NAS ENTRELINHAS                                 


CARTA ABERTA

de Memélia Moreira

Terça-feira, Novembro 25, 2003

Nenhures, 25 de novembro de 2003

Tomo emprestada do deputado Luis Eduardo Greenhalgh, do Partido dos Trabalhadores de São Paulo, uma de suas frases costumeiras para definir o encontro da ALCA em Miami: “De derrota em derrota até à vitória final”. Para os pessimistas, a reunião foi uma derrota porque o Brasil, que vem representando uma esperança de resistência para todos os movimentos sociais do Alaska à Patagônia, mudou o tom de discurso. Para os otimistas, Miami, com todo o aparato militar para conter os manifestantes, foi mais um passo para um acordo que preserve soberanias mínimas. Frustrou as expectativas do todo poderoso secretário norte-americano Robert Zoellick, (seu cargo corresponde ao de ministro de Relações Exteriores) que pretendia fechar os principais pontos da ALCA ainda este ano. Contentou-se em anunciar acordos bilaterais.
Mesmo nocauteado pela iniciativa norte-americana de firmar estes acordos bilaterais com Peru, Colômbia, Equador e Bolívia, além de alguns países da América Central, o embaixador brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim – que não contou sequer com qualquer respaldo dos empresários brasileiros presentes no fórum de Miami –conseguiu reagir às investidas de Zoellick. No final do encontro, que foi encerrado antecipadamente, Zoellick não escondia sua frustração porque não se fechou nenhum ponto polêmico.
Roberto Zoellick quer que a Área de Livre Comércio das Américas já comece a funcionar em janeiro de 2005 mas, nem o Chile, que concorda com quase todos os pontos apresentados pelos Estados Unidos, acredita nessa data. Até lá, os EUA vai passar por uma eleição presidencial que pode tirar Bush da Casa Branca, atrasando assim o calendário pretendido pelo representante de Washington.
Amorim enfrentou também iras mal-disfarçadas de empresários brasileiros e americanos. O presidente da National Association of Manufactures, versão americana da Confederação Nacional de Indústria do Brasil, Frank Vargo, deixou clara sua insatisfação dizendo, no final do encontro que “o Brasil é o navio lento do comboio, mas os outros têm pressa, por isso nós vamos continuar a pressionar”. Num tom menos duro, Osvaldo Douat, da Coalizão Empresarial Brasileira, que participou do forum empresarial, realizado no mesmo hotel em que estavam reunidos ministros do continente, referiu-se à estrutura flexível proposta pelo governo brasileiro como “complexa”. Com cuidado para não entrar em choque aberto com o governo ele disse que “ambientes com regras múltiplas e superpostas geram incerteza, insegurança e dificuldades para participação de empresas de menor porte’’.
Apesar das choradeiras, o Brasil pode garantir algumas vitórias na reunião de Miami. A principal delas foi no mais delicado de todos os pontos do acordo da ALCA: proteção à propriedade intelectual. O ministro brasileiro conseguiu adiar essa discussão e jogá-la para um debate dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde os Estados Unidos não é hegemônico e tem que disputar espaço com os países industrializados da Europa.
A proteção da propriedade intelectual, é um dos pontos mais sensíveis da ALCA porque, à exceção dos Estados Unidos e Canadá, e muitos pontos abaixos, o Brasil, os demais países da América não têm a menor condição de concorrer com os gigantes. São países com indústrias incipientes e só entram nesse mercado com matérias-primas, sobre as quais não há qualquer proteção dada à inexistência de uma política de valor agregado à matéria-prima. E mesmo com as matérias-primas esses-países já entram em desvantagem porque os produtos agrícolas americanos são altamente subsidiados e um agricultor do Equador, por exemplo, não tem qualquer subsídio e o chuchu que vai vender para o mercado americano (o Equador exporta chuchu para os Estados Unidos) será mais caro do que o produzido nos EUA.
O debate sobre valor agregado à matéria-prima sequer está sendo cogitado dentro da ALCA. E essa é uma reivindicação dos movimentos sociais que participaram dos protestos em Miami, entre eles a Organização Latino-Americana de Trabalhadores do Campo. Eles chamam atenção desse capítulo dizendo: “Não temos valor agregado à areia, mas com areia se faz vidro e vamos comprar uma garrafa, feita com nossa matéria-prima mas protegida pela propriedade intelectual e, assim, voltamos ao estado colonial”, disse Manuel Angel Cruz, mexicano que pode informar aos demais latino-americanos sobre as tristes conseqüências da NAFTA, a área comercial que integra Estados Unidos, México e Canadá.
O próximo round para fechar o acordo da ALCA vai acontecer no México, na pequena e bela Puebla de Los Angeles, cidade que foi visitada pelo Papa João Paulo II em sua primeira viagem internacional. No mes de fevereiro faz frio em Puebla, mas os movimentos sociais, sindicais e políticos da América Latina e Estados Unidos já estão se organizando para pressionar o governo americano a refazer a proposta da ALCA e torná-la menos injusta.

