NAS ENTRELINHAS                                 


NOSSA AMÉRICA

de Memélia Moreira

Terça-feira, Dezembro 23, 2003

COMEMORAÇÃO COM SINAIS DE INQUIETUDE

O povo argentino voltou às ruas no final de semana. Estava comemorando dois anos da rebelião popular que escorraçou o ex-presidente Fernando De La Rua da Casa Rosada. Naquele 2001 foram dias de violência e reafirmação de cidadania. O povo enxotando o homem que seguiu à risca as orientações do Fundo Monetário Internacional e levou o país ao abismo.
Nas comemorações, entretanto, um sinal de inquietude. Primeiro, o atentado à bomba que deixou 25 feridos, alguns em estado grave, no ato promovido pelo Bloco Piqueteiro Nacional. Já não há hoje, em Buenos Aires, quem tenha dúvidas sobre a intenção criminosa dos autores da bomba. Falta apenas identificar o responsável. Os movimentos de extrema direita da Argentina continuam em plena atividade, tanto os integrantes da “Tríplice A” (Aliança Argentina Anti-comunista) quanto os remanescentes dos torturadores permanecem em postos importantes nos meios policiais. E a direita apoia o presidente Nestor Kirchner que tenta dissolver o movimento dos piqueteiros.
O outro sinal de inquietação diz respeito à própria estabilidade política do país. Ainda mergulhada numa profunda crise, a sociedade argentina está começando a rejeitar o discurso populista do presidente Nestor Kirchner. Embora ele tenha decretado moratória, está negociando, discretamente, acordos com o Banco Mundial e com o Fundo Monetário Internacional. E todos sabem quais as conseqüências desses acordos.
Ora, foi exatamente contra esses acordos, responsáveis pela falência financeira na qual mergulhou a Argentina, que o povo foi às ruas e botou três presidentes para correr, em menos de dois meses. A retomada desses acordos com instituições finananceiras internacionais – que não mudam suas regras, mesmo diante das catástrofes que provocam no continente latino-americano – estão sendo rejeitadas pelo povo. Há cada dia sinais visíveis de desaprovação do Governo. Em um ano, a aprovação do presidente despencou em mais de 20%, apesar de Kirchner ainda estar sendo festejado por movimentos sindicais. A estas inquietações, acrescenta-se ainda denúncias de corrupção envolvendo parlamentares da base do governo.
É bem verdade que a esquerda está dividida em dezenas de movimentos mas, altivos e rebeldes e ainda insatisfeitos porque não recuperaram seu antigo padrão de vida, os argentinos podem superar essas divisões internas a qualquer momento, principalmente se for confirmado um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional exigindo mais arrocho econômico. E eles disseram isso nas comemorações.

