UM NÃO DO ALASKA À PATAGÔNIA
“No queremos, no tenemos gana/ser una colonia norteamericana”. Nossa América inundou a baia de Biscayne, na principal avenida de Miami com essa palavra de ordem em espanhol. Ela foi a mais ouvida nos quatro dias de manifestações contra a Área de Livre Comércio das Américas. No Hotel Intercontinental, onde se reuniam 34 ministros do continente, chegavam apenas ruídos das manifestações de rua. Os protestos eram abafados pelo barulho dos quatro helicópteros que dia e noite vigiavam as três avenidas e oito ruas do centro de Miami, onde se concentravam as atividades dos sindicatos, organizações da sociedade civil latino-americana e norte-americana, organizações não-governamentais e igrejas que foram àquela cidade do extremo sul dos Estados Unidos para dizer que a ALCA multiplicará o número de pobres em todo o continente.
Para os trabalhadores americanos, esse acordo vai significar redução de empregos num país que enfrenta a cada dia mais o fantasma do desemprego. Eles já sofrem os efeitos da NAFTA (Área de Livre Comércio da América do Norte, englobando México, Estados Unidos e Canadá). O NAFTA fez crescer a pobreza, congelou e reduziu salários, além de ter diminuído os direitos dos consumidores.
Em Miami, a América mostrou sua cara. Indígena, negra, loura, mestiça. E para lá foram argentinos, paraguaios, guatemaltecos, salvadorenhos, brasileiros, equatorianos, mexicanos, peruanos, bolivianos, haitianos, costarriquenhos. Mas faltava um pedaço desse rosto. Cuba foi excluída. Mais uma vez. Além disso, não foram vistos chilenos e uruguaios. Chile e Uruguai vêm se alinhando às propostas dos Estados Unidos e os movimentos populares desses dois países estão retraídos. Não se fizeram representar.
E por que tanto se protestou em Miami? Há, no mínimo oito ou nove motivos importantes para se rechaçar a ALCA. Vamos enumerar alguns deles. A razão para que os latino-americanos se posicionem contra o acordo deve-se ao fato deste tratado ter sido escrito em absoluto segredo. A opinião pública dos 34 países envolvidos nessa proposta até hoje não foi informada dos pontos do acordo. Só algumas grandes corporações financeiras conhecem a íntegra do texto e, assim mesmo, empresários se queixam porque não tiveram acesso ao documento principal, onde estão postas as regras comerciais com as quais vão trabalhar. É dar um cheque em branco ao desconhecido.
Além desse sigilo suspeito, a ALCA não passa de uma expansão do desastre representado pela NAFTA. Com esse mercado, implantado há dez anos, só nos Estados Unidos foram fechados 765 mil postos de trabalho e, os trabalhadores que conseguiram um novo emprego estão recebendo, em média, 23% a menos que recebiam no emprego anterior. No México, também em conseqüência da implantação da NAFTA, os salários tiveram uma redução média de 21%, entre 1995 e 1999.
Além da redução de empregos, a ALCA vai representar também a diminuição de direitos trabalhistas porque as grandes corporações vão se deslocar para os países do sul onde o excedente de mão de obra permite o pagamento de salários miseráveis. Uma das conseqüências desse deslocamento se refletirá diretamente sobre as organizações sindicais. Elas poderão ser chantageadas no momento das reivindicações por melhores salários ou condiçoes de trabalho. Essa hipótese não é abstrata. De acordo com estudos da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, dois terços das indústrias de fabricação de equipamentos de comunicação, em enfrentamento com os sindicatos nas campanhas salariais, ameaçaram os trabalhadores com a possibilidade de mudar estas empresas para países estrangeiros.
Se não bastasse isso, a ALCA, a exemplo da NAFTA, vai agravar a destruição do meio ambiente. As empresas vão incentivar mais ainda a derrubada das matas, além de explorar os rios além de sua capacidade. 40% das florestas nativas do estado de Guerrero, no México, foram destruídos desde a implantação da NAFTA.
Ainda na área de qualidade ambiental, os empresários que vão assinar os acordos da ALCA já estão pressionando os países para que aceitem o plantio de OGM´s (organismos geneticamente modificados ou transgênicos). No Brasil, esses empresários já venceram a primeira batalha. Grupos ambientalistas advertem para o perigo desta tecnologia que ainda não foi suficientemente testada. Com sementes patenteadas pelas grandes empresas, os agricultores que guardam suas sementes ano após ano serão obrigados a comprar novas. Especialistas em segurança alimentar acreditam que isso vai aumentar a fome no continente.
Além do desastre ambiental, o tratado vai provocar grandes prejuízos aos pequenos agricultores de toda a América incentivando a agricultura de exportação, enquanto desestimula a agricultura de subsistência. Entre 1995 a 2000, os preços dos produtos horti-granjeiros dos Estados Unidos baixaram uma média de 42% e 33 mil pequenos agricultores foram à falência, enquanto as agro-indústrias cresciam com subvenção governamental. No México essa política expulsou 500 mil agricultores do campo em nove anos.
E, para quem ainda tem alguma dúvida sobre os efeitos nocivos da ALCA, este tratado vai, fatalmente, privatizar os serviços essenciais, tais como saúde, educação, energia elétrica e água potável. Em alguns países da América Latina, entre eles, a Bolívia, a água já foi privatizada e as tarifas aumentaram em 200%, o que provocou uma série de rebveliões em Cochabamba.
Há alternativas para a ALCA. Um grupo de cidadãos escreveu o documento “Tratada Alternativo para as Américas” onde se propõe uma área de comércio socialmente responsável e ambientalmente sustentável. Quem quiser maiores informações pode encontrar o documento no site www.globalexchange.org.