Memélia Moreira, editora



CAB221103

Nenhures, 25 de novembro de 2003

Tomo emprestada do deputado Luis Eduardo Greenhalgh, do Partido dos Trabalhadores de São Paulo, uma de suas frases costumeiras para definir o encontro da ALCA em Miami: “De derrota em derrota até à vitória final”. Para os pessimistas, a reunião foi uma derrota porque o Brasil, que vem representando uma esperança de resistência para todos os movimentos sociais do Alaska à Patagônia, mudou o tom de discurso. Para os otimistas, Miami, com todo o aparato militar para conter os manifestantes, foi mais um passo para um acordo que preserve soberanias mínimas. Frustrou as expectativas do todo poderoso secretário norte-americano Robert Zoellick, (seu cargo corresponde ao de ministro de Relações Exteriores) que pretendia fechar os principais pontos da ALCA ainda este ano. Contentou-se em anunciar acordos bilaterais.
Mesmo nocauteado pela iniciativa norte-americana de firmar estes acordos bilaterais com Peru, Colômbia, Equador e Bolívia, além de alguns países da América Central, o embaixador brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim – que não contou sequer com qualquer respaldo dos empresários brasileiros presentes no fórum de Miami –conseguiu reagir às investidas de Zoellick. No final do encontro, que foi encerrado antecipadamente, Zoellick não escondia sua frustração porque não se fechou nenhum ponto polêmico.
Roberto Zoellick quer que a Área de Livre Comércio das Américas já comece a funcionar em janeiro de 2005 mas, nem o Chile, que concorda com quase todos os pontos apresentados pelos Estados Unidos, acredita nessa data. Até lá, os EUA vai passar por uma eleição presidencial que pode tirar Bush da Casa Branca, atrasando assim o calendário pretendido pelo representante de Washington.
Amorim enfrentou também iras mal-disfarçadas de empresários brasileiros e americanos. O presidente da National Association of Manufactures, versão americana da Confederação Nacional de Indústria do Brasil, Frank Vargo, deixou clara sua insatisfação dizendo, no final do encontro que “o Brasil é o navio lento do comboio, mas os outros têm pressa, por isso nós vamos continuar a pressionar”. Num tom menos duro, Osvaldo Douat, da Coalizão Empresarial Brasileira, que participou do forum empresarial, realizado no mesmo hotel em que estavam reunidos ministros do continente, referiu-se à estrutura flexível proposta pelo governo brasileiro como “complexa”. Com cuidado para não entrar em choque aberto com o governo ele disse que “ambientes com regras múltiplas e superpostas geram incerteza, insegurança e dificuldades para participação de empresas de menor porte’’.
Apesar das choradeiras, o Brasil pode garantir algumas vitórias na reunião de Miami. A principal delas foi no mais delicado de todos os pontos do acordo da ALCA: proteção à propriedade intelectual. O ministro brasileiro conseguiu adiar essa discussão e jogá-la para um debate dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde os Estados Unidos não é hegemônico e tem que disputar espaço com os países industrializados da Europa.
A proteção da propriedade intelectual, é um dos pontos mais sensíveis da ALCA porque, à exceção dos Estados Unidos e Canadá, e muitos pontos abaixos, o Brasil, os demais países da América não têm a menor condição de concorrer com os gigantes. São países com indústrias incipientes e só entram nesse mercado com matérias-primas, sobre as quais não há qualquer proteção dada à inexistência de uma política de valor agregado à matéria-prima. E mesmo com as matérias-primas esses-países já entram em desvantagem porque os produtos agrícolas americanos são altamente subsidiados e um agricultor do Equador, por exemplo, não tem qualquer subsídio e o chuchu que vai vender para o mercado americano (o Equador exporta chuchu para os Estados Unidos) será mais caro do que o produzido nos EUA.
O debate sobre valor agregado à matéria-prima sequer está sendo cogitado dentro da ALCA. E essa é uma reivindicação dos movimentos sociais que participaram dos protestos em Miami, entre eles a Organização Latino-Americana de Trabalhadores do Campo. Eles chamam atenção desse capítulo dizendo: “Não temos valor agregado à areia, mas com areia se faz vidro e vamos comprar uma garrafa, feita com nossa matéria-prima mas protegida pela propriedade intelectual e, assim, voltamos ao estado colonial”, disse Manuel Angel Cruz, mexicano que pode informar aos demais latino-americanos sobre as tristes conseqüências da NAFTA, a área comercial que integra Estados Unidos, México e Canadá.
O próximo round para fechar o acordo da ALCA vai acontecer no México, na pequena e bela Puebla de Los Angeles, cidade que foi visitada pelo Papa João Paulo II em sua primeira viagem internacional. No mes de fevereiro faz frio em Puebla, mas os movimentos sociais, sindicais e políticos da América Latina e Estados Unidos já estão se organizando para pressionar o governo americano a refazer a proposta da ALCA e torná-la menos injusta.

