Nenhures, 1 de junho de 2004
Até parece que agora a coisa vai!
Era de se esperar que depois de seu discurso em Guadalajara, na volta da viagem ao Shopping China, o presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, fosse mandar às favas a orientação do mercado, seguida com fervor pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci. E, a partir daí, dar a largada para uma política econômica voltada para o bem estar social, mais de acordo com o antigo ideário do Partido dos Trabalhadores.
Essa é a dedução lógica de quem ouviu ou leu o discurso feito pelo presidente brasileiro durante a III Cúpula América Latina, Caribe, União Européia. Foi uma passagem rápida pela bela cidade mexicana de Guadalajara. Mas, suficiente para que Lula manifestasse seu aparente descontentamento com as regras do mercado, essa entidade quase mitológica que a cada dia leva milhares de pessoas a integrar o contingente dos miseráveis do planeta.
Lula disse que "com grandes sacrifícios estamos empreendendo em nosso continente a reestruturação de nossas economias. Estamos saneando nossas finanças públicas. Modernizamos e tornamos mais eficiente nossa ação governamental. Adotamos a responsabilidade fiscal na gestão pública. Reduzimos as vulnerabilidades que comprometem e limitam o desenvolvimento econômico e social. Mais é evidente que não basta fazer o dever de casa. Mais grave: todo nosso sacrifício não impediu que se mantivessem inalterados ou, pior, se agravassem as estatísticas da fome, da pobreza, do desemprego, da desesperança" e terminou o discurso convocando os países ricos a ajudar no combate contra as desigualdades sociais.
Até parecia o Lula das campanhas presidenciais mas a fala não era para eleitores em potencial. Lá estavam, entre outros, Jacques Chirac, da França; Gerhard Schöreder, da Alemanha; José Luis Zapatero, da Espanha; Ferenc Mádi, da Hungria, Carlos Mesa, da Bolívia; Vicente Fox, do México, anfitrião do encontro que reuniu 19 chefes de Estado.
Não houve repercussões do discurso. Nem mesmo os jornais mexicanos, país cuja miséria se iguala à do Brasil saudaram o discurso. Lula já não causa mais frisson. E não é para menos. Foram apenas palavras, palavras e mais palavras que contradizem a prática do governo de Luis Inácio Lula da Silva. Até porque romper com o mercado exige pelos menos alguns gestos de bravura que, na América Latina são esboçados apenas pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez (a grande intriga do encontro foi o tratamento quase frio dispensado por Lula a seu colega venezuelano).
Mal chegou ao Brasil, cansado de seu tour, que incluiu passeio à Grande Muralha e visita a Shangai, além de Peiping, Lula passou o fim de semana repousando. Depois do repouso e, menos de três dias de um discurso que parecia rompimento com as amarras do mercado (que é apenas mais um eufemismo do sistema capitalista), lá foi ele de novo seguir as regras que tanto condenou em Guadalajara. Não apenas seguir mas, trabalhar pelo seu sucesso. E, para isso, logo na segunda-feira, determinou que todos os seus ministros assumam a defesa e negociação do salário-mínimo de 260 reais, medida provisória que está em vias de ser votada pelo Congresso.
Ora, para quem tanto se queixou do mercado, prestou conta aos "patrões" do hemisfério norte dizendo que está fazendo tudo que o mestre mandou, a disposição de Lula em defender o salário-miséria só pode ser explicada por psicanlistas. No mínimo, se trata de uma esquizofrenia em grau bastante elevado.
Ou, quem sabe, saudade dos palanques onde despejou palavras, palavras e palavras, criando uma esperança que ele mesmo passou a desconstruir.
Em tempo: o mercado não está nem aí para o bom comportamento fiscal do Presidente. E o dólar bateu seu recorde no mes de maio, com mais de 3% de valorização.
Até a próxima semana.
Memélia Moreira
Editora
Até parece que agora a coisa vai!
Era de se esperar que depois de seu discurso em Guadalajara, na volta da viagem ao Shopping China, o presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, fosse mandar às favas a orientação do mercado, seguida com fervor pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci. E, a partir daí, dar a largada para uma política econômica voltada para o bem estar social, mais de acordo com o antigo ideário do Partido dos Trabalhadores.
Essa é a dedução lógica de quem ouviu ou leu o discurso feito pelo presidente brasileiro durante a III Cúpula América Latina, Caribe, União Européia. Foi uma passagem rápida pela bela cidade mexicana de Guadalajara. Mas, suficiente para que Lula manifestasse seu aparente descontentamento com as regras do mercado, essa entidade quase mitológica que a cada dia leva milhares de pessoas a integrar o contingente dos miseráveis do planeta.
Lula disse que "com grandes sacrifícios estamos empreendendo em nosso continente a reestruturação de nossas economias. Estamos saneando nossas finanças públicas. Modernizamos e tornamos mais eficiente nossa ação governamental. Adotamos a responsabilidade fiscal na gestão pública. Reduzimos as vulnerabilidades que comprometem e limitam o desenvolvimento econômico e social. Mais é evidente que não basta fazer o dever de casa. Mais grave: todo nosso sacrifício não impediu que se mantivessem inalterados ou, pior, se agravassem as estatísticas da fome, da pobreza, do desemprego, da desesperança" e terminou o discurso convocando os países ricos a ajudar no combate contra as desigualdades sociais.
Até parecia o Lula das campanhas presidenciais mas a fala não era para eleitores em potencial. Lá estavam, entre outros, Jacques Chirac, da França; Gerhard Schöreder, da Alemanha; José Luis Zapatero, da Espanha; Ferenc Mádi, da Hungria, Carlos Mesa, da Bolívia; Vicente Fox, do México, anfitrião do encontro que reuniu 19 chefes de Estado.
Não houve repercussões do discurso. Nem mesmo os jornais mexicanos, país cuja miséria se iguala à do Brasil saudaram o discurso. Lula já não causa mais frisson. E não é para menos. Foram apenas palavras, palavras e mais palavras que contradizem a prática do governo de Luis Inácio Lula da Silva. Até porque romper com o mercado exige pelos menos alguns gestos de bravura que, na América Latina são esboçados apenas pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez (a grande intriga do encontro foi o tratamento quase frio dispensado por Lula a seu colega venezuelano).
Mal chegou ao Brasil, cansado de seu tour, que incluiu passeio à Grande Muralha e visita a Shangai, além de Peiping, Lula passou o fim de semana repousando. Depois do repouso e, menos de três dias de um discurso que parecia rompimento com as amarras do mercado (que é apenas mais um eufemismo do sistema capitalista), lá foi ele de novo seguir as regras que tanto condenou em Guadalajara. Não apenas seguir mas, trabalhar pelo seu sucesso. E, para isso, logo na segunda-feira, determinou que todos os seus ministros assumam a defesa e negociação do salário-mínimo de 260 reais, medida provisória que está em vias de ser votada pelo Congresso.
Ora, para quem tanto se queixou do mercado, prestou conta aos "patrões" do hemisfério norte dizendo que está fazendo tudo que o mestre mandou, a disposição de Lula em defender o salário-miséria só pode ser explicada por psicanlistas. No mínimo, se trata de uma esquizofrenia em grau bastante elevado.
Ou, quem sabe, saudade dos palanques onde despejou palavras, palavras e palavras, criando uma esperança que ele mesmo passou a desconstruir.
Em tempo: o mercado não está nem aí para o bom comportamento fiscal do Presidente. E o dólar bateu seu recorde no mes de maio, com mais de 3% de valorização.
Até a próxima semana.
Memélia Moreira
Editora
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