NAS ENTRELINHAS                                 


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de Memélia Moreira

Terça-feira, Janeiro 13, 2004

BELO E DRAMÁTICO

O amanhecer de Paris em preto e branco impressionista, como se banhada de prata. Em primeiro plano, o bairro que ultrapassou os limites da cidade transformando-se em sinônimo de espetáculos e extravagância dos “années folles”, que marcaram o início do século passado. Montmartre, o ponto mais alto da cidade e capital dos boêmios e artistas da primeira metade do século XX na capital francesa, explode em cores. Assim começa o musical “Moulin Rouge”, filme de Baz Luhrmann, estrelado pela belíssima e talentosa Nicole Kidman que tem como parceiro Ewan McGregor.
Pouco conhecido, Luhrmann ousou. Ele reinventa, com esse filme a linguagem cinematográfica. Sem abusar dos efeitos especiais mas mostrando que os 24 quadros do cinema são sempre uma possibilidade infinita, o diretor criou um conto infantil para adultos. As cores são fortes, os sentimentos frágeis.
Ele poderia ter filmado em Las Vegas mas Luhrmann fez questão de ambientar sua história em Montmartre, numa verdadeira declaração de amor a Paris e à cultura francesa. A começar pela escolha do bairro. Mas não fica só aí. Satinée (Acetinada), a personagem principal resume algumas heróinas reais e míticas do mundo francês. Ela é uma cortesã – no mundo ocidental, nenhum outro país foi tão devotado às cortesãs quanto a França – do famoso cabaret “Le Moulin Rouge”.
Satinée é ao mesmo tempo “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas, ou “Naná”, de Victor Hugo, todas com o mesmo final trágico provocado pela tuberculose, o grande mal do começo do século XX e é, principalmente, a a caprichosa diva do teatro francês, Sarah Bernadt, que viveu intensamente os années folles. Sarah era tão caprichosa que, alheia ao relógio, seu mordomo ao lhe chamar para os compromissos dizia, “madame, quando a senhora quiser, são oito horas”. Satinée também tem seus caprichos. Mas é obediente como devem ser os grandes profissionais.
A primeira aparição de Nicole é espetacular. Ela desce em meio do palco, como se flutuasse. E conquista o amor de um jovem inglês e escritor, que se mudara para Paris e vivia numa água-furtada em Montmartre, bem em frente ao cabaret. Onde mais poderia viver um escritor estrangeiro em Paris? O filme se desenrola nas linhas escritas pelo jovem inglês que termina conquistando a bela.
Luhrmann não esquece a famosa gastronomia francesa. É bem verdade que a cena é rápida, mas a mesa é apetitosa e o prato preparado por ninguém menos que o mais famoso pintor de Montmartre. Toulouse Lautrec. Ele mesmo. E é amigo e cúmplice do escritor apaixonado que disputa a deusa com um conde mimado e vingativo.
O resto, só indo à locadora mais próxima. Mas, afirmam as escrituras pouco ou nada sagradas, as deusas são inatingíveis. Moulin Rouge merece ser visto mais de uma vez. Corre o risco de se tornar cult. Portanto, imperdível. Recomenda-se, para este filme, além da tradicional pipoca, uma taça de champagne. Pode ser rouge.




