Memélia Moreira, editora



CAB221103

Nenhures, 25 de novembro de 2003

Tomo emprestada do deputado Luis Eduardo Greenhalgh, do Partido dos Trabalhadores de São Paulo, uma de suas frases costumeiras para definir o encontro da ALCA em Miami: “De derrota em derrota até à vitória final”. Para os pessimistas, a reunião foi uma derrota porque o Brasil, que vem representando uma esperança de resistência para todos os movimentos sociais do Alaska à Patagônia, mudou o tom de discurso. Para os otimistas, Miami, com todo o aparato militar para conter os manifestantes, foi mais um passo para um acordo que preserve soberanias mínimas. Frustrou as expectativas do todo poderoso secretário norte-americano Robert Zoellick, (seu cargo corresponde ao de ministro de Relações Exteriores) que pretendia fechar os principais pontos da ALCA ainda este ano. Contentou-se em anunciar acordos bilaterais.
Mesmo nocauteado pela iniciativa norte-americana de firmar estes acordos bilaterais com Peru, Colômbia, Equador e Bolívia, além de alguns países da América Central, o embaixador brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim – que não contou sequer com qualquer respaldo dos empresários brasileiros presentes no fórum de Miami –conseguiu reagir às investidas de Zoellick. No final do encontro, que foi encerrado antecipadamente, Zoellick não escondia sua frustração porque não se fechou nenhum ponto polêmico.
Roberto Zoellick quer que a Área de Livre Comércio das Américas já comece a funcionar em janeiro de 2005 mas, nem o Chile, que concorda com quase todos os pontos apresentados pelos Estados Unidos, acredita nessa data. Até lá, os EUA vai passar por uma eleição presidencial que pode tirar Bush da Casa Branca, atrasando assim o calendário pretendido pelo representante de Washington.
Amorim enfrentou também iras mal-disfarçadas de empresários brasileiros e americanos. O presidente da National Association of Manufactures, versão americana da Confederação Nacional de Indústria do Brasil, Frank Vargo, deixou clara sua insatisfação dizendo, no final do encontro que “o Brasil é o navio lento do comboio, mas os outros têm pressa, por isso nós vamos continuar a pressionar”. Num tom menos duro, Osvaldo Douat, da Coalizão Empresarial Brasileira, que participou do forum empresarial, realizado no mesmo hotel em que estavam reunidos ministros do continente, referiu-se à estrutura flexível proposta pelo governo brasileiro como “complexa”. Com cuidado para não entrar em choque aberto com o governo ele disse que “ambientes com regras múltiplas e superpostas geram incerteza, insegurança e dificuldades para participação de empresas de menor porte’’.
Apesar das choradeiras, o Brasil pode garantir algumas vitórias na reunião de Miami. A principal delas foi no mais delicado de todos os pontos do acordo da ALCA: proteção à propriedade intelectual. O ministro brasileiro conseguiu adiar essa discussão e jogá-la para um debate dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde os Estados Unidos não é hegemônico e tem que disputar espaço com os países industrializados da Europa.
A proteção da propriedade intelectual, é um dos pontos mais sensíveis da ALCA porque, à exceção dos Estados Unidos e Canadá, e muitos pontos abaixos, o Brasil, os demais países da América não têm a menor condição de concorrer com os gigantes. São países com indústrias incipientes e só entram nesse mercado com matérias-primas, sobre as quais não há qualquer proteção dada à inexistência de uma política de valor agregado à matéria-prima. E mesmo com as matérias-primas esses-países já entram em desvantagem porque os produtos agrícolas americanos são altamente subsidiados e um agricultor do Equador, por exemplo, não tem qualquer subsídio e o chuchu que vai vender para o mercado americano (o Equador exporta chuchu para os Estados Unidos) será mais caro do que o produzido nos EUA.
O debate sobre valor agregado à matéria-prima sequer está sendo cogitado dentro da ALCA. E essa é uma reivindicação dos movimentos sociais que participaram dos protestos em Miami, entre eles a Organização Latino-Americana de Trabalhadores do Campo. Eles chamam atenção desse capítulo dizendo: “Não temos valor agregado à areia, mas com areia se faz vidro e vamos comprar uma garrafa, feita com nossa matéria-prima mas protegida pela propriedade intelectual e, assim, voltamos ao estado colonial”, disse Manuel Angel Cruz, mexicano que pode informar aos demais latino-americanos sobre as tristes conseqüências da NAFTA, a área comercial que integra Estados Unidos, México e Canadá.
O próximo round para fechar o acordo da ALCA vai acontecer no México, na pequena e bela Puebla de Los Angeles, cidade que foi visitada pelo Papa João Paulo II em sua primeira viagem internacional. No mes de fevereiro faz frio em Puebla, mas os movimentos sociais, sindicais e políticos da América Latina e Estados Unidos já estão se organizando para pressionar o governo americano a refazer a proposta da ALCA e torná-la menos injusta.