Terça-feira, Dezembro 16, 2003

UM CORONEL LADEIRA ABAIXO

A prisão de Humberto Cholango, presidente da Ecuarunari, a mais forte organização do Conselho Nacional Indígena do Equador (CONAIE), na noite de sábado, 13 de dezembro, em Quito, evidencia o racha que se estabeleceu entre o presidente do país, coronel Lucio Guterrez e os movimentos sociais que levaram este coronel ao governo. Lucio Guterrez, empossado em janeiro deste ano, vê seu prestígio descendo a ladeira e já vem enfrentando os primeiros movimentos de resistência contra seu governo. Não é para menos.
Cholango, índio do povo Kichua, dias antes de sua prisão declarou à imprensa que o presidente Guterrez já não conta mais com a confiança das organizações que apoiaram sua candidatura porque é “mentiroso, incapaz e incoerente”.
A crítica é apenas o reflexo da crise que se instalou no Equador logo depois da posse de Guterrez. Além da Ecuarunari, outras organizações já pregam abertamente a renúncia de Guterrez, na mesma intensidade em que pregavam a renúncia do ex-presidente equatoriano, Jamil Mahuad, derrubado numa rebelião popular.
Coronel do Exército que em janeiro de 2001 apoiou a rebelião comandada por líderes indígenas contra o presidente Jamil Mahuad, Guterrez fez sua campanha prometendo rever a política de seus antecessores que, entre outras decisões, dolarizaram a economia equatoriana, empobrecendo mais ainda o povo. Ao assumir, abandonou as bandeiras de campanha e, de imediato fez acordo com o Fundo Monetário Internacional, manteve a dolarização da moeda e, para completar, aderiu sem muita discussão ao projeto da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), nos moldes dos EUA. O Equador é um dos países que concordou com a proposta do secretário de Comércio dos Estados Unidos, Robert Zoellick de assinar acordos bilaterais de comércio.
Dias antes da prisão de Cholango, as forças policiais de Quito repremiram com uma violência brutal a marcha dos professores que exigem o cumprimento do acordo de reposição salarial, assinado pelo governo em julho passado, quando a União Nacional dos Educadores (UNE) entrou em greve. O acordo não foi cuumprido e os professores retomaram a greve desde a primeira quinzena de novembro, agora por tempo indeterminado. A marcha dos professores sobre Quito foi abortada porque Guterrez proibiu a entrada de ônibus na capital. A partir daí, as organizações sociais equatorianas declararam guerra aberta ao coronel.
Guterrez, que chegou a ser preso e em seguida expulso do Exército depois de aderir o movimento de janeiro de 2001, antes de se lançar candidato, e buscando apoio das organizações de esquerda da América Latina, esteve no Brasil. Numa conversa com um grupo de jornalistas declarou que seu país precisava de alguém para romper o ciclo de miséria imposta pela política neoliberal que domina o continente latino-americano. E se disse pronto a romper com este ciclo. Foi eleito ano passado e, menos de um ano depois da posse refaz o mesmo roteiro daqueles que o antecederam.
Se não bastasse esse desgaste político, o coronel Lucio Guterrez é também alvo de investigação. Suas contas bancárias estão sendo abertas porque o presidente é suspeito de enriquecimento irregular. Em outras palavras, Guterrez sucumbiu à praga de corrupção que contamina governantes latino-americanos.

