NAS ENTRELINHAS                                 


CARTA ABERTA

de Memélia Moreira

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2004

“E agora José?”
A festa – ou o espetáculo- ainda nem começou, o distinto público já começa a bater os pés pedindo o ingresso de volta e tudo o que é apresentado à platéia é um pífio caso de propina, onde o réu confesso, principal assessor do homem forte do Governo embolsa 1% (isso mesmo, um por cento, ou seja, três mil reais do valor combinado)? É pouco.
É pouco por vários motivos. Primeiro porque é difícil acreditar que há no Palácio do Planalto um núcleo obscuro tramando formas diferentes de extorsão e corrupção. Mas, é também difícil acreditar que Waldomiro Diniz seja um caso isolado. Esta não é a primeira vez que a palavra propina vem associada ao nome do chefe do Gabinete Civil da presidência da República. No caso do assassinato de Celso Daniel, morto quando exercia o mandato de prefeito de Santo André (SP), volta e meia, a palavra insiste em aparecer. Empresários do setor de transporte acusam assessores do prefeito morto de exigirem propina. A mesma acusação foi feita por um dos irmãos do prefeito que volta e meia declara que o dinheiro da propina, que financiaria campanhas do PT era entregue a José Dirceu, o principal estrategista da vitória do candidato Luis Inácio Lula da Silva para presidente da República.
É também difícil acreditar, porque há vários fatos, nunca esclarecidos de forma transparente, que antecederam as eleições e que agora podem fazer sentido, quando se fica sabendo que a coleta de dinheiro para a campanha do PT obedece conhecidos métodos que aproximam a política do gangsterismo puro e simples, prática usual em outros partidos que, entretanto, jamais pretenderam ser reserva da moralidade pública.
Um desses casos pouco explicados foi o famoso assalto à sede da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em janeiro de 2002, ano das eleições presidenciais. Vale perguntar: foi um assalto mesmo ou apenas queima de arquivos comprometedores? O assalto aconteceu dias depois do assassinato de Celso Daniel. Paranóia? Talvez. Mas esses fatos guardam, pelo menos, uma relação entre si. Em todos eles, o comportamento das vítimas (e todas ligadas de uma forma ou outra ao PT) foi de quase resignação religiosa. No caso da CUT, chegaram a encenar um protesto em pleno Forum Social Mundial em Porto Alegre, chamando atenção dos estrangeiros que participavam do encontro. Depois, nunca mais se ouviu nenhum dirigente desta central faz qualquer comentário nem sobre o resultado, sequer sobre a investigação. E a CUT não fez segredo a ninguém de seu apoio nas eleições de 2002. Muito pelo contrário. Uma das resoluções do encontro nacional da entidade, naquele ano, foi apoio à candidatura de Lula.
Afinal, quem assaltou a CUT e por que?
E não adianta o presidente do PT, José Genoíno, querer desviar a atenção do distinto público jogando a responsabilidade da gravação do vídeo da propina em cima do presidente do PSDB, José Serra, que foi derrotado por Lula em 2002. Não interessa se foi o esquema Serra de espionagem quem produziu o vídeo. O que interesa é saber com quantos waldomiros o PT faz uma campanha? E, se José Serra tinha esse vídeo em 2002, época dos acontecimentos é, no mínimo uma pessoa ética. Não quis manchar a imagem de candura que o partido de seu principal adversário ostentava e que ainda tenta sustentar. Ou burro. Sabendo-se que a campanha não primou pela ética e que o presidente do PSDB é um homem inteligente e acadêmico respeitado, seria melhor que Genoíno começasse a olhar seus arredores para saber quem mais em seu partido ou dentro da estrutrura de governo do seu partido pode virar escândalo.
E não é difícil perceber quando há dinheiro sujo circulando. No caso do PT, por exemplo, é muito fácil. Basta observar se determinado sindicalista, assalariado do serviço público ou de empresa privada, que até outro dia andava de carro usado e velho está, de repente, trocando de carro todo ano, comprando propriedades, vinhos de mais de três mil dólares a garrafa, exibindo Armanis bem cortados e outros sinais de novorriquismo, praga que assola deslumbrados, de direita ou de esquerda. E não vale espalhar notícia que essa pessoa “ganhou na loteria”. O argumento não é original. Já foi usado por um dos anões do Orçamento. Também não vale dizer que foi “herança” de família. É difícil acreditar nessa história de herança, de um momento para outro, exatamente quando essas pessoas passam a ter notoriedade política ou cargo importante.
Genoíno já andou falando demais. No caso do assassinato do prefeito de Santo André, tentou desqualificar o trabalho dos procuradores que apontam o empresário e ex-guarda-costas de Celso Daniel, Sérgio Gomes da Silva, como autor intelectual do seqüestro que culminou com o asssassinato do prefeito. No caso do governador de Roraima, Flamarion Portela, envolvido no escândalo dos gafanhotos, tentou dizer que o governador era vítima e que suas explicações ao partido foram suficientes para acreditar em sua inocência. Nos dois casos, o presidente do PT teve que sair de fininho para não dar mais vexames. E agora, é melhor parar até que a investigação chegue ao fim.
Também não adianta o Governo e o Partido dos Trabalhadores gastarem energia para isolar José Dirceu numa redoma de intocabilidade. Governadores, senadores, deputados, ministros, jornalistas, lobistas, todos que estão no poder ou apenas gravitam em torno do poder sabem que Waldomiro Diniz tinha carta branca de José Dirceu para negociar assuntos políticos de interesse do Governo dentro e fora do Congresso.
A posição de José Dirceu é a mais difícil em todo esse episódio. Waldomiro já está dmitido, descartado da vida pública. Só resta saber se ele vai ao altar de sacrifícios sozinho, respeitando a omertà, ou se levanta o véu dessa caixa preta que são os financiamentos de campanha. Mas, José Dirceu ainda tem um longo caminho pela frente. Por questões éticas – essa palavra que no passado foi supervalorizada pelo PT e agora banida pelo partido depois que chegou ao Governo – o ministro chefe do Gabinete Civil da presidência da República deveria se afastar do Governo durante o tempo das investigações. Já temos exemplo disso, o ex-presidente Itamar Franco afastou o chefe do Gabinete Civil da presidência, Henrique Hargreaves, quando surgiram indícios do envolvimento de Hargreaves no escândalo do Orçamento. Encerrado o processo sem provas contra Hargreaves, este voltou. Com mais força, até. M
Mas José Dirceu não pode assumir esse risco. Seu afastamento, mesmo temporário, faria o Governo desmoronar. Quer se queira, ou não, Lula não governa. Apenas viaja, reúne amigos e colaboradores para jantar, produz frases cada vez mais sem efeito, assina demissões ou nomeações que lhes são indicadas e nada mais. Quem governa é José Dirceu. Ou, pelo menos, faz com que se acredite nisso.
O negócio agora é torcer para que a investigação chegue à verdade.
Saudações
Memélia Moreira, editora.