Nenhures, 22 de dezembro de 2003
Quase comovente a declaração do presidente Luis Inácio Lula da Silva se dizendo no momento mais feliz de sua vida. Uma pessoa feliz. É assim que ele se sente. E tem inúmeras razões para se sentir e se declarar feliz. Vejamos algumas delas e vocês hão de concordar que ele foi honesto na sua manifestação.
Tem emprego garantido por, no mínimo, mais de mil dias, até janeiro de 2007, se não houver nenhum acidente de percurso. Para um trabalhador no Brasil de hoje, com o índice de desemprego crescente, isso já é motivo de sobra para estar feliz. Além disso, o emprego é bem remunerado, acrescentando-se ao salário, uma aposentadoria que ele conquistou há muito tempo, mesmo sem ter cumprido o tempo de serviço que agora exige dos demais brasileiros na sua reforma da Previdência.
Não paga aluguel, conta de luz, de água, telefone e, menos ainda combustível para se locomover. Até o cachorro presidencial é transportado de graça. É claro que só aí, já há mais do que motivos de sobra para Lula exibir um contagiante sorriso de felicidade, principalmente porque para ele tanto faz se o preço do gás, da gasolina sobem ou se estabilizam. Pouco importa também se as tarifas de água, luz e telefone são aumentadas. Pelos menos nesses mil e tantos dias, ele está livre de pagar a conta. Também não paga aluguel, não precisa fazer compras no supermercado, por isso o preço dos gênereos alimentícios não lhe interessam. Ou não afetam sua felicidade pessoal.
As razões são incontáveis. Por exemplo, quer fazer uma festa. Não tem problema, os áulicos providenciam carne, peixe. E povo paga a conta das bebidas. A qualquer sinal de tédio, leva a patroa para conhecer pirâmides do Egito, palácios reais, castelos, enfim, pequenos passeios cujo saldo são apenas promessas de negócios.
Para completar, a felicidade maior. Ele não precisa trabalhar. Há alguns anos, quando Lula era apenas uma promessa de mudança, seus adversários diziam que ele era preguiçoso, que não gostava de trabalhar. Petistas e simpatizantes reagiam irados. Mas, agora, é o próprio Lula quem confessa não trabalhar. No seu discurso de balanço do primeiro ano de governo, o presidente da República revelou que o ministro Antonio Palocci cuida da economia e o ministro José Dirceu da política e “faz coisa que eu nem sei’’. Não disse quem cuida do social, até porque o social está abandonado. Ou seja, traduzindo em miúdos, o presidente mesmo, não faz nada porque não entende de economia (seu ministro da Fazenda também não é exatamente um especialista na área) e na política nem sabe o que seu articulador faz. O quê resta? Talvez andar de skate no gabinete presidencial. Diga-se de passagem, essas brincadeirinhas de Lula lembram o ex-presidente Fernando Collor. A diferença é que o outro era mais high-tech e gostava de brincar em avião supersônico e submarinos.
Na sua felicidade, o presidente Lula até se esqueceu que em 17 de janeiro de 2003, quando fez sua primeira grande reunião ministerial, exigiu do ministro da Justiça , Márcio Thomaz Bastos, um projeto para erradicar a prostituição infantil. Ninguém sabe por onde anda e se existe este projeto. Também garantiu que todo brasileiro faria pelos menos duas refeições por dia. O Fome Zero, em quase um ano pouco tem a apresentar. E não precisa sair da capital do Brasil para se ver que o projeto é um fracasso. Há pouco menos de dois meses, um cidadão brasileiro desmaiou de fome numa calçada em Brasília. Foi socorrido por uma advogada que entrou no supermercado e comprou o mínimo para que o homem pudesse se levantar naquele dia. Isso, a menos de 15 quilômetros da sede do Governo. A violência no campo bateu seus recordes históricos. Mais de 60 trabalhadores rurais assassinados no primeiro ano do governo de Lula. A mesma violência atingiu os índios. 23 mortos em 11 meses. Os exemplos se sucedem em trágica monotonia. E não adianta falar em “herança maldita” porque o herdeiro repete o itinerário de seu antecessor. Apesar disso, está feliz.
É, o Brasil tem um presidente feliz. Seus eleitores, nem tanto. A taxa de expectativaem relação ao Governo, diminuiu. Se não é um sinal amarelo é, pelo menos, constatação de que os eleitores já não estão acreditando tanto na pirotecnia verbal do presidente. O povo já não está tão feliz como há um ano no gramado da Esplanada dos Ministérios, quando chorava de emoção com a posse daquele que lhes prometera uma vida melhor. E talvez deixe o recado em outubro de 2004.
