NAS ENTRELINHAS                                 


NOSSA AMÉRICA

de Memélia Moreira

Quinta-feira, Março 25, 2004

ENTRE O PROVISÓRIO E A INCERTEZA
Memélia Moreira

Saques a residências particulares, assaltos, agressões físicas a pessoas do povo, assassinatos. Esse é o dia a dia, com suas respectivas noites, de Porto Príncipe, capital do Haiti, país que desde o dia 29 de fevereiro vive entre a incerteza amarga sobre seu futuro e um governo provisório que pode ser sucedido por outro governo provisório e por mais outros e outros governos provisórios. Ainda não há data, nem condições políticas, para que seja escolhido, o sucessor de Jean-Bertrand Aristide, presidente deposto em 29 de fevereiro numa conspiração patriocinada pelos Estados Unidos, França, com participação do Canadá.
Essa situação de violência foi descrita pelo senador Joseph Feuille, em correspondência dirigida à Confederação Parlamentar das Américas (COPA), que promoveu um seminário em Brasília, na terça-feira, 23 de março. Na carta, o parlamentar haitiano pede desculpas pela ausência dizendo ainda que dos 27 senadores haitianos, só 15 estão trabalhando normalmente porque serem vítimas dos saques e pilhagens sistemáticas que vêm acontecendo desde o golpe de estado do dia 29 de fevereiro.
Aristide foi substituído pelo juiz Boniface Alexander, da corte suprema daquele país, que escolheu para primeiro-ministro Gérard LaTortue, figura conhecida desde que integrou grupos paramilitares durante o governo de Raoul Cendars, ditador imposto pelos Estados Unidos no início dos anos 90, quando Jean Bertrand Aristide foi deposto pela primeira vez.
O presidente provisório prometeu fazer cumprir a consituição haitiana que prevê, em caso de vacância do cargo, eleições presidenciais num prazo de 45 a 90 dias. O prazo máximo se encerra em junho e nem mesmo a coalisão França-Estados Unidos-Canadá que mandaram tropas “de paz” garantem a realização do pleito.
As potências que tramaram o golpe de fevereiro estão, no momento, mais preocupadas com a situação interna de seus países porque em ano eleitoral. Jacques Chirac, que viu minguar suas esperanças de permanência no poder, com a derrota do seu partido nas eleições de 21 de março e George W. Bush que está numa difícil campanha de reeleição que, até agora, se mostra mais favorável ao partido democrata do candidato John Kerry.
Nesse cenário, onde o descaso internacional é flagrante, o Haiti, que foi a mais próspera colônia da França até 1804 e hoje é o país mais miserável da América Latina, vive sob a ameaça de viver uma guerra civil sem fim porque Guy Philippe – que também foi financiado e treinado pelos Estados Unidos para depor Aristide – já disse que está disposto a retomar as armas.
O Haiti, guardando as devidas dimensões, corre o risco de se transformar no Afeganistão da América Latina.

Terça-feira, Março 09, 2004

UM GOLPE DAS POTÊNCIAS ALIADAS AO NARCOTRÁFICO

Haiti, a nação mais miserável das Américas, com um índice de desemprego que beira os 80%, vive desde o dia 29 de fevereiro um dos mais eficazes golpes de estado que se tem notícia no continente. E não é para menos. Foi tramado em conjunto por duas superpotências: Estados Unidos e França, com total apoio do narcotráfico que faz de Porto Princípe, capital do País, a principal base de trânsito da cocaína que sai da Colômbia e entra nos Estados Unidos. O narcotráfico interessa aos credores. Paga os juros da dívida externa desse pobre país.
A queda de Jean-Bertrand Aristide, presidente do Haiti, teve lances dignos de filmes de ação e espionagem. Ela começou a ser tramada em setembro de 2003 entre Washington e Paris e atende a interesses múltiplos. Para o presidente dos Estados Unidos, George Bush, a derrubada de Jean-Bertrand Aristide e a consequente militarização do Caribe ( a partir da ilha de Hispaniola, que tem Cuba a noroeste e Venezuela ao sul), é mais um passo para, em pouco tempo (espera Bush) derrubar Hugo Chávez, presidente da Venezuela e, máxima glória, Fidel Castro, o dirigente de Cuba. De preferência, que Fidel caia antes de novembro de 2004, quando Bush vai enfrentar uma difícil reeleição contra o democrata John Kerry. Coincidentemente, foi Kerry quem 1989, denunciou a CIA de estar envolvida com o tráfico e comércio de drogas. Onde? No Haiti. Na época a famosa central de inteligência americana tramava o golpe de estado de 1990 que derrubou Aristide e pôs em seu lugar Raoul Cedras, antigo dirigente dos esquadrões da morte do Haiti.
Enquanto Bush planeja transformar o Haiti em base para controlar todo o Caribe, as razões para a França são ainda mais mesquinhas. O governo de Jacques Chirac (e de seus antecessores, inclusive o socialista François Miterrand) nega-se a pagar um adívida que a França contraiu com o Haiti no século XIX. Aristide vinha insistentemente cobrando a dívida que o orgulho francês não deixa pagar. Os remanescentes da aristocracia francesa que acompanharam Bonaparte na sua política expansionista jamais perdoaram o Haiti por ter derrotado o poderoso exército de Napoleão em dezembro de 1803. Era a mais próspera das colônias e tornou-se independente, criando a primeira república negra das Américas em primeiro de janeiro de 1804. O ódio secular do sistema francês é tão profundo que uma das primeiras providências tomadas por Quai D´Orsay para a articulação do golpe foi o pedido para que as nações do continente não participassem da festa de 200 anos de inependência.
Enquanto as conversas ficaram por conta dos franceses, os americanos trataram de armar os “rebeldes” que estão equipados com armas mais modernas que a indústria armentista tem a oferecer no momento. Levando-se em conta a pobreza do país, é no mínimo suspeita a origem dessas armas. A Casa Branca contou com o apoio incondicional da República Dominicana que facilitou a entrada dos rebeldes por suas fronteiras.
E quem são eles? Figuras conhecidas dessa triste história: Guy Philippe, , acusado do assassinato de dezenas de civis durante o golpe militar de 1990, JeanTatouene, conhecido torturador e integrante de forças paramilitares, Jode Chamblain, ex-Tonton Macoute, força policial do sanguinário ditador haitiano, Jean-Baptiste Duvalier, o “Papa Doc” e Emanuel Constant que em 1994, acompanhado de cem soldados invadiu a pequena aldeia de Raboteau á procura de aliados de Jean Aristide e terminou promovendo um massacre de 30 pessoas, com requintes de crueladade. Todos eles têm com ligações com o narcotráfico.
O grupo é apoiado pelo embaixador americano em Porto Príncipe, James Foley, que foi enviado para o Haiti em setembro passado e a partir daí passou a ter reuniões contínuas com os “rebeldes’’. Do currículo de James Foley há sua passagem pelo Kosovo. Ele chegou lá antes da ocupação da OTAN, em 1999 e, de imediato apoiou o Exército de Libertação do Kosovo (ELK) de conhecida ligação com o narcotráfico.
O desfecho dessa história ainda está por acontecer. No dia 29 de fevereiro, quando assinou o documento de renúncia, o presidente haitiano estava sob a mira das M-16 das tropas especiais dos Estados Unidos e na frente dos embaixadores James Foley Thierry Burkard, o embaixador francês. Foi embarcado num avião sem saber qual o destino, caracetrozando o seqüestro e deve ser substituído por um dos sanguinários rebeldes que vêm servindo aos frequentes golpes de estado sumbetidos ao povo haitiano.