NAS ENTRELINHAS                                 


MUNDO DO TRABALHO

de Memélia Moreira

Terça-feira, Maio 04, 2004

JORNALISTA, PROFISSÃO DE ALTO RISCO

A primeira década do século XXI já tem um recorde triste: 2003 foi ano onde a violência contra os jornalista no mundo inteiro atingiu limites dramáticos, com o assassinato de 42 desses profissionais e 766 presos pelo simples fato de divulgarem notícias que desagradam governantes autoritários. O levantamento foi divulgado mundialmente pela organização francesa ‘’Jornalistas Sem Fronteiras’’, que aponta a África e a Ásia entre os continentes mais perigosos para o exercício da informação. E é no pequenino Zimbabwe, país ao sul daquele continente que ser jornalista é, antes de tudo, ter uma profissão de alto risco porque o governo de Robert Mugabe controla todos os meios de comunicação. Eritréia e Guiné Equatorial, Costa do Marfim e República do Congo, também se encontram no mesmo patamar.
Na Oriente Médio, o Iran continua com sua nefasta liderança. É o país onde se efetua o maior número de prisões de jornalistas. E na Ásia, apenas Índia, Indonésia e Tailândia respeitam esses profissionais, enquanto nas Filipinas sete jornalistas foram assassinados em nome da notícia.
De acordo com o levantamento da organização francesa, Colômbia e Cuba lideram as violências contra a liberdade de informação. Não há registros de assassinatos de jornalistas em Cuba, mas na Colômbia foram mortos cinco profissionais durante o ano de 2003. Todos eles denunciavam casos de corrupção e a cumplicidade dos grupos armados, paramilitares e forças armadas regulares, além dos excessos dos movimentos guerrilheiros de esquerda. Ironicamente, o genial escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez diz que o jornalismo é "o melhor ofício do mundo"
Nos países ricos, são citados a França, onde o Governo quer passar uma lei que ameaça a proteção do sigilo da fonte e os Estados Unidos que tem comportamento ditado pela territorialidade. Dentro do país, a liberdade de informação é total mas, além das fronteiras, qualquer notícia contra os atos governamentais pode ter desfecho sangrento.
O caso exemplar de violência praticada pelos Estados Unidos aconteceu em oito de abril de 2003, quando o exército americano abriu fogo contra o Hotel Bagdad, quartel-general da imprensa que está cobrindo a ocupação do Iraque, na capital iraquiana, matando cinco profissionais. Entre os mortos, Taras Protsyuta, da Agência Reuters e José Conso, da televisão espanhola Telecinco. No hotel não havia nenhum alvo militar.
Os Estados Unidos também exerce rígido controle sobre o trabalho dos jornalistas que escrevem sobre a violação dos Direitos Humanos na base militar de Guantánamo, além de tentar desqualificar o trabalho desses profissionais.
E o Brasil, no relatório dos ''Jornalistas sem Fronteiras'' aparece com três casos de assassinatos: o do fotógrafo Luís Antonio Costa, que foi morto quando fazia cobertura sobre mobilização dos sem-teto em São Paulo; José Araújo, assassinado no interior de Pernambuco, quando denunciava os agentes do narcotráfico e Samuel Roma, também assassinado pelo narcotráfico em Capitão Bado, Mato Groso do Sul, fronteira com o Paraguai.
Além desses assassinatos, os jornalistas brasileiros estão enfrentando, desde o início do governo Lula, uma série de investidas das autoridades contra a divulgação das notícias. A primeira delas foi protagonizada pelo presidente da Câmara, deputado João Paulo (PT/SP) que obrigou o “Jornal da Câmara” a desmentir a notícia sobre o deputado Inocêncio Oliveira (PFL/PE) condenado pela Justiça Trabalhista a indenizar o grupo de empregados que trabalhavam em regime análogo à escravidão em sua propriedade, no Maranhão.
E, já em 2004, novas violações à liberdade de imprensa foram verificadas no Brasil.
A primeira, aconteceu logo depois da denúncia do "caso Waldomiro" feit pelo jornalista Mino Pedrosa. Pedrosa teve seu sigilo fiscal vasculhado a partir de um terminal de computador do Palácio do Planalto e o ministro de Segurança Institucional, general Armando Félix prometeu investigar a autoria do crime (até hoje Mmino Pedrosa espera uma resposta). Logo depois, e ainda sob os efeitos do caso Waldomiro, o secretário de Comunicação da presidência da República, Luis Gushiken, numa conversa com jornalistas criticou o trabalho desenvolvido por esses profissionais, dizendo que eles deviam dar “notícia positiva”. Há uma semana foi a vez do próprio presidente Lula tentar interferir na liberdade de informação. Em dois telefonemas irritados, o Presidente pediu aos ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos e das Comunicações, Eunício Oliveira, que tomassem providências contra o programa “Cidade Alerta’’, exibido pela TV Record pelo jornalista Marcelo Rezende porque o programa, que também é tramsmitido para Moçambique, “mostra uma imagem negativa do país”.
A expressão “imagem negativa do país” foi muito utilizada no Brasil durante o regime ditatorial e já parecia banida do jargão jornalístico.