenhando um papel bem mais simpático do que Humphrey Bogart (sisudo e quase mal humorado) é um bandido explícito, traço que em Bogart é apenas insinuado.
Essa diferenças, talvez, sejam o segredo do sucesso de Casablanca que, com certeza, ainda travessarpá o século XXI provicando emoções nas platéias.
Falando nisso, que tal revê-lo num próximo fim de semana? Mas, por favor, pegue a versão em preto e branco. O colorizado não tem a menor graça.