NAS ENTRELINHAS                                 


RESISTÊNCIA INDÍGENA

de Memélia Moreira

Thursday, June 10, 2004

SOBERANIA E CORRUPÇÃO

Memélia Moreira

Há pouco mais de um mês, a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), rompeu o contrato de trabalho com a ONG Urihi, que desde 1999 vinha prestando real assistência ao povo Yanomami, em Roraima. Na época, um desses burocratas, que decora meia dúzia de chavões chegou a alegar que o rompimento do contrato era uma questão de "soberania nacional" (deve ter estufado o peito com ardor varonil e pronunciado a palavra "soberania" com a voz embargada).
Quem, em sã consciência, pode manifestar qualquer repúdio diante desse argumento? E à Urihi, que há cinco anos vem evitando epidemias e deslocamentos dos índios para se tratar nos infectos hospitais de Boa Vista, de onde saiam mais doentes depois de um período de internação, foi entregue apenas o trabalho administrativo, de contratação de pessoal. Nada de atuar diretamente com sue médicos, antropólogos e medicamentos. Algumas notícias sobre essa decisão do Governo foram veiculadas nos jornais e revistas. Poucos entenderam o quê motivou a funsa a tomar tal decisão.
Poucos entenderam até vir a público os escândalos da "Operação Vampiro". Aí ficou tudo muito claro. A Urihi é uma das poucas organizações não governamentais que está fora dos escândalos. Mas foi exatamente a urihi a atingida pelo "furor patriótico" da defesa da soberania. Nada foi feito, por exemplo contra a ONG Pró-Vida.
E a Pró-Vida é uma das envolvidas nesse mais recente escândalo de corrupção que atinge o Governo do partido dos Trabalhadores. Não é exagero dizer que o escândalo atinge o atual Governo. Por uma razão simples. O ex-diretor da Funasa, Reginaldo Muniz Barreto, que deixou o cargo quando o escândalo foi descoberto, foi secretário de Finanças sa prefeitura de Recife, que é dirigida pelo PT. Ele foi indicado para o cargo pelo secretário de Finanças do Partido dos Trabalhadores, Delúbio Soares.
Foi de Barreto a orientação para romper o convênio com determinadas ONG´s. Não todas, obviamente. Aquelas que vinham praticando a negociata não foram molestadas pela defesa da "soberania".
Constituída por pessoas íntegras que, de fato, trabalham para evitar que os Yanomami desapareçam vítimas do descaso e da omissão, a Urihi foi castigada. As outras? Vão bem, obrigada. Apenas em polvorosa porque seus nomes já estão nas páginas dos jornais.
Quanto à Pró-Vida, há mais de dois anos, os Guajajara, Krikati, Urubu-Káapor e outros povos indígenas do Maranhão vêm denunciando as práticas pouco ortodoxas de trabalho dessa empresa de captação de recursos travestida de organização não governamental. Os índios a chamam de Pró-Morte. Sua principal especialidade era desviar recursos de atendimento da saúde indígena para os bolsos de Vera Lúcia de Araújo Costa, servidora do programa de combate à tuberculose da Funasa (daí estar explicado o fenômeno de crescimento dessa doença), seu marido, Roberto Lima Costa, funcionário da Fundação Nacional do Índio (Funai) e, sua irmã, Tania Maria Nunes de Alencar, presidente da Pró-Vida e também servidora da Funai. A nenhum deles foi usado o arguemnto de defesa da soberania para romper o contrato que mantèm (ainda) com a Funasa.
A Operação Vampiro já está em curso e, pelo menos uma conclusão já é possível: agentes do governo se escudam no manto da soberania para encobrir suas transações criminosas. Essa palavra na boca desses agentes chega a soar como sacrilégio e, num país onde se morre de pneumonia por falta de mediucamentos, nem 120 anos de cadeia para esses corruptos é suficiente para que paguem seus crimes.
Quanto à Urihi, é de se esperar que, desinfetada a Funasa, esta instituição possa reassumir suas atividades que já salvaram tantas vidas.