Memélia Moreira, editora



CAB221103

Nenhures, 25 de novembro de 2003

Tomo emprestada do deputado Luis Eduardo Greenhalgh, do Partido dos Trabalhadores de São Paulo, uma de suas frases costumeiras para definir o encontro da ALCA em Miami: “De derrota em derrota até à vitória final”. Para os pessimistas, a reunião foi uma derrota porque o Brasil, que vem representando uma esperança de resistência para todos os movimentos sociais do Alaska à Patagônia, mudou o tom de discurso. Para os otimistas, Miami, com todo o aparato militar para conter os manifestantes, foi mais um passo para um acordo que preserve soberanias mínimas. Frustrou as expectativas do todo poderoso secretário norte-americano Robert Zoellick, (seu cargo corresponde ao de ministro de Relações Exteriores) que pretendia fechar os principais pontos da ALCA ainda este ano. Contentou-se em anunciar acordos bilaterais.
Mesmo nocauteado pela iniciativa norte-americana de firmar estes acordos bilaterais com Peru, Colômbia, Equador e Bolívia, além de alguns países da América Central, o embaixador brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim – que não contou sequer com qualquer respaldo dos empresários brasileiros presentes no fórum de Miami –conseguiu reagir às investidas de Zoellick. No final do encontro, que foi encerrado antecipadamente, Zoellick não escondia sua frustração porque não se fechou nenhum ponto polêmico.
Roberto Zoellick quer que a Área de Livre Comércio das Américas já comece a funcionar em janeiro de 2005 mas, nem o Chile, que concorda com quase todos os pontos apresentados pelos Estados Unidos, acredita nessa data. Até lá, os EUA vai passar por uma eleição presidencial que pode tirar Bush da Casa Branca, atrasando assim o calendário pretendido pelo representante de Washington.
Amorim enfrentou também iras mal-disfarçadas de empresários brasileiros e americanos. O presidente da National Association of Manufactures, versão americana da Confederação Nacional de Indústria do Brasil, Frank Vargo, deixou clara sua insatisfação dizendo, no final do encontro que “o Brasil é o navio lento do comboio, mas os outros têm pressa, por isso nós vamos continuar a pressionar”. Num tom menos duro, Osvaldo Douat, da Coalizão Empresarial Brasileira, que participou do forum empresarial, realizado no mesmo hotel em que estavam reunidos ministros do continente, referiu-se à estrutura flexível proposta pelo governo brasileiro como “complexa”. Com cuidado para não entrar em choque aberto com o governo ele disse que “ambientes com regras múltiplas e superpostas geram incerteza, insegurança e dificuldades para participação de empresas de menor porte’’.
Apesar das choradeiras, o Brasil pode garantir algumas vitórias na reunião de Miami. A principal delas foi no mais delicado de todos os pontos do acordo da ALCA: proteção à propriedade intelectual. O ministro brasileiro conseguiu adiar essa discussão e jogá-la para um debate dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde os Estados Unidos não é hegemônico e tem que disputar espaço com os países industrializados da Europa.
A proteção da propriedade intelectual, é um dos pontos mais sensíveis da ALCA porque, à exceção dos Estados Unidos e Canadá, e muitos pontos abaixos, o Brasil, os demais países da América não têm a menor condição de concorrer com os gigantes. São países com indústrias incipientes e só entram nesse mercado com matérias-primas, sobre as quais não há qualquer proteção dada à inexistência de uma política de valor agregado à matéria-prima. E mesmo com as matérias-primas esses-países já entram em desvantagem porque os produtos agrícolas americanos são altamente subsidiados e um agricultor do Equador, por exemplo, não tem qualquer subsídio e o chuchu que vai vender para o mercado americano (o Equador exporta chuchu para os Estados Unidos) será mais caro do que o produzido nos EUA.
O debate sobre valor agregado à matéria-prima sequer está sendo cogitado dentro da ALCA. E essa é uma reivindicação dos movimentos sociais que participaram dos protestos em Miami, entre eles a Organização Latino-Americana de Trabalhadores do Campo. Eles chamam atenção desse capítulo dizendo: “Não temos valor agregado à areia, mas com areia se faz vidro e vamos comprar uma garrafa, feita com nossa matéria-prima mas protegida pela propriedade intelectual e, assim, voltamos ao estado colonial”, disse Manuel Angel Cruz, mexicano que pode informar aos demais latino-americanos sobre as tristes conseqüências da NAFTA, a área comercial que integra Estados Unidos, México e Canadá.
O próximo round para fechar o acordo da ALCA vai acontecer no México, na pequena e bela Puebla de Los Angeles, cidade que foi visitada pelo Papa João Paulo II em sua primeira viagem internacional. No mes de fevereiro faz frio em Puebla, mas os movimentos sociais, sindicais e políticos da América Latina e Estados Unidos já estão se organizando para pressionar o governo americano a refazer a proposta da ALCA e torná-la menos injusta.