Terça-feira, Dezembro 09, 2003

RESISTÊNCIA BOLIVARIANA

Mais uma vez, o tiro saiu pela culatra. Na mais recente tentativa de desestabilizar o governo realmente popular e democrático do presidente venezuelano Hugo Chávez a Coordenação Democrática (oposição formada por empresários de vários setores, principalmente de comunicação, industriais e banqueiros) embora alardeando ter reunido 3,6 milhões de assinaturas no referendo, não está conseguindo comprovar esse número que seria suficiente para reduzir o tempo de mandato do presidente da República. Além disso, foi obrigada a assistir o espetáculo da mobilização popular acontecida no domingo sete de dezembro, quando Chávez festejou o quinto aniversário de seu governo, falando para milhares de pessoas, que também comemoravam antecipadamente a derrota de seus adversários.
E os adversários promoveram várias fraudes no decorrer do processo de coleta de assinaturas. De acordo com relatório da deputada federal argentina Alicia Castro, designada como observadora internacional do referendo, entre as irregularidades cometidas, a Rádio TV Caracas, instalou equipamento para filmar a coleta de assinaturas, enquanto promovia show com artistas de televisão que faziam piadas contra o presidente da república e em favor do referendo. Em cinco lugares de votação, diz o relatório da deputada argentina, “foram entregues panfletos favoráveis ao referendo, nas mesas de coleta de assinatura”. Alícia, que foi insultada por pessoas que trabalhavam na coleta de assinaturas, e não aceitavam a participação de observadores internacionais, encerra seu relatório dizendo que, na qualidade ‘de observadora imparcial e como deputada do Parlamento argentino, quero assinalar que a coleta de assinaturas para um referendo revogatório é um valioso processo da democracia participativa reclamada por nossos povos. Por isso, é de extrema importância que este processo não seja perturbado pela fraude e pela conspiração”.
Além desses fatos denunciados por uma observadoraisenta, os chavistas também detectaram vícios no referendo. O mais grave deles foi praticado por empresários oposicionistas que obrigavam seus empregados a assinar contra Chávez.
O anúncio oficial da consulta popular é de responsabilidade do CNE (Conselho Nacional Eleitoral), que tem até três de janeiro para apresentar o resultado do referendo. Até lá, Chávez vai enfrentar uma verdadeira guerra psicológica desencadeada pelos principais jornais do país, que são controlados pela oposição e que já tentaram derrubar o presidente mais de uma vez. Os jornais venezuelanos contam com a estreita colaboração da CNN, rede de televisão norte-americana que é capaz inclusive de fraudar imagens. No caso do referendo, mostrou uma fila de pessoas que estavam fazendo compras e disse que era fila para a coleta de assinaturas. Depois, singelamente, pediu desculpas.
Essa não é a primeira vez que Hugo Chávez enfrenta uma tentativa de desestebilização comandada pela imprensa. Em abril de 2002, na primeira tentativa, o jornal “El Universal”, parte importante da tentativa de golpe de estado contra o presidente publicou, em letras garrafais, manchete dizendo “Acabou-se”. Dois dias depois, o jornal foi obrigado a desmentir sua própria manchete, desta vez com letras em tamanho normal, dizendo “Chávez restituído à Presidência”.
Desta vez, com as mesmas letras garrafais, o “El Universal”, em manchete do dia três de dezembro, anuncia “Assinaturas suficientes’’. O objetivo principal desta manchete é pressionar o Conselho Nacional Eleitoral que, para desespero da oposição, em dois outros referendos conduziu-se com seriedade, imparcialidade e transparência. Com manchetes dessa natureza, o principal jornal de Caracas pretende demolir a autoridade do CNE.
Indiferente a tudo isso, a Organização Interamericana de Imprensa jamais se manifestou contra os órgãos de comunicação da Venezuela que, apesar da campanha diária para minar Hugo Chávez, enfrenta a resitência bolivariana de um povo que exige respeito à sua soberania.







Segunda-feira, Dezembro 01, 2003

FORMAÇÃO DE TORTURADORES

A implantação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) vai facilitar o recrudescimento do militarismo no continente. Essa e outras denúncias estão sendo feitas por intelectuais e políticos norte-americanos, entre eles, o ex-senador democrata Tom Hayden. Durante o encontro de Miami, as organizações não governamentais “Intercâmbio Global” e “Paz e Justiça” promoveram seminário “ALCA, Escola das Américas e Militarismo” durante o qual foi exibido um vídeo mostrando ações de violência praticadas por militares norte-americanos e paramilitares contra camponeses da Colômbia.
A escalada de militarização da América Latina patriocinada pelos Estados Unidos e Canadá começou suas operações com o Plano Colômbia, programa norte-americano de combate ao narcotráfico, que há um ano já vem fazendo incursões pela Bolívia. Projetado inicialmente para operações de combate ao narcotráfico, entre elas, o fumigamento dos campos de plantação de coca na fronteira da Colômbia com o Equador, o plano começa a abandonar seus objetivos originais. O sub-secretário de estado para Assuntos Políticos da Casa Branca, Marc Grossman, já admite abertamente que o plano “permitirá à Colômbia o uso de helicópteros cedidos pelos EUA e também a brigada anti-droga para combater os terroristas, de acordo com as necessidades”.
Há mais de cem militares americanos atuando na Colômbia. Há dois, anos, quando foi concebido, o plano previa a presença de 40 técnicos militares e 80 civis. Esse número, entretanto, já foi ultrapassado e, silenciosamente, mais militares estão sendo enviados para a suposta operação de combate ao narcotráfico.
Esses militares são treinados pela Escola das Américas, uma famigerada instituição sediada na Geórgia, Estados Unidos, que formou militares e torturadores das ditaduras implantadas na América Latina nos anos 60 e 70. Depois de sofrer uma intensa campanha que desgastou sua imagem, a escola mudou de nome. Chama-se agora Instituto de Cooperação para Segurança Hemisférica e continua formando militares para “combate ao terrorismo”, título sob o qual se abrigam todos aqueles que discordam da política de Washington.
No Brasil, a escalada de militarização pode ser constatada a partir da instalação do sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM). Suas unidades foram implantadas em territórios indpigenas localizados entre os Estados de Mato Grosso, Pará, Amazonas, Roraima, Acre e Amapá. A sociedade brasileira ignora completamente as atividades desenvolvidas pelo SIVAM, sem saber sequer se os equipamentos instalados servem ou não para espionar os países que fazem fronteira com o território brasileiro.
O acordo assinado entre os Estados Unidos e o Brasil para o uso do Centro de Lançamentos da Base Militar de Alcântara também faz parte do projeto de militarização da América Latina. Abortado depois de uma intensa mobilização dos movimentos sociais e sindicais do Brasil, o acordo foi abandonado mas novas propostas estão sendo apresentadas pelo governo Bush que espera a assinatura da ALCA para vender seus projetos militares FORMAÇÃO DE TORTURADORES