Um abraço
Memélia Moreira, editora
Quase comovente a declaração do presidente Luis Inácio Lula da Silva se dizendo no momento mais feliz de sua vida. Uma pessoa feliz. É assim que ele se sente. E tem inúmeras razões para se sentir e se declarar feliz. Vejamos algumas delas e vocês hão de concordar que ele foi honesto na sua manifestação.
Tem emprego garantido por, no mínimo, mais de mil dias, até janeiro de 2007, se não houver nenhum acidente de percurso. Para um trabalhador no Brasil de hoje, com o índice de desemprego crescente, isso já é motivo de sobra para estar feliz. Além disso, o emprego é bem remunerado, acrescentando-se ao salário, uma aposentadoria que ele conquistou há muito tempo, mesmo sem ter cumprido o tempo de serviço que agora exige dos demais brasileiros na sua reforma da Previdência.
Não paga aluguel, conta de luz, de água, telefone e, menos ainda combustível para se locomover. Até o cachorro presidencial é transportado de graça. É claro que só aí, já há mais do que motivos de sobra para Lula exibir um contagiante sorriso de felicidade, principalmente porque para ele tanto faz se o preço do gás, da gasolina sobem ou se estabilizam. Pouco importa também se as tarifas de água, luz e telefone são aumentadas. Pelos menos nesses mil e tantos dias, ele está livre de pagar a conta. Também não paga aluguel, não precisa fazer compras no supermercado, por isso o preço dos gênereos alimentícios não lhe interessam. Ou não afetam sua felicidade pessoal.
As razões são incontáveis. Por exemplo, quer fazer uma festa. Não tem problema, os áulicos providenciam carne, peixe. E povo paga a conta das bebidas. A qualquer sinal de tédio, leva a patroa para conhecer pirâmides do Egito, palácios reais, castelos, enfim, pequenos passeios cujo saldo são apenas promessas de negócios.
Para completar, a felicidade maior. Ele não precisa trabalhar. Há alguns anos, quando Lula era apenas uma promessa de mudança, seus adversários diziam que ele era preguiçoso, que não gostava de trabalhar. Petistas e simpatizantes reagiam irados. Mas, agora, é o próprio Lula quem confessa não trabalhar. No seu discurso de balanço do primeiro ano de governo, o presidente da República revelou que o ministro Antonio Palocci cuida da economia e o ministro José Dirceu da política e “faz coisa que eu nem sei’’. Não disse quem cuida do social, até porque o social está abandonado. Ou seja, traduzindo em miúdos, o presidente mesmo, não faz nada porque não entende de economia (seu ministro da Fazenda também não é exatamente um especialista na área) e na política nem sabe o que seu articulador faz. O quê resta? Talvez andar de skate no gabinete presidencial. Diga-se de passagem, essas brincadeirinhas de Lula lembram o ex-presidente Fernando Collor. A diferença é que o outro era mais high-tech e gostava de brincar em avião supersônico e submarinos.
Na sua felicidade, o presidente Lula até se esqueceu que em 17 de janeiro de 2003, quando fez sua primeira grande reunião ministerial, exigiu do ministro da Justiça , Márcio Thomaz Bastos, um projeto para erradicar a prostituição infantil. Ninguém sabe por onde anda e se existe este projeto. Também garantiu que todo brasileiro faria pelos menos duas refeições por dia. O Fome Zero, em quase um ano pouco tem a apresentar. E não precisa sair da capital do Brasil para se ver que o projeto é um fracasso. Há pouco menos de dois meses, um cidadão brasileiro desmaiou de fome numa calçada em Brasília. Foi socorrido por uma advogada que entrou no supermercado e comprou o mínimo para que o homem pudesse se levantar naquele dia. Isso, a menos de 15 quilômetros da sede do Governo. A violência no campo bateu seus recordes históricos. Mais de 60 trabalhadores rurais assassinados no primeiro ano do governo de Lula. A mesma violência atingiu os índios. 23 mortos em 11 meses. Os exemplos se sucedem em trágica monotonia. E não adianta falar em “herança maldita” porque o herdeiro repete o itinerário de seu antecessor. Apesar disso, está feliz.
É, o Brasil tem um presidente feliz. Seus eleitores, nem tanto. A taxa de expectativaem relação ao Governo, diminuiu. Se não é um sinal amarelo é, pelo menos, constatação de que os eleitores já não estão acreditando tanto na pirotecnia verbal do presidente. O povo já não está tão feliz como há um ano no gramado da Esplanada dos Ministérios, quando chorava de emoção com a posse daquele que lhes prometera uma vida melhor. E talvez deixe o recado em outubro de 2004.
Um abraço
Memélia Moreira, editora