Memélia Moreira, editora



Nenhures, 25 de novembro de 2003

Tomo emprestada do deputado Luis Eduardo Greenhalgh, do Partido dos Trabalhadores de São Paulo, uma de suas frases costumeiras para definir o encontro da ALCA em Miami: “De derrota em derrota até à vitória final”. Para os pessimistas, a reunião foi uma derrota porque o Brasil, que vem representando uma esperança de resistência para todos os movimentos sociais do Alaska à Patagônia, mudou o tom de discurso. Para os otimistas, Miami, com todo o aparato militar para conter os manifestantes, foi mais um passo para um acordo que preserve soberanias mínimas. Frustrou as expectativas do todo poderoso secretário norte-americano Robert Zoellick, (seu cargo corresponde ao de ministro de Relações Exteriores) que pretendia fechar os principais pontos da ALCA ainda este ano. Contentou-se em anunciar acordos bilaterais.
Mesmo nocauteado pela iniciativa norte-americana de firmar estes acordos bilaterais com Peru, Colômbia, Equador e Bolívia, além de alguns países da América Central, o embaixador brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim – que não contou sequer com qualquer respaldo dos empresários brasileiros presentes no fórum de Miami –conseguiu reagir às investidas de Zoellick. No final do encontro, que foi encerrado antecipadamente, Zoellick não escondia sua frustração porque não se fechou nenhum ponto polêmico.
Roberto Zoellick quer que a Área de Livre Comércio das Américas já comece a funcionar em janeiro de 2005 mas, nem o Chile, que concorda com quase todos os pontos apresentados pelos Estados Unidos, acredita nessa data. Até lá, os EUA vai passar por uma eleição presidencial que pode tirar Bush da Casa Branca, atrasando assim o calendário pretendido pelo representante de Washington.
Amorim enfrentou também iras mal-disfarçadas de empresários brasileiros e americanos. O presidente da National Association of Manufactures, versão americana da Confederação Nacional de Indústria do Brasil, Frank Vargo, deixou clara sua insatisfação dizendo, no final do encontro que “o Brasil é o navio lento do comboio, mas os outros têm pressa, por isso nós vamos continuar a pressionar”. Num tom menos duro, Osvaldo Douat, da Coalizão Empresarial Brasileira, que participou do forum empresarial, realizado no mesmo hotel em que estavam reunidos ministros do continente, referiu-se à estrutura flexível proposta pelo governo brasileiro como “complexa”. Com cuidado para não entrar em choque aberto com o governo ele disse que “ambientes com regras múltiplas e superpostas geram incerteza, insegurança e dificuldades para participação de empresas de menor porte’’.
Apesar das choradeiras, o Brasil pode garantir algumas vitórias na reunião de Miami. A principal delas foi no mais delicado de todos os pontos do acordo da ALCA: proteção à propriedade intelectual. O ministro brasileiro conseguiu adiar essa discussão e jogá-la para um debate dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde os Estados Unidos não é hegemônico e tem que disputar espaço com os países industrializados da Europa.
A proteção da propriedade intelectual, é um dos pontos mais sensíveis da ALCA porque, à exceção dos Estados Unidos e Canadá, e muitos pontos abaixos, o Brasil, os demais países da América não têm a menor condição de concorrer com os gigantes. São países com indústrias incipientes e só entram nesse mercado com matérias-primas, sobre as quais não há qualquer proteção dada à inexistência de uma política de valor agregado à matéria-prima. E mesmo com as matérias-primas esses-países já entram em desvantagem porque os produtos agrícolas americanos são altamente subsidiados e um agricultor do Equador, por exemplo, não tem qualquer subsídio e o chuchu que vai vender para o mercado americano (o Equador exporta chuchu para os Estados Unidos) será mais caro do que o produzido nos EUA.
O debate sobre valor agregado à matéria-prima sequer está sendo cogitado dentro da ALCA. E essa é uma reivindicação dos movimentos sociais que participaram dos protestos em Miami, entre eles a Organização Latino-Americana de Trabalhadores do Campo. Eles chamam atenção desse capítulo dizendo: “Não temos valor agregado à areia, mas com areia se faz vidro e vamos comprar uma garrafa, feita com nossa matéria-prima mas protegida pela propriedade intelectual e, assim, voltamos ao estado colonial”, disse Manuel Angel Cruz, mexicano que pode informar aos demais latino-americanos sobre as tristes conseqüências da NAFTA, a área comercial que integra Estados Unidos, México e Canadá.
O próximo round para fechar o acordo da ALCA vai acontecer no México, na pequena e bela Puebla de Los Angeles, cidade que foi visitada pelo Papa João Paulo II em sua primeira viagem internacional. No mes de fevereiro faz frio em Puebla, mas os movimentos sociais, sindicais e políticos da América Latina e Estados Unidos já estão se organizando para pressionar o governo americano a refazer a proposta da ALCA e torná-la menos injusta.