A implantação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) vai facilitar o recrudescimento do militarismo no continente. Essa e outras denúncias estão sendo feitas por intelectuais e políticos norte-americanos, entre eles, o ex-senador democrata Tom Hayden. Durante o encontro de Miami, as organizações não governamentais “Intercâmbio Global” e “Paz e Justiça” promoveram seminário “ALCA, Escola das Américas e Militarismo” durante o qual foi exibido um vídeo mostrando ações de violência praticadas por militares norte-americanos e paramilitares contra camponeses da Colômbia.
A escalada de militarização da América Latina patriocinada pelos Estados Unidos e Canadá começou suas operações com o Plano Colômbia, programa norte-americano de combate ao narcotráfico, que há um ano já vem fazendo incursões pela Bolívia. Projetado inicialmente para operações de combate ao narcotráfico, entre elas, o fumigamento dos campos de plantação de coca na fronteira da Colômbia com o Equador, o plano começa a abandonar seus objetivos originais. O sub-secretário de estado para Assuntos Políticos da Casa Branca, Marc Grossman, já admite abertamente que o plano “permitirá à Colômbia o uso de helicópteros cedidos pelos EUA e também a brigada anti-droga para combater os terroristas, de acordo com as necessidades”.
Há mais de cem militares americanos atuando na Colômbia. Há dois, anos, quando foi concebido, o plano previa a presença de 40 técnicos militares e 80 civis. Esse número, entretanto, já foi ultrapassado e, silenciosamente, mais militares estão sendo enviados para a suposta operação de combate ao narcotráfico.
Esses militares são treinados pela Escola das Américas, uma famigerada instituição sediada na Geórgia, Estados Unidos, que formou militares e torturadores das ditaduras implantadas na América Latina nos anos 60 e 70. Depois de sofrer uma intensa campanha que desgastou sua imagem, a escola mudou de nome. Chama-se agora Instituto de Cooperação para Segurança Hemisférica e continua formando militares para “combate ao terrorismo”, título sob o qual se abrigam todos aqueles que discordam da política de Washington.
No Brasil, a escalada de militarização pode ser constatada a partir da instalação do sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM). Suas unidades foram implantadas em territórios indpigenas localizados entre os Estados de Mato Grosso, Pará, Amazonas, Roraima, Acre e Amapá. A sociedade brasileira ignora completamente as atividades desenvolvidas pelo SIVAM, sem saber sequer se os equipamentos instalados servem ou não para espionar os países que fazem fronteira com o território brasileiro.
O acordo assinado entre os Estados Unidos e o Brasil para o uso do Centro de Lançamentos da Base Militar de Alcântara também faz parte do projeto de militarização da América Latina. Abortado depois de uma intensa mobilização dos movimentos sociais e sindicais do Brasil, o acordo foi abandonado mas novas propostas estão sendo apresentadas pelo governo Bush que espera a assinatura da ALCA para vender seus projetos militares para o continente.
ao continente.