Nenhures, 25 de novembro de 2003
Tomo emprestada do deputado Luis Eduardo Greenhalgh, do Partido dos Trabalhadores de São Paulo, uma de suas frases costumeiras para definir o encontro da ALCA em Miami: “De derrota em derrota até à vitória final”. Para os pessimistas, a reunião foi uma derrota porque o Brasil, que vem representando uma esperança de resistência para todos os movimentos sociais do Alaska à Patagônia, mudou o tom de discurso. Para os otimistas, Miami, com todo o aparato militar para conter os manifestantes, foi mais um passo para um acordo que preserve soberanias mínimas. Frustrou as expectativas do todo poderoso secretário norte-americano Robert Zoellick, (seu cargo corresponde ao de ministro de Relações Exteriores) que pretendia fechar os principais pontos da ALCA ainda este ano. Contentou-se em anunciar acordos bilaterais.
Mesmo nocauteado pela iniciativa norte-americana de firmar estes acordos bilaterais com Peru, Colômbia, Equador e Bolívia, além de alguns países da América Central, o embaixador brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim – que não contou sequer com qualquer respaldo dos empresários brasileiros presentes no fórum de Miami –conseguiu reagir às investidas de Zoellick. No final do encontro, que foi encerrado antecipadamente, Zoellick não escondia sua frustração porque não se fechou nenhum ponto polêmico.
Roberto Zoellick quer que a Área de Livre Comércio das Américas já comece a funcionar em janeiro de 2005 mas, nem o Chile, que concorda com quase todos os pontos apresentados pelos Estados Unidos, acredita nessa data. Até lá, os EUA vai passar por uma eleição presidencial que pode tirar Bush da Casa Branca, atrasando assim o calendário pretendido pelo representante de Washington.
Amorim enfrentou também iras mal-disfarçadas de empresários brasileiros e americanos. O presidente da National Association of Manufactures, versão americana da Confederação Nacional de Indústria do Brasil, Frank Vargo, deixou clara sua insatisfação dizendo, no final do encontro que “o Brasil é o navio lento do comboio, mas os outros têm pressa, por isso nós vamos continuar a pressionar”. Num tom menos duro, Osvaldo Douat, da Coalizão Empresarial Brasileira, que participou do forum empresarial, realizado no mesmo hotel em que estavam reunidos ministros do continente, referiu-se à estrutura flexível proposta pelo governo brasileiro como “complexa”. Com cuidado para não entrar em choque aberto com o governo ele disse que “ambientes com regras múltiplas e superpostas geram incerteza, insegurança e dificuldades para participação de empresas de menor porte’’.
Apesar das choradeiras, o Brasil pode garantir algumas vitórias na reunião de Miami. A principal delas foi no mais delicado de todos os pontos do acordo da ALCA: proteção à propriedade intelectual. O ministro brasileiro conseguiu adiar essa discussão e jogá-la para um debate dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde os Estados Unidos não é hegemônico e tem que disputar espaço com os países industrializados da Europa.
A proteção da propriedade intelectual, é um dos pontos mais sensíveis da ALCA porque, à exceção dos Estados Unidos e Canadá, e muitos pontos abaixos, o Brasil, os demais países da América não têm a menor condição de concorrer com os gigantes. São países com indústrias incipientes e só entram nesse mercado com matérias-primas, sobre as quais não há qualquer proteção dada à inexistência de uma política de valor agregado à matéria-prima. E mesmo com as matérias-primas esses-países já entram em desvantagem porque os produtos agrícolas americanos são altamente subsidiados e um agricultor do Equador, por exemplo, não tem qualquer subsídio e o chuchu que vai vender para o mercado americano (o Equador exporta chuchu para os Estados Unidos) será mais caro do que o produzido nos EUA.
O debate sobre valor agregado à matéria-prima sequer está sendo cogitado dentro da ALCA. E essa é uma reivindicação dos movimentos sociais que participaram dos protestos em Miami, entre eles a Organização Latino-Americana de Trabalhadores do Campo. Eles chamam atenção desse capítulo dizendo: “Não temos valor agregado à areia, mas com areia se faz vidro e vamos comprar uma garrafa, feita com nossa matéria-prima mas protegida pela propriedade intelectual e, assim, voltamos ao estado colonial”, disse Manuel Angel Cruz, mexicano que pode informar aos demais latino-americanos sobre as tristes conseqüências da NAFTA, a área comercial que integra Estados Unidos, México e Canadá.
O próximo round para fechar o acordo da ALCA vai acontecer no México, na pequena e bela Puebla de Los Angeles, cidade que foi visitada pelo Papa João Paulo II em sua primeira viagem internacional. No mes de fevereiro faz frio em Puebla, mas os movimentos sociais, sindicais e políticos da América Latina e Estados Unidos já estão se organizando para pressionar o governo americano a refazer a proposta da ALCA e torná-la menos injusta.
