CRISE DE RACISMO
Memélia Moreira
A sociedade brasileira tem por hábito escamotear sua verdadeira natureza. Entre elas, o racismo latente que aflora nos momentos de tensão. Mas, a sociedade brasileira jamais admitiu carregar esse pecado em suas costas, embora a chacina dos garimpeiros de Rondônia tenha, mais uma vez, provocado esse racismo tão cuidadosamente guardado nas profundezas do nosso inconsciente.
De repente, os Cinta-Larga se tornaram os representantes máximos da selvageria nacional. Como se a sociedade nacional os tivesse recebido com afeto, generosidade ou urbanidade. Nada disso. Os Cinta-Larga, estão apenas devolvendo o que aprenderam ao longo dessa tumultuada relação de índios x não índios. Mesmo antes de serem contatados, eles foram vítimas de um massacre. Quando ainda desconheciam totalmente quem eram aqueles que avançavam impiedosamente sobre suas terras, eles foram mortos numa terrível chacina conhecida pelo nome de “massacre do paralelo 11”, acontecido nos anos 60 e promovido pela empresa Andrade Junqueira. Homens e mulheres, depois de envenenados com arsênico, foram cortados ao meio com facões pelos peões da empresa, a mando de seus patrões. Nenhum dos autores intelectuais dessa chacina foi punido. Sequer chegaram a ir a julgamento.
E agora, mais recentemente, depois da descobreta de jazidas de diamantes em suas terras, os Cinta-Larga têm sido barbarizados pelos garimpeiros. Ao longo dos últimos oito anos, bem mais de 30 índios foram assassinados e mutilados pelos invasores de suas terras. Nenhum jornal ou revista do Brasil se preocupou com essa violência cotidiana. Os jornalistas enviados especiais dos principais órgãos de informação do País apenas relatavam os bens de consumo adquiriodos pelos índios que se entregaram à garimpagem. Ora para ridicularizar, ora para criticar o gosto duvidoso desse povo que, a exemplo dos demais nações indígenas, entrou no espaço social brasileiro pela porta dos fundos, convivendo com a escória do nosso povo.
O assassinato dos garimpeiros no território indígena trouxe de volta o mesmo comportamento hipócrita que em 1992 assolou o Brasil, quando o chefe Kaiapó Paulo Paiakã foi acusado de ter “estuprado’’ sua antiga amante. Ninguém foi buscar a verdade daquela história. E naquele momento vivia-se uma verdadeira guerra contra a homologação da Terra Indígena Yanomami. A história de Paiakã satisfez as exigências dos ferozes inimigos do reconhecimento dos direitos dessas minorias às suas terras. “O Selvagem”, foi assim que a capa da revista “Veja” classificou Paiakã, na semana em que o mundo inteiro estava de olhos voltados para o Brasil que era anfitrião da Eco-92.
No Brasil de 2004 vive-se novamente a tensão provocada pela homologação de uma terra indígena. Desta vez é Raposa/Serra do Sol, em Roraima, e o massacre de Rondônia caiu como uma luva para os inimigos habituais dos povos indígenas. Editoriais e artigos lamentam o triste destino dos garimpeiros e, a revista “Veja” novamente ataca os índios dizendo que eles vivem nas melhores casas de Cacoal e Espigão d´Oeste, como se esse fosse um comportamento criminoso. Os mesmos jornais e jornalistas, paralelamente, criticam as ocupações promovidas pelo Movimento dos Sem Terra e em nenhum momento questionam a razão pela qual tanto cresce o número de garimpeiros no Brasil. Entre outros fatores, eles são lavradores que não conseguiram um pedaço de terra para trabalhar. E saem Brasil afora, sem identidade, deixando seus vínculos e valores familiares em busca da sobrevivência, porque o Brasil é campeão mundial de concentração de terras e riquezas.
A temporada de massacre moral dos povos indígenas está aberta mas, antes que todo o fel racista seja derramado, é bom lembrar que os Cinta-Larga estão apenas devolvendo o quê aprenderam com a nossa sociedade: violência. Em todos os graus.
