NAS ENTRELINHAS                                 


CARTA ABERTA

de Memélia Moreira

Quarta-feira, Junho 09, 2004

Nenhures, 9 de junho de 2004

Estamos com nosso correspondência atrasada em dois dias. É muito para uma página eletrônica que que quer ser levada a sério mas, quase nada que cause tanto prejuízo a uma sociedade e um país inteiro, quanto vampiros que sugam o sangue e a seiva da sociedade brasileira em transações nebulosas.
A operação contra a máfia que atuava (?) na compra dos hemoderivados para o Ministério da Saúde mais uma vez mostrou que, se os agentes do atual governo têm sido morosos para dar agilidade à máquina administrativa demonstram celeridade no aprendizado dos caminhos da corrupção.
Mais uma vez o nome de Delúbio Soares, o tesoureiro da campanha vitoriosa do presidente Luis Inácio Lula da Silva, aparece em meio a estes exercícios de uso indevido do poder. Foi ele quem negociou apoio financeiro dos laboratórios farmacêuticos para a campanha do PT. Os números citados também são controversos. Delúbio diz que os laboratórios doaram de 1,5 a 1.6 miçhões de reais para a campanha mas análises feitas por estudiosos apontam para um máximo de 1.075. Pouco importa, nesse momento, qual o valor real. O que importa é a figura do teoureiro, home de absoluta confiança tanto do presidente Lula quanto do presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genoíno. E, foi Delúbio quem levou o "vampiro" Laerte de Arruda Correia a negociar o apoio dos laboratórios, entre eles, o Laboratório Schering, de triste lembrança, que usava farinha de trigo nas pílulas anticoncepcionais, transtornando a vida de algumas dezenas de mulheres. A Schering colaborou com cem mil reais para levar Lula ao Palácio do Planalto. Será que as vítimas do anticoncepcional sabem disso?
Talvez seja maldição, mas esta não é a primeira vez que um tesoureiro de campanha tem seu nome envolvido ( e pelo menos num caso, o de Paulo César Farias com atuação comprovada) em transações nebulosas. Além do caso PC, tivemos Ricardo Sérgio, outro corrupto que "operava" recursos" de campanha, no caso, para eleger José Serra (PSDB), senador por São Paulo.
Mas vamos a Delúbio. É seu partido quem tem agora a responsabilidade sobre as chaves do tesouro. Curiosa figura de ascensão meteórica não apenas no poder mas, no high-society brasileiro. Seu nome vem aparecendo com certa freqüência (e ele estimula esse tipo de informação) nas mais prestigiadas páginas do colunismo social.
Comecemos por sua história. De onde vem? Não se precisa ir muito longe na pesquisa. Delúbio é cria do sindicalismo e cresceu dentro da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o braço sindical do PT. Se era sindicalista, significa que era trabalhador. Se era trabalhador, significa que tinha um salário. Não sendo salário de marajá, porque era da rede pública de ensino, sua renda com certeza nunca chegou a cinco mil dólares mensais (desculpem usar o dólar como referência mas assim fica mais fácil calcular). Isso tudo, há menos de dez anos.
Não há, na crônica petista, nenhuma informação sobre a sorte de Delúbio nas loterias. Apesar disso, nos últimos cinco anos, ele vem ostentando sinais exteriores de riqueza.
Esses sinais podem são facilmente comprovados apenas por quem lê jornais. O professor sindicalista, com salário de menos de cinco mil dólares, na campanha de 2002, ofereceu um jantar para seu candidato, Lula, onde o vinho servido era nada menos que um Romanée-Conti. Deixo aos leitores o trabalho de calcular qual o impacto de um Romanée-Conti nas finanças de um sindicalista. Quem quiser, pode fazer pesquisa no caderno "Ilustrada", da Folha de São Paulo, pesquisando a notícia nos meses da campanha.
E, logo no primeiro ano de Governo, Delúbio, que mesmo sem nenhum mandato popular tem mais trânsito nos ministérios do que muito parlamentar, promoveu uma festa de aniversário em sua fazenda (ele é vizinho de Fernando Henrique Cardoso, em Buritis) onde "desceram 18 aviões". Isso significa que esse sindicalista tem uma propriedade de terra com campo de pouso e espaço suficiente para abrigar 18 aviões. A notícia também pode ser encontrada nas colunas sociais do começo do ano.
Ora, se há menos de dez anos ele circulava num carro velho e varava noites em assembléias para pedir reajuste de salário, chega a ser surpreendente sua capacidade de acumular uma pequena fortuna em tão pouco tempo. Mais surpreendente ainda o fato de que uma pessoa com tal capacidade não esteja no comando das finanças do governo de Lula. Afinal de contas, um assalariado que consegue tomar um dos vinhos mais caros do mercado e sustentar uma fazenda com campo de pouso, é um fenômeno digno de se analisados pelos premios Nobel de Economia.
Ou não é nada disso?
O desenrolar da "Operação Vampiro" é quem vai dar muitas respostas. Quem sabe vamos aprender em como multiplicar nosos salários. É minha esperança.