“No queremos, no tenemos gana/ser una colonia norteamericana”. Nossa América inundou a baia de Biscayne, na principal avenida de Miami com essa palavra de ordem em espanhol. Ela foi a mais ouvida nos quatro dias de manifestações contra a Área de Livre Comércio das Américas. No Hotel Intercontinental, onde se reuniam 34 ministros do continente, chegavam apenas ruídos das manifestações de rua. Os protestos eram abafados pelo barulho dos quatro helicópteros que dia e noite vigiavam as três avenidas e oito ruas do centro de Miami, onde se concentravam as atividades dos sindicatos, organizações da sociedade civil latino-americana e norte-americana, organizações não-governamentais e igrejas que foram àquela cidade do extremo sul dos Estados Unidos para dizer que a ALCA multiplicará o número de pobres em todo o continente.
Para os trabalhadores americanos, esse acordo vai significar redução de empregos num país que enfrenta a cada dia mais o fantasma do desemprego. Eles já sofrem os efeitos da NAFTA (Área de Livre Comércio da América do Norte, englobando México, Estados Unidos e Canadá). O NAFTA fez crescer a pobreza, congelou e reduziu salários, além de ter diminuído os direitos dos consumidores.
Em Miami, a América mostrou sua cara. Indígena, negra, loura, mestiça. E para lá foram argentinos, paraguaios, guatemaltecos, salvadorenhos, brasileiros, equatorianos, mexicanos, peruanos, bolivianos, haitianos, costarriquenhos. Mas faltava um pedaço desse rosto. Cuba foi excluída. Mais uma vez. Além disso, não foram vistos chilenos e uruguaios. Chile e Uruguai vêm se alinhando às propostas dos Estados Unidos e os movimentos populares desses dois países estão retraídos. Não se fizeram representar.
E por que tanto se protestou em Miami? Há, no mínimo oito ou nove motivos importantes para se rechaçar a ALCA. Vamos enumerar alguns deles. A razão para que os latino-americanos se posicionem contra o acordo deve-se ao fato deste tratado ter sido escrito em absoluto segredo. A opinião pública dos 34 países envolvidos nessa proposta até hoje não foi informada dos pontos do acordo. Só algumas grandes corporações financeiras conhecem a íntegra do texto e, assim mesmo, empresários se queixam porque não tiveram acesso ao documento principal, onde estão postas as regras comerciais com as quais vão trabalhar. É dar um cheque em branco ao desconhecido.
Além desse sigilo suspeito, a ALCA não passa de uma expansão do desastre representado pela NAFTA. Com esse mercado, implantado há dez anos, só nos Estados Unidos foram fechados 765 mil postos de trabalho e, os trabalhadores que conseguiram um novo emprego estão recebendo, em média, 23% a menos que recebiam no emprego anterior. No México, também em conseqüência da implantação da NAFTA, os salários tiveram uma redução média de 21%, entre 1995 e 1999.
Além da redução de empregos, a ALCA vai representar também a diminuição de direitos trabalhistas porque as grandes corporações vão se deslocar para os países do sul onde o excedente de mão de obra permite o pagamento de salários miseráveis. Uma das conseqüências desse deslocamento se refletirá diretamente sobre as organizações sindicais. Elas poderão ser chantageadas no momento das reivindicações por melhores salários ou condiçoes de trabalho. Essa hipótese não é abstrata. De acordo com estudos da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, dois terços das indústrias de fabricação de equipamentos de comunicação, em enfrentamento com os sindicatos nas campanhas salariais, ameaçaram os trabalhadores com a possibilidade de mudar estas empresas para países estrangeiros.
Se não bastasse isso, a ALCA, a exemplo da NAFTA, vai agravar a destruição do meio ambiente. As empresas vão incentivar mais ainda a derrubada das matas, além de explorar os rios além de sua capacidade. 40% das florestas nativas do estado de Guerrero, no México, foram destruídos desde a implantação da NAFTA.
Ainda na área de qualidade ambiental, os empresários que vão assinar os acordos da ALCA já estão pressionando os países para que aceitem o plantio de OGM´s (organismos geneticamente modificados ou transgênicos). No Brasil, esses empresários já venceram a primeira batalha. Grupos ambientalistas advertem para o perigo desta tecnologia que ainda não foi suficientemente testada. Com sementes patenteadas pelas grandes empresas, os agricultores que guardam suas sementes ano após ano serão obrigados a comprar novas. Especialistas em segurança alimentar acreditam que isso vai aumentar a fome no continente.
Além do desastre ambiental, o tratado vai provocar grandes prejuízos aos pequenos agricultores de toda a América incentivando a agricultura de exportação, enquanto desestimula a agricultura de subsistência. Entre 1995 a 2000, os preços dos produtos horti-granjeiros dos Estados Unidos baixaram uma média de 42% e 33 mil pequenos agricultores foram à falência, enquanto as agro-indústrias cresciam com subvenção governamental. No México essa política expulsou 500 mil agricultores do campo em nove anos.
E, para quem ainda tem alguma dúvida sobre os efeitos nocivos da ALCA, este tratado vai, fatalmente, privatizar os serviços essenciais, tais como saúde, educação, energia elétrica e água potável. Em alguns países da América Latina, entre eles, a Bolívia, a água já foi privatizada e as tarifas aumentaram em 200%, o que provocou uma série de rebveliões em Cochabamba.
Há alternativas para a ALCA. Um grupo de cidadãos escreveu o documento “Tratada Alternativo para as Américas” onde se propõe uma área de comércio socialmente responsável e ambientalmente sustentável. Quem quiser maiores informações pode encontrar o documento no site www.globalexchange.org.