Memélia Moreira, editora



Domingo, Novembro 16, 2003

Nenhures, 17 de novembro de 2003

Era setembro de 1971, tempo em que se andava olhando para baixo, por vergonha e medo. Na redação da TV Globo em Brasília, Valdemar Pacheco, um desses jornalistas que também são mestres, esticava os braços para cima, espreguiçando-se, quando o editor, Waldimir Diniz, que além disso era poeta, subiu as escadas acanhadas da redação no Venâncio III ou IV do Setor de Diversões Sul da capital do Brasil. “Lamarca morrreu, Lamarca morreu’’, gritava o editor esbaforido com um pedaço de papel de telex na mão, anunciando a morte do capitão do Exército e guerrilheiro Carlos Lamarca, no interior da Bahia. O jornalista Valdemar convocou os repórteres dizendo, “escrevam rapidinho quê vocês sabem sobre Lamarca antes que chegue a ordem da censura proibindo a divulgação da notícia’’.
Quando o censor chegou, a notícia já tinha ido ao ar.
Desde o final dos anos 60 até os anos 80, fazer notícia no Brasil era um safari no qual o jornalista virava caça (alguns, entre eles Vladimir Herzog, perderam a vida pela notícia) quando se dispunha a denunciar ou, simplesmente anunciar itens da agenda negativa da ditadura militar que governou o País de 1964 a 1985.
Daquele setembro de 1971 para novembro de 2003, o povo brasileiro e as oposições armadas, ou não, foram impondo derrotas seguidas ao regime militar que saiu pelas portas dos fundos do Palácio do Planalto (o último deles, general João Batista Figueiredo saiu pelos fundos do palácio para não entregar a faixa ao sucessor José Sarney) pedindo para que todos se esquecessem e o Brasil foi às urnas escolher um presidente.
O banimento da censura tornou possível ao povo brasileiro desalojar Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo voto universal depois da ditadura, do Palácio do Planalto. Um ano depois, exatamente porque não mais estava censurada, a imprensa denunciou os mecanismos de corrupção usados pelos parlamentares que integravam a Comissão de Orçamento e ajudou a expurgar homens que construiram fortunas em cima das misérias do povo.
A “CPI dos anões”, como ficou conhecida a Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou os parlamentares que manipulavam o Orçamento da União engordando seus cofrinhos parecia ter consagrado a liberdade de informação. Mas, para que não esqueçamos os anos de chumbo, o presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, eleito pelo Partido dos Trabalhadores de São Paulo, não teve nenhum escrúpulo em retomar esse exercício digno de republiquetas sem caráter ou talibans ensandecidos.
Ao criticar a edição do “Jornal da Câmara” que divulgou a notícia da condenação do deputado Inocêncio Oliveira, do Partido da Frente Liberal de Pernambuco, pela prática de trabalho escravo, João Paulo Cunha, um jovem, ambicioso e vaidoso deputado ao mesmo tempo em que nos faz recordar os anos censurados, estimula essa ignominiosa realidade que vem sendo combatida por missionários dedicados da Igreja Católica, entre eles o padre Ricardo Rezende; funcionários do Ministério do Trabalho que, apesar das condições desbaratam a quadrilha escravagista e até jovens juízes que condenam os políticos poderosos e empresários sem escrúpulos.
João Paulo também está desautorizando companheiros de seu próprio partido, entre eles, o deputado Paulo Rocha, do Pará, que tem um projeto de lei tramitando no Congresso no qual prevê a desapropriação de terras de fazendeiros que submetem trabalhadores à condição análoga de escravo, crime previsto no Código Penal Brasileiro.
Além de ressuscitar a censura, o presidente da Câmara dos Deputados colabora também para expor o Brasil à crítica dos organismos internacionais de Direitos Humanos, entre eles, a Anistia Internacional e a Anti-Slavery Society, esta última criada em Londres ainda no século XIX para combater a escravidão e que concedeu ao padre Ricardo Rezende um prêmio por suas denúncias contra o trabalho escravo no sul do Pará.
Por acreditar que só a liberdade de informação combate a corrupção e a impunidade, “Nas Entrelinhas” está levando o caso do Jornal da Câmara e a defesa feita pelo presidente daquela casa a um colega que pratica a mais torpe das explorações humanas para o IX Encontro da Federação Latinoamericana de Periodistas que vai acontecer no México entre os dias 19 e 21 de novembro com o tema “Imprensa livre em países livres’’.
ABAIXO A CENSURA!