Memélia Moreira, editora
Tomo emprestada do deputado Luis Eduardo Greenhalgh, do Partido dos Trabalhadores de São Paulo, uma de suas frases costumeiras para definir o encontro da ALCA em Miami: “De derrota em derrota até à vitória final”. Para os pessimistas, a reunião foi uma derrota porque o Brasil, que vem representando uma esperança de resistência para todos os movimentos sociais do Alaska à Patagônia, mudou o tom de discurso. Para os otimistas, Miami, com todo o aparato militar para conter os manifestantes, foi mais um passo para um acordo que preserve soberanias mínimas. Frustrou as expectativas do todo poderoso secretário norte-americano Robert Zoellick, (seu cargo corresponde ao de ministro de Relações Exteriores) que pretendia fechar os principais pontos da ALCA ainda este ano. Contentou-se em anunciar acordos bilaterais.
Mesmo nocauteado pela iniciativa norte-americana de firmar estes acordos bilaterais com Peru, Colômbia, Equador e Bolívia, além de alguns países da América Central, o embaixador brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim – que não contou sequer com qualquer respaldo dos empresários brasileiros presentes no fórum de Miami –conseguiu reagir às investidas de Zoellick. No final do encontro, que foi encerrado antecipadamente, Zoellick não escondia sua frustração porque não se fechou nenhum ponto polêmico.
Roberto Zoellick quer que a Área de Livre Comércio das Américas já comece a funcionar em janeiro de 2005 mas, nem o Chile, que concorda com quase todos os pontos apresentados pelos Estados Unidos, acredita nessa data. Até lá, os EUA vai passar por uma eleição presidencial que pode tirar Bush da Casa Branca, atrasando assim o calendário pretendido pelo representante de Washington.
Amorim enfrentou também iras mal-disfarçadas de empresários brasileiros e americanos. O presidente da National Association of Manufactures, versão americana da Confederação Nacional de Indústria do Brasil, Frank Vargo, deixou clara sua insatisfação dizendo, no final do encontro que “o Brasil é o navio lento do comboio, mas os outros têm pressa, por isso nós vamos continuar a pressionar”. Num tom menos duro, Osvaldo Douat, da Coalizão Empresarial Brasileira, que participou do forum empresarial, realizado no mesmo hotel em que estavam reunidos ministros do continente, referiu-se à estrutura flexível proposta pelo governo brasileiro como “complexa”. Com cuidado para não entrar em choque aberto com o governo ele disse que “ambientes com regras múltiplas e superpostas geram incerteza, insegurança e dificuldades para participação de empresas de menor porte’’.
Apesar das choradeiras, o Brasil pode garantir algumas vitórias na reunião de Miami. A principal delas foi no mais delicado de todos os pontos do acordo da ALCA: proteção à propriedade intelectual. O ministro brasileiro conseguiu adiar essa discussão e jogá-la para um debate dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde os Estados Unidos não é hegemônico e tem que disputar espaço com os países industrializados da Europa.
A proteção da propriedade intelectual, é um dos pontos mais sensíveis da ALCA porque, à exceção dos Estados Unidos e Canadá, e muitos pontos abaixos, o Brasil, os demais países da América não têm a menor condição de concorrer com os gigantes. São países com indústrias incipientes e só entram nesse mercado com matérias-primas, sobre as quais não há qualquer proteção dada à inexistência de uma política de valor agregado à matéria-prima. E mesmo com as matérias-primas esses-países já entram em desvantagem porque os produtos agrícolas americanos são altamente subsidiados e um agricultor do Equador, por exemplo, não tem qualquer subsídio e o chuchu que vai vender para o mercado americano (o Equador exporta chuchu para os Estados Unidos) será mais caro do que o produzido nos EUA.
O debate sobre valor agregado à matéria-prima sequer está sendo cogitado dentro da ALCA. E essa é uma reivindicação dos movimentos sociais que participaram dos protestos em Miami, entre eles a Organização Latino-Americana de Trabalhadores do Campo. Eles chamam atenção desse capítulo dizendo: “Não temos valor agregado à areia, mas com areia se faz vidro e vamos comprar uma garrafa, feita com nossa matéria-prima mas protegida pela propriedade intelectual e, assim, voltamos ao estado colonial”, disse Manuel Angel Cruz, mexicano que pode informar aos demais latino-americanos sobre as tristes conseqüências da NAFTA, a área comercial que integra Estados Unidos, México e Canadá.
O próximo round para fechar o acordo da ALCA vai acontecer no México, na pequena e bela Puebla de Los Angeles, cidade que foi visitada pelo Papa João Paulo II em sua primeira viagem internacional. No mes de fevereiro faz frio em Puebla, mas os movimentos sociais, sindicais e políticos da América Latina e Estados Unidos já estão se organizando para pressionar o governo americano a refazer a proposta da ALCA e torná-la menos injusta.
Memélia Moreira, editora