Um abraço
Até a próxima semana.
Memélia Moreira
Editora


Terça-feira, Junho 01, 2004

Nenhures, 1 de junho de 2004

Até parece que agora a coisa vai!
Era de se esperar que depois de seu discurso em Guadalajara, na volta da viagem ao Shopping China, o presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, fosse mandar às favas a orientação do mercado, seguida com fervor pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci. E, a partir daí, dar a largada para uma política econômica voltada para o bem estar social, mais de acordo com o antigo ideário do Partido dos Trabalhadores.
Essa é a dedução lógica de quem ouviu ou leu o discurso feito pelo presidente brasileiro durante a III Cúpula América Latina, Caribe, União Européia. Foi uma passagem rápida pela bela cidade mexicana de Guadalajara. Mas, suficiente para que Lula manifestasse seu aparente descontentamento com as regras do mercado, essa entidade quase mitológica que a cada dia leva milhares de pessoas a integrar o contingente dos miseráveis do planeta.
Lula disse que "com grandes sacrifícios estamos empreendendo em nosso continente a reestruturação de nossas economias. Estamos saneando nossas finanças públicas. Modernizamos e tornamos mais eficiente nossa ação governamental. Adotamos a responsabilidade fiscal na gestão pública. Reduzimos as vulnerabilidades que comprometem e limitam o desenvolvimento econômico e social. Mais é evidente que não basta fazer o dever de casa. Mais grave: todo nosso sacrifício não impediu que se mantivessem inalterados ou, pior, se agravassem as estatísticas da fome, da pobreza, do desemprego, da desesperança" e terminou o discurso convocando os países ricos a ajudar no combate contra as desigualdades sociais.
Até parecia o Lula das campanhas presidenciais mas a fala não era para eleitores em potencial. Lá estavam, entre outros, Jacques Chirac, da França; Gerhard Schöreder, da Alemanha; José Luis Zapatero, da Espanha; Ferenc Mádi, da Hungria, Carlos Mesa, da Bolívia; Vicente Fox, do México, anfitrião do encontro que reuniu 19 chefes de Estado.
Não houve repercussões do discurso. Nem mesmo os jornais mexicanos, país cuja miséria se iguala à do Brasil saudaram o discurso. Lula já não causa mais frisson. E não é para menos. Foram apenas palavras, palavras e mais palavras que contradizem a prática do governo de Luis Inácio Lula da Silva. Até porque romper com o mercado exige pelos menos alguns gestos de bravura que, na América Latina são esboçados apenas pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez (a grande intriga do encontro foi o tratamento quase frio dispensado por Lula a seu colega venezuelano).
Mal chegou ao Brasil, cansado de seu tour, que incluiu passeio à Grande Muralha e visita a Shangai, além de Peiping, Lula passou o fim de semana repousando. Depois do repouso e, menos de três dias de um discurso que parecia rompimento com as amarras do mercado (que é apenas mais um eufemismo do sistema capitalista), lá foi ele de novo seguir as regras que tanto condenou em Guadalajara. Não apenas seguir mas, trabalhar pelo seu sucesso. E, para isso, logo na segunda-feira, determinou que todos os seus ministros assumam a defesa e negociação do salário-mínimo de 260 reais, medida provisória que está em vias de ser votada pelo Congresso.
Ora, para quem tanto se queixou do mercado, prestou conta aos "patrões" do hemisfério norte dizendo que está fazendo tudo que o mestre mandou, a disposição de Lula em defender o salário-miséria só pode ser explicada por psicanlistas. No mínimo, se trata de uma esquizofrenia em grau bastante elevado.
Ou, quem sabe, saudade dos palanques onde despejou palavras, palavras e palavras, criando uma esperança que ele mesmo passou a desconstruir.

Em tempo: o mercado não está nem aí para o bom comportamento fiscal do Presidente. E o dólar bateu seu recorde no mes de maio, com mais de 3% de valorização.

Até a próxima semana.

Memélia Moreira

Editora