Memélia Moreira, editora

Domingo, Novembro 09, 2003

Nenhures* 10 de novembro de 2003

POBRES E SUJOS

Mais infeliz do que aquele presidente que garantia ter “um pé na cozinha” para explicar sua miscigenação, ou chamava de “vagabundos” as pessoas que já tinham dedicado sua vida ao serviço público e tentavam manter dignidade na merecida aposentadoria, só mesmo a frase do presidente Luis Inácio Lula da Silva dizendo, ao encerrar sua visita ao continente africano que Windoeck, a capital da Namíbia é tão limpa que não parece África. Na se conhece, na história recente do Brasil, manifestação tão explícita de preconceito feita por um presidente da República. Já tivemos presidente que preferia cheiro de cavalo ao cheiro do povo. E até presidente que gostava de sair cheirando mas, com tanta carga de preconceito, essa é a primeira vez.
Agora imaginem se o presidente do Chile, depois de circular por Recife, Salvador e São Luís desembarcasse em Curitiba e dissesse que a capital paranaense é tão limpinha com um povo tão branquinho, que nem parece Brasil. Nós seríamos capazes de sair caçando chilenos nas redondezas para vingar nosso orgulho, ferido por um presidente mal educado e grosseiro.
Mas não foi essa a única frase carregada de preconceito dita por Lula no seu discurso em Windoeck. Na seqüência, tentando remendar o constrangimento, ele mais uma vez demonstrou o quanto despreza quem tem traços de não-europeu. No caso, um preconceito mais sofisticado porque racista, também. Ao dizer que “a visão que se tem da América do Sul é de que é um continente de índio pobre” frase que se seguiu ao comentário sobre a limpeza da Namíbia, Lula, tentou exorcizar seus fantasmas e complexos por ter tido uma vida miserável, e nascido num continente empobrecido e, sim, também indígena, com muito orgulho, senhor presidente.
Essa seqüência do discurso foi um recado para que países ricos não olhem o Brasil e, por extensão, a América Latina, tampando o nariz. “Olhem, senhores, não somos apenas um continente de índio pobre, sujo, cheirando a urucum e jenipapo, esfarrapados vendendo artesanato na rua. Temos ricos e brancos, também. Temos até pessoas que sabem tomar Romanée-Contie e esquiam em Denver”. Só um recadinho, Lula, a moda dos ricos agora, não é mais esquiar no Colorado. Os limpos estão preferindo Sun Valley, em Idaho. Os sujos continuam surfando sobre os trens da Central do Brasil.