BELO E DRAMÁTICO

O amanhecer de Paris em preto e branco impressionista, como se banhada de prata. Em primeiro plano, o bairro que ultrapassou os limites da cidade transformando-se em sinônimo de espetáculos e extravagância dos “annés folles”, que marcaram o início do século passado. Montmartre, o ponto mais alto da cidade e capital dos boêmios e artistas da primeira metade do século XX na capital francesa, explode em cores. Assim começa o musical “Moulin Rouge”, filme de Baz Luhrmann, estrelado pela belíssima e talentosa Nicole Kidman que tem como parceiro Ewan McGregor.
Pouco conhecido, Luhrmann ousou. Ele reinventa, com esse filme a linguagem cinematográfica. Sem abusar dos efeitos especiais mas mostrando que os 24 quadros do cinema são sempre uma possibilidade infinita, o diretor criou um conto infantil para adultos. As cores são fortes, os sentimentos frágeis.
Ele poderia ter filmado em Las Vegas mas Luhrmann fez questão de ambientar sua história em Montmartre, numa verdadeira declaração de amor a Paris e à cultura francesa. A começar pela escolha do bairro. Mas não fica só aí. Satinée (Acetinada), a personagem principal resume algumas heróinas reais e míticas do mundo francês. Ela é uma cortesã – no mundo ocidental, nenhum outro país foi tão devotado às cortesãs quanto a França – do famoso cabaret “Le Moulin Rouge”.
Satinée é ao mesmo tempo “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas, ou “Naná”, de Victor Hugo, todas com o mesmo final trágico provocado pela tuberculose, o grande mal do começo do século XX e é, principalmente, a a caprichosa diva do teatro francês, Sarah Bernadt, que viveu intensamente os années folles. Sarah era tão caprichosa que, alheia ao relógio, seu mordomo ao lhe chamar para os compromissos dizia, “madame, quando a senhora quiser, são oito horas”. Satinée também tem seus caprichos. Mas é obediente como devem ser os grandes profissionais.
A primeira aparição de Nicole é espetacular. Ela desce em meio do palco, como se flutuasse. E conquista o amor de um jovem inglês e escritor, que se mudara para Paris e vivia numa água-furtada em Montmartre, bem em frente ao cabaret. Onde mais poderia viver um escritor estrangeiro em Paris? O filme se desenrola nas linhas escritas pelo jovem inglês que termina conquistando a bela.
Luhrmann não esquece a famosa gastronomia francesa. É bem verdade que a cena é rápida, mas a mesa é apetitosa e o prato preparado por ninguém menos que o mais famoso pintor de Montmartre. Toulouse Lautrec. Ele mesmo. E é amigo e cúmplice do escritor apaixonado que disputa a deusa com um conde mimado e vingativo.
O resto, só indo à locadora mais próxima. Mas, afirmam as escrituras pouco ou nada sagradas, as deusas são inatingíveis. Moulin Rouge merece ser visto mais de uma vez. Corre o risco de se tornar cult. Portanto, imperdível. Recomenda-se, para este filme, além da tradicional pipoca, uma taça de champagne. Pode ser rouge.




















Terça-feira, Janeiro 06, 2004

UM ANO GLORIOSO

A imprensa brasileira festejou a virada do cinema brasileiro que em 2003 reconquistou o público e registrou um aumento de 200% de espectadores. Vinte e dois milhões de brasileiros assistiram filmes brasileiros no ano passado. Em 2002 foram 7,2 milhões. Os números impressionam mas é preciso avaliar como se deu a conquista do público.
Para começar, a audiência do cinema brasileiro do final do século XX e início do XXI ainda está longe de alcançar a meta atingida nos anos 70, quando o Cinema Novo ainda era a grande sensação e 35% dos filmes exibidos no Brasil eram brasileiros. Com público fiel. O Governo militar perseguiu e terminou afugentando diretores tais como Glauber Rocha e Cacá Diegues que foram viver na Europa. O Brasil então passou por um período de produções lamentáveis quando surgiu uma enxurrada de filmes pornográficos de péssima qualidade. O único momento de grandeza acontecia uma vez por ano durante o Festival de Cinema de Brasília que chegou a ser proibido durante dois anos pelos ditadores. O festival era um espaço da resistência ao regime. E lá surgiram grandes nomes, entre eles, Rogério Sganzerla com seu “Bandido da Luz Vermelha”.
O novo boom é preciso ser visto com entusiasmo crítico. São produções geradas e alimentadas pela TV Globo que pretende ser uma nova Hollywood abaixo da linha do equador. Atores e atrizes são conhecidos das novelas e os filmes em muitos momentos pecam pelo uso da linguagem fácil da televisão. Quase todos, com algumas louváveis exceções, a exemplo de “O Auto da Compadecida” têm sabor pasteurizado. Mas são lançados por uma formidável máquina de propaganda que termina atraindo o público para a tela grande. Esse é o lado positivo da máquina de marketing da TV Globo.
A tela grande conquista. O público volta e concede audiência a outros filmes que estão fora do circuito “globaliano”. Isso explica o estrondoso sucesso de “Carandiru” (que também contou com estrelas da Globo), com cinco milhões de espectadores. Carandiru é candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, ao lado de “Cidade de Deus” (que será reapresentado na concorrência) e “Ônibus 174”.
Mesmo sem o apoio oficial como acontece na França, onde cinema é levado a sério, a produção brasileira dos últimos cinco anos tem dado o quê falar. Foi assim com “Central do Brasil”, que conquistou prêmio no Festival de Veneza, mas perdeu o Oscar para “A vida é bela”, com “Bicho de sete cabeças” e se prepara para conquistar prêmios com Carandiru.
Apesar disso, o cinema do Brasil ainda está longe de repetir o fenômeno do cinema indiano, que ocupa mis de 90% do mercado nacional.