Memélia Moreira
A sociedade brasileira tem por hábito escamotear sua verdadeira natureza. Entre elas, o racismo latente que aflora nos momentos de tensão. Mas, a sociedade brasileira jamais admitiu carregar esse pecado em suas costas, embora a chacina dos garimpeiros de Rondônia tenha, mais uma vez, provocado esse racismo tão cuidadosamente guardado nas profundezas do nosso inconsciente.
De repente, os Cinta-Larga se tornaram os representantes máximos da selvageria nacional. Como se a sociedade nacional os tivesse recebido com afeto, generosidade ou urbanidade. Nada disso. Os Cinta-Larga, estão apenas devolvendo o que aprenderam ao longo dessa tumultuada relação de índios x não índios. Mesmo antes de serem contatados, eles foram vítimas de um massacre. Quando ainda desconheciam totalmente quem eram aqueles que avançavam impiedosamente sobre suas terras, eles foram mortos numa terrível chacina conhecida pelo nome de “massacre do paralelo 11”, acontecido nos anos 60 e promovido pela empresa Andrade Junqueira. Homens e mulheres, depois de envenenados com arsênico, foram cortados ao meio com facões pelos peões da empresa, a mando de seus patrões. Nenhum dos autores intelectuais dessa chacina foi punido. Sequer chegaram a ir a julgamento.
E agora, mais recentemente, depois da descobreta de jazidas de diamantes em suas terras, os Cinta-Larga têm sido barbarizados pelos garimpeiros. Ao longo dos últimos oito anos, bem mais de 30 índios foram assassinados e mutilados pelos invasores de suas terras. Nenhum jornal ou revista do Brasil se preocupou com essa violência cotidiana. Os jornalistas enviados especiais dos principais órgãos de informação do País apenas relatavam os bens de consumo adquiriodos pelos índios que se entregaram à garimpagem. Ora para ridicularizar, ora para criticar o gosto duvidoso desse povo que, a exemplo dos demais nações indígenas, entrou no espaço social brasileiro pela porta dos fundos, convivendo com a escória do nosso povo.
O assassinato dos garimpeiros no território indígena trouxe de volta o mesmo comportamento hipócrita que em 1992 assolou o Brasil, quando o chefe Kaiapó Paulo Paiakã foi acusado de ter “estuprado’’ sua antiga amante. Ninguém foi buscar a verdade daquela história. E naquele momento vivia-se uma verdadeira guerra contra a homologação da Terra Indígena Yanomami. A história de Paiakã satisfez as exigências dos ferozes inimigos do reconhecimento dos direitos dessas minorias às suas terras. “O Selvagem”, foi assim que a capa da revista “Veja” classificou Paiakã, na semana em que o mundo inteiro estava de olhos voltados para o Brasil que era anfitrião da Eco-92.
No Brasil de 2004 vive-se novamente a tensão provocada pela homologação de uma terra indígena. Desta vez é Raposa/Serra do Sol, em Roraima, e o massacre de Rondônia caiu como uma luva para os inimigos habituais dos povos indígenas. Editoriais e artigos lamentam o triste destino dos garimpeiros e, a revista “Veja” novamente ataca os índios dizendo que eles vivem nas melhores casas de Cacoal e Espigão d´Oeste, como se esse fosse um comportamento criminoso. Os mesmos jornais e jornalistas, paralelamente, criticam as ocupações promovidas pelo Movimento dos Sem Terra e em nenhum momento questionam a razão pela qual tanto cresce o número de garimpeiros no Brasil. Entre outros fatores, eles são lavradores que não conseguiram um pedaço de terra para trabalhar. E saem Brasil afora, sem identidade, deixando seus vínculos e valores familiares em busca da sobrevivência, porque o Brasil é campeão mundial de concentração de terras e riquezas.
A temporada de massacre moral dos povos indígenas está aberta mas, antes que todo o fel racista seja derramado, é bom lembrar que os Cinta-Larga estão apenas devolvendo o quê aprenderam com a nossa sociedade: violência. Em todos os graus.