Mas vamos à questão da sujeira aliada à pobreza. A África, ao lado de algumas regiões da América Latina e Ásia, é uma das áreas mais desertificadas do planeta. Desertificação provocada não por fenômenos naturais, mas pela exploração selvagem de seus recursos naturais, comandada pelos países do ricos ( e limpos) que mantinham naquele continente extensos latifúndios, cultivando a terra sem o menor cuidado.
Cameroun, Mauritânia, Angola, só para citar alguns, são países em que a desertificação está expulsando o povo do campo que não tem mais água nem para beber. Só na cidade de Nouakchott, capital da Mauritânia vive mais de 40% da população de todo o país. Camponeses que fogem da seca. Realidade conhecida pelos camponeses do Nordeste brasileiro que migram para as metrópoles.
Em 1999, reuniu-se em Recife a convenção da ONU de combate à desertificação. Os representantes africanos foram unânimes em apontar o latifúndio como uma das principais causas dessa tragédia. Tal como o Brasil, muitos países da África não promoveram sua reforma agrária.
Além do latifúndio, fruto de um colonialismo bestial que exauriu a África, a corrupção também contribui para o espetáculo de miséria e sujeira visto vor Lula. E a corrupção, herança maldita dos colonizadores, persiste até os dias de hoje. Angola, país rico em diamantes e petróleo teve uma guerra mais prolongada porque algumas autoridades do Governo negociavam diamantes com os inimigos. E Jonas Savimbi trocava tudo por armas.
Os recursos financeiros para programas de combate às secas ou às desertificações nunca chegam ao povo. Escorrem pelos açudes dos latifundiários. Governos populistas não elaboram projetos para levar água e saneamento às populações miseráveis do Brasil ou da África, apenas fabricam projetos cosmetológicos sem qualquer preocupação em atacar o problema na raíz.
No agreste meridional onde nasceu Lula, sujeira e pobreza se confundem. Não há água. Nem suja, nem limpa. Talvez por isso e porque “os preconceitos afloram no improviso”, como disse o deputado José Carlos Aleluia líder do PFL na Câmara dos Deputados do Brasil, referindo-se à gafe do presidente da República, é que Lula carregue, no seu inconsciente, a idéia de que pobre e sujo sejam sinônimos qualificativos de povos que foram barbarizados pela corrupção dos impérios.
Num outro pnto da África um pacifista disse “Pai, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem”. Nesse caso, nem o quê falam.

* Quando do processo de criação desta página pedi à família e aos amigos que sugerissem um nome. O neologismo Nenhures, ou não-lugar, palavra que bem define o mundo virtual, foi sugestão de Helena Schiel, estudante de mestrado em Antropologia, na USP e, minha filha. Nenhures é qualquer lugar onde este noticiário estiver sendo escrito.